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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Jornalismo papel higiênico

Se há coisa que me faz soltar umas imprecações, uns quantos palavrões sentidos, é quando o jornalismo, arma essencial numa sociedade moderna e democrata, se tenta armar aos cucos, mandando por água a baixo a sua credibilidade, transformando o que deveria ser uma poderosa arma informativa, num mero rolo de papel higiénico.

 

No meio das notícias que lia, aparece-me à frente uma notícia do jornal Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. Começo por questionar qual o interesse de escrever um artigo sobre a esposa de um candidato às eleições francesas, mas, ainda assim, embora pouco relevante e de cariz fofoqueiro e não informativo, grande mal não viria ao mundo. No entanto, o título, o grande sacana do título, quase me provocou uma apoplexia.

 

Observador.jpg

 

Há algo de absolutamente sexista, misógino neste título, mas o que ainda me enfurece mais é a cobardia implícita pelo uso das aspas. O jornal Observador usou a expressão «barbie com menopausa» para designar Brigitte e, um pouco em jeito de «não fui eu que disse, foram outros senhores», usou as aspas como desculpa pelo abuso. Na realidade, é irrelevante quem usou primeiro a expressão, a repetição de um absurdo não é desculpável pela antecedência desse absurdo. Não é por vários jornais se terem apropriado de uma expressão sexista e redutora de uma mulher que é admissível e desculpável a persistência do uso dessa expressão.

 

Quanto à expressão em si, por mais voltas que o mundo dê, a mulher continua a ter um tratamento diferenciado do do homem, tratamento esse fortemente ligado a uma certa objetivação, ao aspeto físico, a uma certa ideia de família tradicional. Não há escândalo algum em Melania ser uma catrefada de anos mais novo do que Trump, não há drama algum em Marcela ser quase quarenta anos mais jovem do que Temer. A eles, gabam-lhes a capacidade de terem arranjado tão bonitas e jovens esposas, a elas gabam-lhes a juventude e a beleza.

 

Mas o diabo do Macron, grande cromo, foi arranjar uma esposa vinte e picos anos mais velha. É o apocalipse. A ela, apesar de não lhe negarem uma suposta beleza, esfregam-lhe na cara a evidência do envelhecimento, da sexualidade decadente implícita, o uso do «com menopausa» como se de uma doença maligna se tratasse,  a ele chamam-lhe de menino da mamã e tentam arranjar desculpas para tão bizarra escolha: é gay, o casamento é uma fachada.

 

Em suma, tanto num exemplo como noutro, a mulher fica-se pela única dimensão do aspeto físico e apenas essa dimensão é explorada. Sem grande interesse, no caso da juventude (é comum homens poderosos e ricos casados com mulheres mais novas), mas em tom de escândalo quando o oposto acontece: homem jovem casado com mulher mais velha. A nós, mulheres, para estes jornaleiros da atualidade, resta-nos o papel de bibelot, acompanhante de luxo dos senhores políticos, ícone de beleza.

 

Pois é… tanto tempo perdido, tanto computador ligado a gastar energia, e gastam os jornais tempo nestas irrelevâncias constrangedoras e perpetuadoras de estereótipos tristes e ultrapassados.

 

Sabem, o que eu gostaria mesmo de saber é quem é Macron, qual o seu passado político, qual as suas propostas em cima da mesa para o futuro da França, quais as contradições do seu discurso político, quais as soluções e a sua viabilidade, qual a capacidade que demonstra para enfrentar a França pelos cornos. Só isso, nada mais do que isso.

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