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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Jo Nesbø — a arte dos excessos

Spoiler alert

 

Quanto pode aguentar um homem, um personagem, para que as ocorrências da sua vida possam ser consideradas excessivas, inverosímeis?

 

Enquanto leitores, nomeadamente de livros policiais, somos, página após página, manipulados a ultrapassar a barreira da verosimilhança através da mestria do escritor que elaborou aquela trama.

 

Não me causa transtorno ler um policial de Yrsa Sigurdardóttir e Arnaldur Indridason, ambos escritores islandeses, apesar de conhecer a estatística de assassinatos na Islândia e perceber que qualquer história sobre um atarefado detetive de homicídios em Reykjavík será pura fantasia (0 a 2 homicídios no país por ano não será motivo para tanta canseira). Não custa engolir que um pacato país como a Noruega tenha o azar de levar com dois ou três assassinos em série num curto período de tempo. A forma como a mentira se torna verosímil é, em si, prova da capacidade do autor que me guia pelas páginas daquele policial.

 

Mas será que haverá um ponto de rutura, um momento em que o excesso, as provações de um personagem alcançam o ponto da inverosimilhança?

 

Acabei de ler o livro Polícia, de Jo Nesbø, o último livro traduzido em Portugal da saga do detetive Harry Hole, que já conta com 10 livros. Confesso que ansiava com alguma expetativa esta leitura. O último livro deixara a forte impressão, se não mesmo evidência, que o casmurro Hole tinha morrido às mãos do seu enteado, sendo aquelas as últimas páginas do personagem.

 

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Polícia, de Jo Nesbø, Editora D. Quixote

 

Ao décimo primeiro livro de Nesbø já não me posso escudar em desculpas do não conhecimento sobre a quase obscena manipulação que o escritor faz dos leitores. Eu sei como ele funciona e, embora mergulhada numa certa vergonha, eu gosto. Todo o livro é montado como um gigantesco puzzle onde cada peça tem de encaixar na perfeição, mas onde certas peças foram desenhadas para iludir, criar falsas impressões, causar suspeições infundadas. Com isto, o leitor passa a quase totalidade do livro «com o coração nas mãos», num estado de pura exaltação, emoções que ajudam a esconder os detalhes importantes por trás da pirotecnia da manipulação e, mais fundamental ainda, prendem o leitor ao livro, tornando-se impossível deixar aquele calhamaço abandonado a meio. A leitura já não é propriamente prazerosa, é quase doentia, compulsiva, mas talvez estes atributos sejam, de alguma forma, intrínsecos à leitura de romances policiais.

 

No entanto, quando ontem acabei o livro, depois de uma semana de leitura frenética e depois de uma década de leitura de Nesbø e dos livros de Harry Hole, fiquei mergulhada numa espécie de irritação. Como se falasse com Nesbø, murmurava-lhe: «raios, permito-te a manipulação, permito-te que me enganes consecutivamente, mas não achas que enough is enough

 

Harry Hole, ao longo da dezena de livros, já foi diversas vezes baleado, esfaqueado, sovado, sobreviveu a uma bomba, a uma dilaceração gravíssima do rosto e no meio de tanta catástrofe física, Harry continua vivo, embora bastante escaqueirado. Além das provações físicas, vários colegas próximos de Harry foram assassinados, personagens que, na altura, julgávamos impossível o autor ter coragem de «matar», dado a proximidade ao personagem principal. Também a sua família mais próxima (namorada e enteado) já sofreram às mãos de assassinos, ficando a um piscar de olhos de uma morte horrível.

 

E se durante a leitura, devido ao ritmo narrativo acelerado e à habilidade do autor, todos estes terrores excessivos passam no crivo da verosimilhança, ontem, quando acabei a leitura, senti que Nesbø tinha ultrapassado a linha do excesso. Suporto que, naquelas páginas, alguém cometa os mais atrozes crimes, mas já me custa a engolir que um detetive esteja à beira da morte certa de cem em cem páginas, que aquela vida esteja tão cheia de provações, algumas delas aparentemente impossíveis de ultrapassar, mas que, ainda assim, aquele personagem sobreviva (apesar de baleado, esfaqueado, sovado, explodido) e, mesmo que bêbedo ou drogado, prossiga com a sua vida.

 

E, embrulhada num sentimento algo ambíguo, desejei que Hole tivesse morrido, que Nesbø tivesse tido a coragem de o matar. Mas Hole sobreviveu a mais um livro e apanhou os maus da fita.

 

Já eu, leitora, não tenho bem a certeza se desta vez sobrevivi a Nesbø.

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