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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Fúteis paixões adolescentes

Tinha 12 anos quando o vi numa capa de uma revista de música sobre heavy metal/hard rock. Se agora, depois de uma catrefada de anos em cima, apregoo a futilidade da beleza exterior per se, o horror do cânone da simetria, naquele dia nada disso importou. Caí de amores por aquele homem com um rosto andrógeno, traços femininos que chocavam de frente com uma postura agressiva.

 

Numa época diferente, sem internet, a busca por informação, pela sua música, não foi assim tão simples, mas não demorou muito até que as cassetes dos álbuns da sua banda não saíssem do meu walkman, não demorou muito até que cada centímetro das paredes do meu quarto ficasse coberto de posters onde que ele posava como um deus, convencido da sua beleza, arrogante nas suas poses provocatórias.

 

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 Sebastian Bach — vocalista dos Skid Row entre 1986-1996

 

Os meus primeiros passos na língua alemã foram na tradução de revistas alemãs de música em que ele aparecia. Tarefa árdua para quem nada sabia da língua e o dicionário alemão/português era a única ferramenta de tradução disponível (não havia cá Google translater). Correspondia-me por carta com várias pessoas do mundo com as quais trocava informação, recortes de revistas, posters, enviando material de outras bandas em troca de material sobre ele e a sua banda. O dinheiro que me era dado para petiscar qualquer coisa no bar da escola era religiosamente guardado para comprar as revistas de música e de posters onde ele figurava. Era uma paixão obsessiva, fútil, adolescente.

 

A exaltação manteve-se por longos anos, atravessando toda a adolescência rumo à idade adulta. Com o tempo foi desvanecendo, substituída por outros interesses que se impuseram, novas paixões que se assomaram. No entanto, aquela centelha de um passado ingénuo, de um Eu que via o futuro de uma forma mágica, mística, reacende de cada vez que ouço aquelas músicas, vejo o seu rosto nos videoclips «gentilmente» cedidos pelo youtube, essa maravilhosa ferramenta dos tempos modernos.  

 

Mesmo percebendo uma certa piroseira em certas músicas, ouvi-las causa-me diversas emoções esmagadoras. É como se aquela miúda de 14 anos, apaixonada, devorada por aquela música, estivesse enfiada dentro desta de 37 anos — esta que descobriu coisas sobre o mundo que a outra desconhecia, esta que percebeu que os sonhos da outra eram pura fantasia, esta que inveja a ignorância da outra, esta que por segundos, ao som de hard rock, ainda julga que é a outra.

 

Wasted Time - Skid Row (1991)