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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

From Iceland with art

Parando certo dia para analisar a minha seleção de música, aqueles compositores e músicos aos quais voltava repetidamente, se não diariamente pelo menos com grande assiduidade, percebi que a maioria dos responsáveis pelos meus delírios musicais eram quase todos islandeses. Vontade de dançar, melancolia, alegria, tristeza, reflexão, um rol vasto de emoções tornadas possíveis por uns quantos ilhéus de um país com pouco mais de 300 mil habitantes.

 

A minha primeira paixão assolapada por uns islandeses foi com os Sigur Rós. Ouvi-os exaustivamente durante anos e continuo a regressar às suas sonoridades com frequência. O trabalho a solo do vocalista Jonsi também é interessante e o seu timbre especial não perde magia com o avançar dos anos.

 

A minha segunda grande paixão islandesa aconteceu com a descoberta de Ólafur Arnalds. A diversidade do trabalho de um compositor ainda jovem (ainda nem 30 anos tem) é simplesmente espantosa. A colaboração com diversos instrumentistas e cantores traz para a sua obra uma sensação de experiência contínua e de se ter o privilégio de estar a assistir a algo único, irrepetível. Num dos últimos projetos, Arnalds viajou pela Islândia durante 7 semanas, gravando uma música por semana, sempre em colaboração com outros islandeses (uma organista, um coro, uma orquestra, uma cantora). E ouvir cada música deste projeto é como sorver um pouco da Islândia musical, porque aquilo que ali está, aquela música, aquela maneira específica de criar arte, não parece ser passível de ser replicada num outro país qualquer, por pessoas de uma outra nacionalidade.

 

kjartan sveinsson, antigo membro dos Sigur Rós, conseguiu levar-me às lágrimas com a sua composição clássica «Credo».  Sóley, uma descoberta mais recente, trouxe a complexidade vestida de uma simplicidade desarmante. Agent Fresco são também mais recentes na minha seleção, mas, através de uma colaboração de Arnór Dan, o volcalista, com Ólafur Arnalds, descobri-os e a voz de Dan não me cansa.

 

Li algures que 9 em cada 10 islandeses publicará um livro durante a sua vida. Pois algo de semelhante se deverá passar com os músicos. 9 em cada 10 islandeses terão, certamente, capacidades musicais seja para tocar um instrumento, cantar ou para a composição.

 

E é quase surreal como apenas três centenas de milhares de habitantes conseguem produzir tamanha quantidade de arte. Olhando deste nosso pedaço de terra, aquele território ganha contornos de fantasia e os seus habitantes serão seres com poderes especiais induzidos por paisagens agrestes, de beleza extrema.

 

Pode, por si sós, a insularidade e o meio envolvente serem geradores de uma natural predisposição para a arte? Talvez não. Talvez a explicação de tamanha intrínseca capacidade artística esteja em fatores mais complexos como o sistema de ensino adotado, fatores sociais como uma maior predisposição para a socialização através da arte. Não sei, mas uma coisa sei: os islandeses, através da música e da literatura, acompanham-me, fazem-me crescer e sentir-me viva, fazem-me ver mundos desconhecidos, sentir sensações inusuais, pressentir detalhes, pequenas nuances que até agora me tinham escapado.  E basta procurar um pouco, para novas revelações surgirem acrescentando densidade, diversidade à minha seleção atual.

 

 Sigur Rós - Dauðalogn (albúm Valtari)

 

Ólafur Arnalds - Particles ft. Nanna Bryndís Hilmarsdóttir (Island songs)

 

Sóley - I'll Drown (Live on KEXP)