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Quimeras e Utopias

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Ficções: bons ateus ou maus católicos?

É raro perder tempo a ler textos que, pela sua origem, sei à partida que a leitura dos mesmos será uma perda de tempo. No entanto, se o fundamento do meu acordar diário é, a cima de tudo, tentar aprender alguma coisa, tem dias em que saber «onde param as modas» pode ser imperativo, mesmo que essas modas não me levem a lado nenhum de interesse.

 

Assim sendo, movida pelo título, dei por mim a ler um artigo de opinião do padre Gonçalo de Almada no jornal Observador. Como padre que é, percebi que o mote principal dos artigos do padre Gonçalo é a religião católica e romana. A religião sempre foi, para mim, motivo de grande interesse, apesar do meu ateísmo confesso. Não tenho grande interesse pelas particularidades das religiões em si, mas interessa-me a génese da crença humana pelas ficções como forma de organização e estruturação da sua vida pessoal e vida em sociedade. A crença numa qualquer ficção (que envolva divindades ou abstrações do mundo físico/material) parece algo intrínseco ao ser humano, uma quase necessidade que nos caracteriza desde dos primórdios da nossa evolução.

 

No entanto, se as religiões serviram e, de certa forma ainda servem, para unir numa crença um grande grupo de pessoas que não se conhecem, tornando possível uma base de entendimento e aproximação entre milhares e milhões de desconhecidos, o certo é que o oposto também se aplica. As mesmas religiões uniram, mas criaram também divisões irreversíveis (e de grande violência) entre grupos de diferentes crenças. Para as principais religiões atuais, não basta difundir uma crença e promovê-la, é essencial incutir aos seus seguidores que aquela crença é que é A Verdadeira Crença e todas as outras se encerram dentro da categoria das fraudes ou degenerações.

 

Voltando ao artigo e ao seu título do artigo — Bons ateus ou maus católicos? — o autor, nos parágrafos finais, tenta perceber o que é melhor: um bom ateu ou um mau católico. Depreendo que a esta quantificação de bom e mau, esta visão maniqueísta do ser humano, esteja ligada às ações efetuadas por uns e outros. Para mim, alguém que seja tolerante, solidário, empático, altruísta, será alguém que se enquadra dentro da categorização de Bom.

 

No entanto, para o padre Gonçalo, as coisas não serão tão lineares:

 

O Papa Francisco reconhece que há ateus que, por excepção, são bons, como também não ignora que há católicos que, por excepção, são maus; mas também sabe que são meras excepções. A regra é que os católicos sejam bons, não por mérito próprio, mas pela graça dessa sua condição; quem a não tem pode ter alguma bondade, mas não tanta quanto teria se a tivesse. Caso contrário, para que serviria ser cristão?!

 

De facto, os maus católicos são melhores do que os bons ateus, não porque humanamente sejam mais perfeitos, mas porque, pela sua fé, não só alcançam a graça que os perdoa e liberta dos seus pecados, como também a alegria do amor de Deus.

Bons ateus ou maus católicos?, padre Gonçalo Portocarrero de Almada, Jornal Observador (25/03/2017)

 

Estas duas frases retorcidas deixaram-me inquieta. Sei que são apenas um olhar enviesado da realidade, mas são o olhar de alguém numa posição para propagar ideias, difundir opiniões, estabelecer-se como orientador de um rebanho.

 

Na realidade, alguém que faz uma boa ação porque acha que deus assim o quer (porque será punido se for mau ou será premiado ser for bom) não será alguém com menos bondade dentro de si do que alguém que promove o bem, faz boas ações apenas comando pela sua consciência?

 

Eu acho que sim. Se dividir o mundo de forma simplória entre bons e maus, os melhores de todos serão aqueles que promovem o bem de forma altruísta, sem terem por trás de si segundas intenções de salvação divina. O que os move não é a punição ou salvação, é apenas o amor desprendido, incondicional ao próximo.

 

Estas palavras do padre Gonçalo, para além de promoverem a religião como salvo conduto para a salvação, independentemente do comportamento pessoal de cada pessoa, chocam porque nada diferem de certos radicalismos tão fortemente criticados. Elas retiram ao ser humano qualquer responsabilidade sobre as suas ações, depositando toda essa responsabilidade na crença num deus específico. Basta acreditar para se ter a certidão de boa pessoa. Todas as ações veem-se justificadas, perdoadas, se a pessoa acreditar neste deus específico.

 

E por mais boas ações que se faça, se o que o move uma pessoa for apenas o bem, isento de qualquer ficção religiosa, essas ações nunca serão boas o suficiente, mesmo que comparadas com as más ações de um crente.

 

 

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