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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Falhanços épicos

Tenho fama de ser um pouco desastrada e o epítome justifica-se. Sou aquela pessoa que derruba um copo de vinho tinto na ceia de Natal, pintando a tolha branca de rosáceas púrpuras, sou aquela que parte pratos e copos a lavar louça, sou aquela que espirra café que estava a beber sobre uma parede quando me contam uma piada que provoca um riso incontrolável.

 

Mas sinto-me um tanto ou quanto injustiçada com esta reputação que me precede, pois, selecionando todos os grandes falhanços familiares, os falhanços épicos foram todos cometidos pelo meu marido. Nunca cheguei sequer a poder competir com as obras de arte do desastre que o meu querido esposo tão garbosamente conseguiu elaborar.

 

Assim, para reposição da verdade no que ao falhanço diz respeito, aqui fica o top dos falhanços épicos do meu marido:

 

Karaté Kid

Certa vez, estava tudo preparado para fazermos uns crepes, quando a desgraça aconteceu.

A massa dos crepes repousava numa taça colocada em cima do fogão só à espera que a começássemos a verter em porções para uma frigideira para iniciarmos a feitura dos crepes. O meu querido marido, já não me recordo bem a que propósito, decidiu fazer um movimento exibicionista de karaté. Soergueu uma perna em riste e sem se dar conta, tocou com a ponta do pé na taça da massa dos crepes. Bem… a taça virou, a massa verteu para todos os cantos e recantos, ranhuras e fissuras daquele fogão. À frente, atrás, nos bicos e nos botões, tudo ficou inundado de massa de crepes. Passados meses ainda era possível encontrar massa ressequida na parte de trás do fogão. E o mais triste foi… nada de crepes para ninguém.

 

Experiências científicas

Era inverno, a lareira estava acesa. Nessa altura ainda tínhamos uma lareira aberta. Eu limpava o forno, de costas para a lareira, alheia às ideias mirabolantes que o meu marido estava a magicar. Enquanto eu limpava, ele resolveu descobrir o que aconteceria se colocasse uma garrafa de coca-cola vazia e fechada dentro da lareira acesa. Não me disse nada porque sabia, de antemão, que eu não acharia a menor graça à brincadeira. Fazia reciclagem e a ideia de queimar plástico na lareira era inconcebível. Assim, deixou-me permanecer na ignorância até ser tarde demais. A garrafa colocada nas chamas da lareira explodiu e o estrondo foi tal que julguei que tinha rebentado uma bilha de gás em casa. A onda de choque na lareira após a explosão fez com que as chamas se apagassem por completo e a cozinha ficou imersa em cinza expelida. Foi um sobressalto horrível. Garanto que como não morri do coração naquele dia, não precisarei nunca mais de fazer um eletrocardiograma na vida. O meu coração é de ferro.

 

Todas as posições são boas posições

O meu marido adora gelatina. Certa vez fiz uma gelatina de banana com pedaços de banana e ele não resistiu a levar a taça de gelatina para a cama para um petisco noturno. Já meio rendido à preguiça, ia comendo a gelatina meio deitado, só com a cabeça um pouco soerguida. Quando resolveu pousar a taça na mesinha de cabeceira, algo correu mal. Devido à posição em que encontrava, o movimento simples de pousar uma taça acabou em falhanço constrangedor. A taça escapou-lhe das mãos e caiu para o chão, por entre a cama e a mesa de cabeceira. Ficou o chão repleto de vidros e pedaços de banana e gelatina, salpicos gelatinosos na mesa de cabeceira e na parede, tudo sarapintado de amarelo gelatina.

 

Festa da espuma

Colocámos a louça na máquina de lavar depois do almoço. Já eu tinha colocado a pastilha para pôr a máquina a lavar quando ele teve a genial ideia de colocar um pouco de Fairy no interior da máquina, por cima dos pratos e talheres. Eu achei má ideia. Aquilo era muito concentrado e não havia necessidade de colocar mais nada porque já lá estava uma pastilha. Mas ele arguiu que, como estávamos a usar o programa rápido, um pouco de detergente de louça iria reforçar a limpeza. Pôs um pouco, depois, mesmo sob os meus protestos, decidiu colocar um pouco mais e toca a ligar a aparelho. Passados uns minutos da máquina estar a trabalhar, algo começou a correr mal. Via-se espuma a sair pelas frinchas laterais do aparelho. Inicialmente pensávamos que seria só um pouco, mas cada vez saía mais e mais. A espuma já escorria para o chão e ele lá acabou por desligar a máquina. À abertura da porta, nem se conseguia ver a louça com a quantidade de espuma que estava no interior. Um «pequeno» erro de cálculo fez com que passasse as horas seguintes a tirar lentamente espuma da máquina para o lava louça. Desde esse dia, nunca mais se atreveu a repetir a façanha.

Agora, quando me dizem que o detergente é concentrado e faz espuma com pouca quantidade, eu acredito. Nessa área, não tenho dúvidas.

 

Todas estas aventuras falhadas quando comparadas com os meus erros menores, os meus desastres medíocres, deveriam levar a que o título de desastre ambulante fosse reatribuído. O que é uma toalha suja de vinho quando comparada com uma festa da espuma na cozinha? Não lhe chego aos calcanhares nesta matéria, tenho de admitir.

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