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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Escritores e pasteleiros

Não há nada neste mundo que não possa ser explicado através de uma analogia culinária. Da política à ciência, da moda à literatura, a gastronomia terá dentro de si subtilezas suficientes para ser chamada como metáfora explicativa das maiores complexidades que se possam imaginar neste mundo.

 

Dito isto e como eu sou como aquele personagem do Herman, o José Severino — «eu é mais bolos» — vou meter no mesmo saco pasteleiro os bolos e a literatura.

 

São editados milhares de novos livros por ano em Portugal e de entre os novos escritores, alguns já de nome consolidado na praça literária nacional e aclamados não raras vezes pela crítica, denota-se em alguns deles uma situação um tudo ou nada irritante:

 

Temos um magnífico bolo de cake design com uma decoração intrincada que demorou horas a fazer. A pessoa até sente culpa de ir enfiar um garfo numa tal beleza, em desfazer à dentada algo que parece ter sido feito para ver e não para saborear. Quando uma fatia daquela peça de arte nos vem parar ao prato, logo na primeira garfada à boca a desilusão instala-se. O bolo, de uma beleza extrema, tem um sabor básico, seco de textura, não correspondendo à expectativa. Não há qualquer subtileza na feitura daquela massa. Sabe a açúcar e ovos, talvez pior que um bolo baratucho comprado no supermercado. Toda a atenção do artista ficou-se pelo aspeto visual descurando vergonhosamente o sabor.

 

Alguns escritores são assim. O manuseamento da língua é magnífico. Conseguem fazer dela o que quiserem e focam-se primariamente nessa brincadeira com a linguagem, muitas vezes usando a transgressão de normas (gramaticais, ortográficas) para inovarem, mas acabando com uma narrativa pobre, com um sabor básico, de uma única nota. Talvez o bolo precise de um pouco de baunilha para aromatizar, de manteiga para suavizar, de umas raspas de laranja para a fragrância se entranhar nos vários sentidos de quem prova, para que cada garfada seja uma viagem e não um frete que se presta ao artista.

 

Dentro dos novos escritores existe ainda uma diferente propensão artística. Provenientes de «editoras» que não têm um verdadeiro crivo editorial, mas que se prestam a publicar seja o que for a troco de uma determinada quantia (e isto não é propriamente uma crítica, é uma tendência editorial da nossa atualidade), aparecem nas livrarias, supermercados e livrarias online diversos livros daquele tipo de escritor que abusa seriamente no uso do açúcar. Se é bolo, deve ser doce, pensam, mas o sabor adocicado do bolo é tão excessivo que na boca fica apenas aquele sabor enjoativo que aniquila tudo o resto. Há quem goste. Há muito quem goste. Todavia, parece-me um uso primário e não estudado de um elemento que, embora essencial, não deve sobrepor-se aos restantes sabores do bolo. A nível visual, o design não tem o arrojo dos bolos com cake design, mas é no sabor que desgraça se instala. Não é um bolo seco, mas é um bolo que só uma garfada já provoca a náusea pela demasia do doce. Tudo passa a sensação do excesso açucarado desde a textura até aos grãos de açúcar que ficam a rilhar entre os dentes.

 

O uso estridente das emoções, sabendo que escrever sobre amor, sofrimento, desgraça da perda, paixões assolapadas, vai quase necessariamente atrair um interessante número de leitores, fez com que estas narrativas profusamente açucaradas proliferassem passando a ideia que não é necessário ter-se atenção às quantidades dos ingredientes que se colocam num bolo, bastando carregar-se nas porções de açúcar de forma a mascarar o desleixo, a falta de profissionalismo e de arte do pasteleiro.   

 

Claro está que há sempre aquele mestre pasteleiro que nos consegue surpreender conseguindo casar na perfeição o aspeto visual do bolo com um sabor com várias dimensões que conseguem exaltar-nos os sentidos e deixar-nos a matutar obsessivamente naquele momento em que levamos aquele pedaço de bolo à boca. Um sabor que perdura na boca e na memória passados dias daquela prova. Um pasteleiro com uma obra memorável.