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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Elena Ferrante

Com a literatura, podemos embarcar numa viagem de descoberta de novas coisas, um novo mundo de impressões até então desconhecidas, de questionamentos nunca tentados. Embora o filtro seja o próprio leitor e cada linha não tenha vida própria e seja obrigada a passar pela análise de quem a lê, é-se levado a observar maneiras diferentes de ser, agir e pensar. Personagens cáusticas, indolentes, sociopatas ou subservientes, que habitam em locais prazenteiros, inóspitos, decadentes, idílicos ou infernais, envolvidas em tramas complexas ou de uma simplicidade desarmante.

Pode-se ainda, num contraste com a primeira opção, descobrir o poder da identificação. Neste último caso, não falo de reconhecer semelhanças na personagem de um médico, quando também se tem a medicina como profissão, ou no peso de manter um segredo, quando também se se carrega um. Falo da identificação incómoda. De encontrar, traduzidas em palavras escolhidas pelo mais hábil artesão, num encadeamento de frases desprendidas, mas num paradoxo, incisivas, pensamentos, devaneios, medos, anseios tornados em obsessões, ambiguidades próprias de quem se sente deslocado, todos eles disfarçados, mascarados de uma normalidade aceitável, ou friamente recalcados durante anos. Ler cada linha como se se lesse um livro de memórias ficcionado e fazer-se a mais absurda das descobertas — de não haver nada de único em cada traço deste eu que se tenta apagar, que se julga necessário travestir perante os outros que se comportam de forma tão exemplar.

Se lerem as sinopses dos livros de Elena Ferrante (falo de A Amiga Genial, História do Novo Nome e História de Quem Vai e de Quem Fica, da editora Relógio D’Água), deparar-se-ão com uma história de traços inócuos. Talvez alguns não sintam sequer atracção por tamanha aparente «insignificância». Não teremos tramas policiais, nem amores capazes de sobreviver à morte, nem novos mundos surreais, nem fadas e dragões. Teremos apenas esmiuçadas todas as contradições de se estar vivo, do se querer e deixar de querer, do se tentar alcançar algo, sem nunca lhe chegar a meter as mãos em cima, do não se estar bem em lado nenhum e, por momentos, se estar bem em todo o lado. O esmiuçar de todas as grandezas e fraquezas de que somos compostos.

E a cada página, se por um lado a adição já levou a melhor, impelindo-me a continuar a leitura de forma quase glutona, por outro, um crescendo de um terror até então adormecido envergonha-me, humilha-me, tal é o espaço que ocupa dentro de mim, incitando-me à exposição. Estou ali, de forma absurda, em cada linha, em cada personagem, em cada entoação que depreendo dos diálogos, em cada ambição e frustração.

Quando for grande, quero escrever como a Elena Ferrante.