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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Da inveja

É raro ceder à tentação de ler os comentários dos posts noticiosos dos vários jornais nacionais. A forma impulsiva como as pessoas comentam, a facilidade com que os comentários resvalam para a agressão verbal, fez com que, para bem da minha sanidade mental, deixasse de tentar descortinar a opinião das pessoas sobre determinada notícia ou assunto.

 

Todavia, quando me parece que a notícia não tem grande potencial «incendiário» e que nada poderá correr mal naquela caixa de comentário, dou por mim a bisbilhotar as opiniões alheias.

 

Uma das coisas que percebi, percorrendo uns quantos comentários de diferentes notícias, foi que um dos artifícios mais usados para rebater um comentário ou crítica construtiva era o uso da acusação da inveja. Numa das notícias, em que o novo livro de José Rodrigues dos Santos era apresentado, umas quantas pessoas questionavam de forma serena a qualidade literária do autor, a real capacidade de alguém conseguir escrever um livro de 600 páginas em meio ano, não faltando a estes comentários dezenas de respostas, sendo a grande maioria delas de acusação de inveja — inveja de não vender milhares de livros como o autor, inveja de não ter uma conta recheada à conta dos livros como o autor, inveja de não ser conhecido, uma figura pública como o autor.

 

Numa outra notícia sobre a eleição de Trump nos E.U.A., no meio dos comentários de apoio ao novo presidente surgiam uns quantos que questionavam em que situação estaria aquele país para um ser humano daqueles ter chegado a presidente. As respostas a estes comentários também se focavam maioritariamente na questão da inveja — inveja de não ser milionário como Trump, de não ter uma mulher «boa» como Trump, de não ser dono de um império como Trump.

 

O que me saltou à vista de todas estas acusações de inveja foi os alvos de inveja nomeados incidirem exclusivamente no dinheiro, no estatuto social ou na beleza. Nunca, em nenhum destes comentários, alguém respondeu algo como: «Tens inveja de não ser tão inteligente como ele/ela.»

 

Mais importante do que a capacidade intelectual de alguém para escrever um livro ou para governar um país, aquilo que realmente parece fascinar as pessoas, cativá-las para admirarem alguém, é o dinheiro que essa pessoa possui, o seu estatuto social ou a sua beleza física.

 

A intelectualidade, a inteligência, a capacidade de pensar por si, de usar o raciocínio lógico e criativo não tem potencial de causar inveja. E este facto só me consegue causar estranheza, pois a inteligência é aquilo que mais tendo a invejar nos outros. Perceber a forma brilhante como algumas pessoas expõem as suas ideias, a forma como parecem ser, sem esforço, naturalmente inteligentes e cultas, desperta em mim uma emoção que tento modelar para que seja positiva, para me fazer melhor, mas que nem sempre o é.