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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Da incapacidade de análise

Sempre tive uma certa dificuldade em dissecar e analisar aquilo de que gosto. Embora lhe chame incapacidade, não o é realmente, pois se tiver de o fazer, faço-o com alguma razoabilidade, mas a contragosto. Seja analisar um livro, um filme, uma música, uma pintura, uma fotografia ou outra qualquer obra de arte, prefiro ficar-me pelo impacto que tais obras me causam a um nível mais orgânico (talvez mais básico), do que partir para uma análise criteriosa, que desmonte em fragmentos aquele todo que tanto me impressionou. Isto não quer dizer que a absorção de uma obra não me provoque um rol de análises interiores desbragadas, tempestuosas, mas é como se permitisse que esses pensamentos seguissem um rumo próprio, sem que lhes impusesse uma forma, uma estrutura, uma orientação obrigatória. Depois, há um certo medo de que a dissecação e posterior análise matem a magia, mostrando-me o grande truque por detrás daquela apoteose artística.

 

Quando estudava cinema, assisti a vários filmes, em salas de cinema ou na escola, na companhia dos meus colegas de turma. Alguns deles tinham a capacidade, durante o visionamento da película, de desmontar movimentos de câmara, opções de montagem, usos da luz, perceber erros de raccord e não se inibiam de falar disso. Nessas alturas, percebia com um certa frustração que estar ali era um erro. Eu não era como eles e pior, não queria ser. Acho que só me perdia em análises dessas se o filme fosse mesmo mau e mesmo assim não era uma coisa espontânea. Do que eu gostava era daquela magia do todo, da soma de todas as partes e não do observar cada parte como elemento de análise.

 

Com os livros passa-se o mesmo. Como pessoa que gosta de ler e escrever, por vezes imponho-me essa observação, esse deslindar do processo. Todavia, melhor do que a análise, melhor do que compreender o processo, é aquela emoção, aquela adrenalina, aquele furor da leitura, aquele rir, aquele chorar, aquela manipulação de que se é alvo e de que se gosta, se deixa, pois aquela manipulação é tudo. Aquela manipulação que nos faz ler cada palavra com voracidade, parar em introspeções que picam como agulhas, olhar em redor, ora com terror, ora com languidez, melancolia ou felicidade parva, terminando numa explosão de emoções que nos deixam desorientados, desnorteados e momentaneamente sem rumo.