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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Clickbait ou clickbesta?

É sabido que a forma como os meios de comunicação se financiam na era da internet mudou radicalmente comparativamente a tempos idos. Um jornal com a sua versão online pode disponibilizar informação privilegiada (e aprofundada) a assinantes, mas terá na publicidade presente nas páginas onde figuram as notícias de acesso gratuito uma importante fonte de receita.

 

Numa altura em que nós, leitores/consumidores de informação, nos habituamos a consumir informação grátis, consultando agregadores de notícias ou seguindo os meios de comunicação nas redes sociais, a notícia ao minuto, a urgência de ser o primeiro e captar a atenção do consumidor, leva muitos meios de comunicação a enveredar por caminhos duvidosos para ganhar o click do leitor, click esse que será revertido em receitas publicitárias (quantas mais visualizações de uma notícia, maior a receita e a capacidade futura de captar publicidade).

 

Essa necessidade intrínseca de financiamento, de converter um click em dinheiro, fez degenerar a informação em algo que estará já a anos luz do que a informação deveria ser. O clickbait (estratagemas para atrair o click) passou a ser a regra número um do jornalismo online. O título pode usar uma informação falsa que é contradita no corpo da notícia, quando se abre a página, o título poderá usar opinião como se fosse informação (mas só ficamos a saber que se trata de uma opinião depois de abrir a notícia), o título poderá dar relevância a uma informação de somenos importância, o título poderá citar um excerto de uma diálogo que ficará descontextualizado e sem nexo, o título facilmente usará um verbo no futuro (em jeito de adivinhação), criando uma notícia geradora de pânico injustificado).

 

Ontem um título de uma notícia do DN notificava que uma mulher tentara atravessar a ponte 25 de Abril nua, na madrugada de Natal. Abrindo a notícia, lá informava-se que o jornal Correio da Manhã noticiara que uma mulher tentara atravessar a ponte nua, mas que fontes da PSP desmentiram tal situação, informando que a mesma estava de pijama. Em suma, apesar do Diário de Notícias saber a verdade (a mulher estava de pijama), usou uma falsa notícia de outro jornal como justificação para atirar para título de uma notícia uma falsa informação. E esta perceção do estratagema usado era tão gritante que levou centenas de pessoas a comentar a falta de ética do jornal, mas o click estava dado, o potencial de receitas alcançado e amanhã é outro dia e já ninguém se lembrará da infelicidade daquele título. Posteriormente alteraram o título, substituindo a falácia pela verdade, mas o mal estava feito e durante horas gerou receitas.

 

Ontem, também, um outro jornal (Correio da Manhã) noticiava que a heroína estava na origem da morte de George Michael. Abrindo-se a notícia, lá aparece o verbo «poder» no futuro. A heroína poderá estar na origem da morte do cantor. O CM citava um jornal britânico que baseava a notícia na opinião de uma fonte próxima de George Michael (as fontes próximas nunca têm nome, são sempre anónimas e servem para tudo, para justificar qualquer notícia mirabolante que se queira impingir ao leitor).

Estes são apenas dois exemplos, mas diariamente é possível apanhar dezenas de meios de informação que usam o clickbait como forma geradora de receitas, ignorando por completo o propósito da sua existência — providenciarem informação fidedigna e imparcial. Mais grave ainda é a total falta de escrúpulos neste domínio. Muita desta informação errónea poderá lesar gravemente pessoas envolvidas nas situações noticiadas. Aquela mulher desorientada e sozinha que tentou atravessar a ponte a pé tem nome, terá família, poderá ter problemas sérios de saúde, mas nada disso contou no momento de impingir um título falso para atrair a atenção do consumidor ávido.

 

Em jeito de conclusão, questiono-me se serão os meios de informação que estarão a subverter a informação e, consequentemente, os leitores, ou a nossa avidez por espetáculo, escândalo e sordidez é que estará a moldar a forma da informação que consumimos.

 

Abriremos uma notícia com um título normal, honesto, realmente informativo ou acabamos sempre a escolher aquelas que parecem trazer no título a promessa de um filme de terror, desgraça e escarcéu?

 

Como dizia Artur Albarran ainda antes da informação online ser o que é hoje, mas abrindo já caminho para esta fome pela pirotecnia noticiosa:

 

É o drama, a tragédia, o horror.

 

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