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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Calcitrim, tarot e suplementos vitamínicos

Se para mim, ligar para um número de valor acrescentado para consultar uma taróloga televisiva ou para comprar suplementos alimentares é algo completamente fora de questão, pois compreendo a manipulação, os interesses económicos e a tentativa de acabrunhamento levada a cabo por certos meios de comunicação, para algumas pessoas aquele número que lhes aparece a piscar incessantemente no meio do ecrã afigura-se como uma saída de emergência, a salvação para alguns dos seus problemas.

 

 A televisão foi ganhando, durante décadas, uma certa aura de legitimidade que fez com que uma parte considerável da população ainda tenha a crença de que — se dá na televisão é porque é verdade. Pessoas mais idosas, pessoas com um grau académico menor, pessoas interiorizadas ou com menor acesso a realidades diversificadas são os alvos preferenciais de empresas de comunicação que gradualmente foram perdendo os escrúpulos e usam de várias ferramentas, artimanhas para, ao invés de contribuírem para o desenvolvimento pessoal das pessoas que lhes dedicam horas do dia, promove antes o seu acabrunhamento intelectual. Isto, já por si, parece-me francamente negativo, mas se o entretenimento fornecido fosse medíocre, mas ainda assim, inocente, talvez grande mal não viesse ao mundo.

 

Todavia, acabrunhar não lhes basta. Há que tentar lucrar com esse acabrunhamento. E é aqui que da falta de escrúpulos se passa, a meu ver, para os atos criminosos. Induzir alguém a comprar medicamentos ou suplementos promovidos através de figuras públicas que as pessoas reconhecem e até consideram idóneas, utilizar os próprios anfitriões dos programas como garantes da qualidade do que se tenta vender, explorando as fragilidades do grupo alvo dos programas em questão, para além de ser publicidade enganosa é também um verdadeiro ato de extorsão, de manipulação de pessoas que apenas procuram uma companhia para as ajudar a passar o dia.

 

Acrescentando a isto as consultas de tarot pelo telefone, culminamos num verdadeiro lamaçal de má televisão, de criminalidade em direto.

 

Na sequência da insólita situação da taróloga do programa da manhã da SIC que aconselhou uma telespetadora que a consultou e que se queixou de ser vítima de violência por parte do seu cônjuge, a ter paciência, a dar-lhe mimo pois ele precisava de uma mãe e de mimo e não de uma mulher, os comentários nas redes sociais a esta notícia, para além de condenarem veemente a taróloga em questão, ridicularizavam as pessoas que telefonavam para este tipo de programas, usando frases como — quem liga para este tipo de coisas também está mesmo a pedi-las, está mesmo a querer ser enganado.

 

Mas será esta abordagem correta? Estando as pessoas em situações de vida de grande fragilidade, doentes ou submetidas a violência diária, vivendo muitas vezes com grande precariedade económica, será legítimo direcionar as culpas para a fraca capacidade de discernimento dessas pessoas, será correto ridicularizá-las por procurarem ajuda em sítios improváveis porque talvez não tenham encontrado essa ajuda nas vias consideradas normais?

 

A oferta, embora ridícula, está lá. Dia a pós dia. E quem deveria ser criticado, criminalizado, eram aqueles que oferecem estes serviços e produtos sob a capa da legitimidade que a televisão, a sua visibilidade pública, lhes confere.

Estar frágil, ser abusado, estar doente, não deveria conferir o direito, a legalidade, para a extorsão, a burla, o oportunismo. Às grandes empresas de comunicação social não lhes deveria ser permitido tudo, não lhes deveria ser permitida a falta de escrúpulos constante, a manipulação diária, o embrutecimento a toda a força.

 

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