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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Bom selvagem, mau selvagem

Um padrasto matou o enteado, sendo o furto de dinheiro para a compra de um telemóvel o móbil do crime (isto a julgar pelas notícias, sem que todos os dados tenham sido apurados e os suspeitos julgados). Todavia, este tipo de notícias causa grande convulsão social, choca as pessoas pela frieza, falta de escrúpulos daqueles que deveriam, «por natureza», cuidar e não agredir, e mesmo antes de todos os factos aclarados já julgamos e condenamos dentro de nós aquele indivíduo, elevando-o ao patamar de monstro.

A cada crime com contornos absurdos, a cada crime onde é impossível encontrar qualquer resquício atenuante, qualquer pequena coisa que pudesse justificar aquilo, fico para aqui a perguntar-me se Rousseau tinha razão na sua teoria do bom selvagem ou se tudo foi apenas um delírio utópico e o que se passa é precisamente o inverso: somos todos primitivamente maus, marcados por impulsos violentos, pela agressividade e, com o evoluir das sociedades, dos tempos, esses impulsos foram sendo recalcados, acalmados e por vezes adormecidos, mas nunca eliminados.

Numa era em que todos nós temos o direito a uma opinião que pode ser propagada, globalizada, ler os comentários das notícias permite ter um vislumbre dos nossos pensamentos, mesmo quando norteados pelo impulso, pela revolta. Neste caso específico, assim como noutros casos criminais semelhantes, à perplexidade perante a natureza do crime, à tristeza, junta-se um rol de comentários vingativos, onde desfilam perante os nossos olhos formas de tortura e de morte às quais os criminosos deveriam ser sujeitos. A apologia da pena de morte, atrozes formas de tortura, tudo isso são reações normais em notícias deste género.

Olhando para mim como cobaia de análise, percebo que se passa o mesmo. Fico horrorizada com certas coisas que o ser humano se presta a fazer ao seu semelhante, aos animais, à natureza, mas a minha primeira resposta mental é também ela de violência. Um homem atirou ácido à cara da namorada e na minha mente desenha-se a imagem daquele indivíduo, que vi numa fotografia ou em imagens do telejornal, a sofrer horrores por queimaduras de ácido. Imagino-o preso a uma árvore, a observar o carrasco em aproximação, o medo estampado no rosto e esse medo é bom, sabe bem. Sinto que aquela dor, aquele medo, são justos, ele merece-os.

Estes pensamentos vingativos, encenados de forma gráfica, violenta, repletos de agressão, são arredados da minha mente pela força da racionalidade, mas, verdade seja dita, a primitiva reação foi a da agressão e não a do bom senso.

Depois de escorraçar o impulso da vingança violenta, tento perceber que vidas, infâncias, vivências poderão levar a alguém a um estado de falta de empatia pelo próximo. Tento olhar pelos olhos dos outros, ver a realidade dos outros, conhecer sonhos, ambições, impulsos que não os meus e compreender o desenrolar das suas ações, compreender as suas motivações.

A via da racionalidade tenta apagar o impulso primitivo da agressão, e embora os meus pensamentos sejam apenas pensamentos, imaterializados e imaterializáveis, estão lá e no meu íntimo questiono-me se eu e eles — assassinos, agressores, sociopatas, não seremos todos a mesma coisa: uns maus selvagens.