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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Bichos do meu quintal — terapia da abstração

Numa tentativa de abstração da «realidade lá fora», penso na natureza e nas suas mutações cíclicas, na ingenuidade das estações sobre os atos dos homens e suas repercussões, na simplicidade de ser pássaro ou ser planta.

 

Vivo numa zona rural, junto ao rio, o que gera uma convivência, mesmo que imposta, com toda a espécie de bicho. O pavor de insetos ou repteis, que algumas pessoas têm como fobia, seria coisa difícil de gerir no local onde vivo. No meu quintal e mesmo dentro de casa, estaciona todo o tipo de animal. Aranhas (algumas com um tamanho respeitável/assustador), centopeias (bicho que cisma que dentro de casa se está melhor do que lá fora), grilos, gafanhotos, caracóis, lesmas (no inverno, são mais que as mães), libelinhas, louva-a-deus, bicho-pau, pirilampos, lagartixas (muitas, centenas), lagartos, sapos e cobras.

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Pelo ar, esvoaçam melros palradores, gaios, gralhas chatas nas suas conversas estridentes, corvos, pardais, guarda-rios e, usando os galhos das árvores da beira do rio como pouso, duas garças. Estas últimas, chegam pela manhã, fazendo um voo baixo junto à água, fazendo-se anunciar com uns quantos grasnados. Finjo que me cumprimentam e respondo-lhes às saudações matutinas.

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Um dos habituais residentes do meu quintal era um sapo imponente. Viveu por aqui durante anos até ao verão passado. Desapareceu misteriosamente depois da visita de uma longa cobra de pele exuberante. Ter-lhe-á servido de refeição? Só a visitante fugidia poderá confirmar, mas é possível.

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A exuberância da natureza nas suas diversas expressões ofusca por instantes a urgência do «caos lá fora». E só assim será possível conservar uma réstia de sanidade, coisa boa de se ter por esta altura.

 

Nota: Todas as fotografias são minhas.

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