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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Autores personagens

Num curto espaço de tempo, li dois livros nos quais os seus autores figuravam como personagens. Não foi uma escolha de leitura consciente, orientada para essa faceta da personagem/autor, e foi com surpresa que descobri o uso desse artifício no caso de um dos livros e com um certo choque, no caso do outro.

 

Em Dinheiro, de Martin Amis (um livro com edição original inglesa de 1984), Martin Amis aparece a dada altura como personagem na narrativa. O personagem principal do livro, John Self, encontra por vezes, nas ruas do bairro onde vive, aquele escritor estranho, introvertido, metido no seu mundo e quando necessita de que o guião do seu próximo filme seja reescrito, lembra-se de abordar o escritor que já conhecia das rua ou de alguma tasca de fast-food, para que seja ele o autor da nova versão cinematográfica. Martin Amis não se inibe de se caracterizar de forma pouco abonatória, desenhando o seu personagem como alguém que vive de forma desinteressada pelo mundo material que o rodeia, fixado na escrita e na leitura, com rotinas diárias pré-definidas e, de certa forma, alheado de tudo o resto que passe à margem do seu mundo pessoal

 

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Dinheiro, Martin Amis, editora Quetzal, tradução de Jorge Pereirinha Pires

 

Em O mapa e o território, de Michel Houellebecq, o autor também aparece como personagem mas com um impacto na narrativa de longe superior ao de Martin Amis em Dinheiro.

 

Jed Martin, o personagem principal de O mapa e o território, é um artista que inicia a sua carreira como fotógrafo, ganhando notoriedade através das fotografias artísticas que fez de secções selecionadas de mapas das estradas Michelin. Posteriormente deixou a fotografia e dedicou-se à pintura e os seus quadros onde retratava personalidades conhecidas, após uma exposição e divulgação nos meios de comunicação, adquiriram celebridade tal, que o autor conseguiu embolsar uma soma considerável com as vendas e um lugar de destaque no mundo artístico.

 

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O mapa e o Território, Michel Houellebecq, editora Alfaguara, tradução de Pedro Tamen

 

Uma das personalidades que Jed decide retratar num dos seus quadros é precisamente Michel Houellebecq, convidando-o ainda para escrever o prefácio do catálogo de apresentação da exposição.

 

Esta decisão de pintar Michel aproxima os dois personagens, o pintor e o escritor, permitindo ao leitor mergulhar na vida algo esquizofrénica de Houellebecq. Michel Houellebecq não tem qualquer pudor em se mostrar como alguém que bebe demais, fuma compulsivamente, pouco dado à higiene pessoal e da casa, com picos de humor que o levam a ter uma atitude positiva sobre a vida, a dedicar-se à escrita ou, em contraste, abandonar-se à solidão, ao não fazer nada, ao álcool. Descreve-se ainda como alguém indiferente aos laços pessoais, alguém capaz de ignorar a existência de um filho, que mantém relacionamentos com mulheres que oscilam entre os meramente físicos ou os quase paternais, alguém fixado numa série de perversões, um ser misantropo, misógino — em suma, um ser humano que, extraindo as suas capacidades como escritor, pensador, a sua genialidade intelectual, é medíocre como pessoa, facilmente esquecível, um zé-ninguém.

Michel Houellebecq já demonstrara anteriormente esta desinibição em se expor, mesmo que essa exposição o retrate como um ser esquisito, fisicamente repulsivo, um homem sem qualidades. No filme O rapto de Michel Houellebecq, Michel desempenha o papel de si próprio, o autor que foi raptado por uns meliantes amadores e levado para uma casa na província, conseguindo, contudo, travar amizade com os raptores e passar um bom bocado na sua companhia.

 

Relativamente a O mapa e o território, Houellebecq consegue, no entanto, levar a opção do uso de si próprio como personagem ficcional a um patamar mais extremo do que Martin Amis em Dinheiro, matando a sua personagem através de um assassinato macabro, onde também o seu cão perece às mãos de um psicopata que acaba por subtrair o quadro (oferecido pelo pintor a Houellebecq) onde está retratado. Após o cenário horrendo do palco do homicídio ser descrito pormenorizadamente, temos a divulgação da notícia da morte que choca mais os fãs do autor do que qualquer pessoa do seu relacionamento pessoal (se é que tal coisa, na verdadeira aceção do termo, existiu na sua vida), e somos levados ao funeral do autor, cerimónia triste pelo nada a que é reduzida.

 

Este exercício de especulação do escritor sobre a sua própria morte, sobre a forma como os outros o apreendem, sobre a significância da sua existência, foram, para mim, de uma grande tristeza (somos ensinados desde pequenos sobre a importância do eu social, dos relacionamentos, da sua preponderância sobre a importância da nossa existência), mas, paradoxalmente, mostraram-me alguém despido de circunstancialismos, alguém que vive para aquilo que quer, sem condicionalismos exteriores, alguém capaz de rir de si próprio e das suas figuras tristes, dos seus pensamentos perversos, oblíquos.

 

Dois livros diferentes, mas ambos interessantes. Se em Dinheiro, o facto do uso do personagem de Amis não ser preponderante para o interesse do livro, sendo este uma espécie de análise sobre a voracidade do dinheiro, dos esquemas de poder e corrupção e depravação promovidos pelo mesmo, em o livro O mapa e o território, Michel Houellebecq é essencial à natureza do livro, de uma forma enviesada quase narcisista. Embora sejam livros completamente diferentes, ambos têm como ponto central a sociedade atual, a forma como esta tem vindo a evoluir, os contornos absurdos que tem vindo a adquirir e o papel individual/coletivo que cada ser humano ocupa nesta teia ilógica cada vez mais densa.