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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

As benevolentes de Jonathan Littell

Passaram anos sobre a leitura deste livro. Sete anos, oito talvez. E se falo nele é porque, mesmo depois de dezenas de livros lidos, o que senti com esta leitura específica permanece gravado em mim através da persistência da memória de um episódio particular.

Quando Jonathan Littell ganhou o prémio Concourt com o livro As Benevolentes, li a notícia no jornal e recortei-a. Não é algo que faça com frequência, recortar notícias de jornais, mas ao ler a sinopse, decidi que queria ler aquele livro e resolvi guardar o recorte como forma de lembrança para quando saísse a tradução portuguesa.

Passaram meses até a edição portuguesa sair. Traduzir esta obra não deve ter sido coisa fácil — um livro com 900 páginas, denso, com variadíssimas referências na língua alemã. Mesmo sem rever o recorte, lembrei-me da minha urgência relativa àquela leitura e comprei o livro.

Não vou aqui discorrer sobre a temática, fazendo um resumo até porque, entre um turbilhão de páginas lidas entretanto, não consigo escrever fidedignamente sobre o que li há oito anos atrás. Desta leitura ficou uma memória latente e que volta e não volta se materializa numa sensação física desagradável.

O início dos relatos, feitos na primeira pessoa pelo narrador, não foi de leitura fácil. Os nomes das patentes militares das SS, usadas sempre no original alemão (talvez por não terem uma correspondência directa com a realidade militar portuguesa), criaram alguma confusão inicial na leitura, pois são usadas muitas vezes em detrimento do nome específico de certas personagens. Depois da habituação, auxiliada por um glossário no final do livro, entra-se na leitura de uma forma avassaladora. A minha leitura foi compulsiva, obcecada, apesar dos horrores descritos, da violência dos actos praticados por aqueles personagens que, embora personagens, são um espelho de acontecimentos bem reais. É humanamente impossível o batimento cardíaco não disparar, não se descontrolar a dada altura, no decorrer desta leitura. É impossível não se sentir um crescendo de desconforto, que culmina com uma vontade cega de gritar provocada não tanto pelo terror, pela tortura, pela morte descritas naquelas páginas, mas pelo evoluir da personagem do protagonista. A transformação de um ser humano, um homem comum, num monstro. E com isto, a questão que fica a pairar como uma sombra — seremos, todos nós, sob determinadas condições, modelados por certos acontecimentos, passíveis de ser corrompidos irremediavelmente pelo mal?

Recordo o dia, quando já me aproximava do final do livro, em que aproveitei a minha hora de almoço no trabalho para ler. As minhas colegas mais próximas brincavam com a situação — «Lá vai ela ler a bíblia» — numa alusão ao tamanho do calhamaço que me inquietava as horas livres. Nesse dia, a hora de regresso ao trabalho chegou, mas com a ausência das chefias, continuei a ler na minha secretária. Não conseguia parar, mesmo com possibilidade de ver entrar de rompante o meu chefe sala adentro. Mais cinco minutos, mais dez minutos e num total, mais meia hora. Um dos meus colegas de sala avisou-me que deveria parar. Quando acabei o capítulo, parei. Ao fechar o livro, toda eu tremia. Os meus olhos pousaram nas mãos que pareciam sofrer espasmos, numa tremedeira incontrolável. E passados tantos anos, se evoco de alguma forma a memória deste livro, através de o ver em alguma livraria ou na minha estante em casa, aquele desconforto físico é a primeira coisa que se me assoma à mente. E agora, enquanto escrevo, apenas a reminiscência daquela leitura me faz tremer novamente.

Não sou pessoa de ter coisas favoritas. Há tanta música de que gosto que é difícil escolher alguma de que goste mais. Com os livros passa-se exactamente a mesma coisa. Pela quantidade e diversidade de leituras, pelas diferentes épocas da minha vida em que cada leitura foi feita, é impossível escolher um favorito. Mas As Benevolentes, pela persistência da reacção física na minha memória a longo prazo, está no top de preferências. Resta saber se, fazendo uma releitura, a opinião se manterá.

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