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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A soma de todas as partes — memórias musicais

Quando morrermos, seremos a soma de todos os cheiros cheirados, de todas as palavras proferidas e ouvidas, de todos os gestos e agressões sentidos e provocados, de todos os sabores provados com delícia ou repugnância, de todas as imagens captadas pela nossa retina e transformadas em memórias visuais e de todas as músicas ouvidas, sons da natureza ou da urbanidade que nos remetem para episódios inteiros de uma vida passada. Atingimos o nosso frasco cheio no preciso momento em que fechamos os olhos para sempre.

Este prólogo vem a propósito da música e da sua preponderância nesta soma de todas as partes, na equação que começa a ser desenhada desde o dia que nascemos. E da música à nostalgia musical, maleita que começa a bater com força a partir da idade adulta, mas que se faz sentir desde tenra idade, vai uma brevidade de tempo que se olha como uma vida, um infinito de evocações e emoções.

Ainda mal tinha posto os pés na adolescência e já sentia uma certa nostalgia ao ouvir os Ondachoc e Ministars, embora os considerasse uma autêntica piroseira infantil. Aquelas notas remetiam-me para um tempo de infância, de inocência, letras cantadas aos saltos no meu quarto, onde cada objecto poderia ser transformado num microfone improvisado, verões quentes e festas de aniversário. Tempos idos e olhados com saudosismo mesmo que na altura deste primeiro arrufo nostálgico fosse apenas uma adolescente.

Agora, ouvindo secretamente o meu ídolo da pré-adolescência, Bryan Adams, faço um elogio mental ao álbum Waking up the neighbours. Recordo o primeiro concerto musical a que fui, a ambiência do local sob o meu olhar de doze anos, a emoção que senti naquela noite, a adrenalina que pululava em mim de cada vez que ouvia a cassete daquele álbum no meu walkman. Não posso dizer que actualmente seja grande fã do Bryan Adams, mas ele está num lugar especial das minhas memórias musicais.

Ainda na mesma altura, entre os dez e os catorze anos, costumava ouvir rádio já deitada na cama, como preâmbulo ao sono que viria. E se agora, nos meus trinta e sete anos, me aparece pela frente as músicas Everybody’s got to learn sometimes dos The Korgis, I’m not in love dos 10cc, Forever young dos Alphaville, Wuthering heights de Kate Bush e algumas outras, imediatamente viajo até àquelas noites, quarto escuro, o peso dos cobertores e a música a inventar histórias mágicas na minha cabeça de adolescente. Algumas delas também me transportam até viagens no autocarro do colégio. O condutor ligava o rádio sempre na mesma estação na viagem de regresso a casa e no programa de discos pedidos estas músicas figuravam invariavelmente. Mesmo que, numa análise racional, possa considerar algumas destas sonoridades lamechas, datadas, continuo a adorá-las. Sente-se a vibrar no peito uma espécie de saudade de tempos que não se repetirão, de momentos a que não chegámos a dar o devido valor, mas que sob o prisma da nostalgia, são preciosos, tesouros que guardamos com ternura.

 

 

Já depois dos trinta anos comecei a revisitar esporadicamente temas musicais que foram pontos altos da minha adolescência, embora fossem evocadores de momentos mais depressivos do que propriamente edílicos. Alice in Chains, Paradise Lost, Guns N’ Roses, Skid Row regressaram ao meu repertório musical e a caminho dos quarenta, recuperei os Faith No More, por quem morria de amores. Ouvir Man in the box, Dirt, Down in the hole, Would? dos Alice in Chains pinta, frente ao meu olhar mais envelhecido, dias e noites de lágrimas vertidas na almofada da cama, uma sensação de estar desajustada do mundo que me rodeava, um inconformismo que, ao invés de me exaltar, me tolhia os movimentos.

 

 

 

Estas evocações com um travo suicida são temperadas por um outro velho favorito — a Paixão Segundo São Mateus de Bach. A esta obra dividida em três CDs, ouço-a há vinte e cinco anos e não foi preciso repescá-la devido a um assalto nostálgico. Depois de tantos anos, com letras em alemão quase decoradas apesar de poucas palavras encontrarem algum significado na minha cabeça, certos momentos da obra são, ainda assim, canais para um dia de sol com vinte anos. Baixa de Lisboa, Chiado, pessoas sobem e descem a rua, Fernando Pessoa permanece estático perante os avanços dos turistas fotógrafos e eu, à saída do metro, de auriculares do discman nos ouvidos, observo a cidade, as pessoas, em busca de uma história pessoal em movimentos banais, sinto o calor do sol, que tem o condão de desanuviar a nebulosidade dos meus pensamentos e ouço o tenor, numa voz enlevada, aos meus ouvidos:

Ich werde von nun an nicht mehr von diesem Gewächs des Weinstocks trinken bis an den Tag, da ichs neu trinken werde mit euch in meines Vaters Reich.

 

 

Agora questiono-me que sonoridades presentes serão evocadas no meu futuro (se o tiver). Que músicas me farão viajar até ao passado e que momentos específicos serão recordados com nostalgia. E esses momentos, que chegarão em fragmentos, em reminiscências despoletadas pelo som de uma música, que cheiros, sons, movimentos trarão ancorados e que me farão pensar nesta era, neste agora, como sendo especial, irrepetível, um instante absolutamente perfeito.

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