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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A ruga

 

 

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Entre as sobrancelhas, acima da cana do nariz, um vinco na pele em forma de Y invertido — a lembrança dos milhares de vezes em que franzi o sobrolho (de assombro, de raiva, de medo, de surpresa, num gesto reflexo de proteção dos olhos contra os raios solares). A repetição dos dias, a repetição da rotina gravada num vinco geométrico na pele.

 

Agora, quando me vejo ao espelho, parece que nada mais resta no meu rosto que não seja aquilo, aquela evidência da passagem do tempo. E não são as questões cosméticas que me afetam, me desmoralizam. O envelhecimento é algo intrínseco à vivência humana. Por mais que se estique aqui, se encha acolá, a passagem do tempo está gravada no corpo, mais não seja através desses processos que a tentam reverter, transformando corpos velhos em quimeras.

 

Mas a minha ruga não é um sinal de envelhecimento. A minha ruga é uma ampulheta, um cronómetro que me escancara na cara o esgotamento do meu tempo. A minha ruga é um riso de escárnio pelo meu descaramento juvenil, pelos projetos, os sonhos que arquitetei na minha cabeça, numa altura em que a vida parecia uma longa autoestrada, interminável, à minha frente. A minha ruga é o sinal do meu fracasso e da minha impotência. A minha ruga é o percurso de costas que faço contra a parede, encurralada pelo tempo.

 

Tic-tac, tic-tac, o tempo esvai-se.

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