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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A poesia do quotidiano

Einar Georg lê um poema da sua autoria. Um poema em islandês. Não compreendo uma única palavra. Percebo a sonoridade, a modelação das palavras, mas não a sua significância. Sei que que aquelas palavras falam de um rio, mas a minha compreensão do poema não passa disso. No entanto, aqueles segundos em que ele desfia as palavras compassadamente ao som da música que vai evoluindo, ganhando força, aquele minuto e tal em que aquela voz envelhecida me fala numa língua desconhecida, o que germina dentro da minha cabeça, do meu peito, é o que o meu entendimento, a minha capacidade intelectual entenderá por poesia.  

 

Independente da linguagem, das palavras numa ou noutra língua, permanece a essência da nossa existência e daquilo que nos rodeia. A minha vida, a vida dos outros, a natureza, a arte. A forma como percecionamos, nos percecionamos e àquilo que nos envolve, conjugada com um olhar despido de preconceito e de pressa, leva-nos a encontrar a poesia no dia-a-dia. Uma poesia sem palavras. Um melro que esvoaça entre árvores anunciando a sua presença com uma cantoria aparentemente estudada, um feixe de luz que atalhou caminho entre os galhos densos de uma árvore, o cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas de outono, o sabor de um diospiro maduro que nos transporta à infância, o alvoroço das chamas numa lareira acesa que nos envolve no seu calor convidativo, a cadência melancólica das notas numa música ouvida num dia de depressão, o entendimento fugaz daquilo que nos inquieta, mas que não conseguimos ou não nos atrevemos a traduzir em palavras.

 

A poesia estará num recanto de cada um nos nossos sentidos, a poesia será um filtro da nossa visão, da nossa audição, do nosso tato, do nosso olfato, do nosso paladar. E como tal, mesmo sem a significância das palavras, entendo perfeitamente o significado de cada palavra proferida por Einar. A sua voz calou-se, a música cessou, mas dentro de mim permanece um eco poético, um latejar acelerado que degenerou num desconcerto físico e mental. Acabou-se. Mas continua.

 

Ólafur Arnalds - Árbakkinn ft. Einar Georg