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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A depressão dos tops de vendas

Quando passo os olhos pelo top de vendas da FNAC e WOOK fico sempre com sintomas depressivos. Desta vez, nem a presença de Elena Ferrante e Mario Vargas Llosa atenuou esses sinais incómodos, pois aqueles três desgraçados pareciam rir-se na minha cara, em jeito de gozo e até me pareceu ouvi-los dizer: «Viemos para o top e é para ficar, minha cara. Habitua-te. Aguenta-te à bomboca».  

 

O JRS, num dos tops 10, tinha direito a dois livros e não deixa de haver alguma ironia no sucesso deste «escritor». Um homem que diz que escreve pois não há nenhum livro que gostasse de ler (nem um, centenas de anos de literatura e nada, aos olhos deste homem não se aproveita nadinha de nada), tem milhares de leitores que o compram e o leem. Só gostava que todos os seus leitores fossem como ele, mais adeptos da escrita do que da leitura.

 

Sobre JRS fica-me ainda uma dúvida: se não há nenhum livro que gostasse de ler, será que nunca leu nenhum livro na vida à exceção dos escritos por ele próprio? Ou tudo o que leu foi a contragosto? E como raio faz ele as tais «investigações» com resultados fascinantes, autênticas descobertas que revolucionam a história da humanidade sem ler absolutamente nada? Ou será que só lê os artigos manhosos da wikipédia? A dúvida não me deixará dormir.

 

Lá pelo meio estava o maior guru da auto-ajuda do nosso país. Um homem que diz sem rodeios que a culpa de alguém ser vítima de violência não é do agressor, do violador, mas… (wait for it) da própria vítima. Alguém que adora trocadilhos com as palavras, mas trocadilhos que são apenas parvos, carecendo de qualquer sentido — a mente chama-se mente porque nos mente. (Neste momento cheguei a sentir um pequenino impulso suicida. Inspira, expira. Já passou.)

 

Não deixa de me surpreender a correlação direta entre o aumento de baboseiras proferidas pelo Gustava Santos e o aumento de livros vendidos e o aumento de likes na sua página do Fecebook.

 

Para último, fica o eterno morador dos tops nacionais, o Pedro Frases Feitas (peço desculpa roubar este delicioso termo sem dar direitos de autor ao criador, mas não sei quem foi).

 

Tenho no entanto de dar a mão à palmatória. Ele é definitivamente mais honesto que a maioria das figuras públicas da nossa praça. O homem promete falhar e falha, ele promete perder e perde. Pedro Chagas Freitas é, para mim, um fenómeno, mas não literário. De marketing. O percurso dele deveria ser usado como caso de estudo na área da comunicação e marketing porque não deixa de ser fascinante a forma como conseguiu desbravar terreno até chegar onde chegou — morador dos tops de vendas, figura com mais frases e textos lamechas partilhados nas redes sociais, autor adorado por milhares de leitores.

 

Este artigo da revista Sábado ilustra bem o autor e o seu percurso e, se eu pudesse, fazia uma cópia e enviava-a a todos os leitores do Frases Feitas. Um presente do fundo do coração.

 

Com isto concluo que o melhor para mim é manter-me na ignorância, evitar consultar os tops de vendas das livrarias, pois a depressão sai cara e não me apetece gastar dinheiro em medicamentos.

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