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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Blasfémias

Outubro de 2013. Um barco com 400 pessoas provenientes da Síria naufragou a poucos quilómetros de Lampedusa, na Itália. 268 pessoas perderam a vida, entre elas 60 crianças. Números trágicos, mas que pela repetição diária se tornaram corriqueiros. Números…

 

No entanto, apesar de quase cinco anos passados, novas informações surgiram sobre este incidente específico. Na altura do acidente, surgiram algumas suspeitas relativas à extrema demora no auxílio aos náufragos que fugiam de uma guerra sangrenta. Neste momento, as suspeitas confirmaram-se. Um médico sírio, a bordo do barco, entrou em contacto com a guarda costeira italiana informando da situação crítica do barco (estava a entrar água na embarcação), avisando que «estamos a morrer!». As coordenadas que permitiam a localização da embarcação foram fornecidas, a informação sobre a situação limite em que se encontravam aquelas centenas de pessoas foi relatada. Mas o que a guarda costeira italiana fez foi empurrar a responsabilidade do auxilio para Malta. Mandou o médico ligar para Malta. Este assim o fez. De lá, de Malta, recebeu instrução idêntica: «ligue a Itália. Eles estão mais próximos». Durante cinco horas, Itália e Malta empurraram a responsabilidade com troca de telefonemas e faxes, enquanto centenas de pessoas se afogavam no Mediterrâneo. Só quando Malta enviou um avião que verificou, sobrevoando o local, que já estavam centenas de pessoas na água, é que Itália resolveu mandar auxílio. A frase desesperada do médico sírio «Estamos a morrer!» não surtiu qualquer efeito empático nos funcionários italianos ou malteses, as chamadas insistentes, a aflição na voz de alguém que percebia a morte eminente não conseguiu arrancar o funcionalismo burocrático aos seres humanos que atenderam aquelas chamadas.

 

Agora, a revista italiana L’espresso conseguiu ter acesso às gravações de cinco chamadas telefónicas que provam a indiferença e a ineficácia de auxílio das autoridades italianas que permitiram, dessa forma, a morte de 268 pessoas. Jammo, o médico sírio que deu o alerta, sobreviveu ao naufrágio, mas dois dos seus filhos não resistiram às cinco horas de espera impostas pela indiferença burocrática italiana.

 

Numa blasfémia de diferente natureza, a República da Irlanda resolveu investigar Stephen Fry por blasfémia. O humorista britânico foi investigado após uma denúncia feita por um telespetador após a emissão de um programa de 2015, onde Fry, questionado sobre o que diria a deus depois de morrer, respondeu o seguinte:

 

Como se atreve a criar um mundo onde existe tanta miséria? A culpa não é nossa. Não é correto. É absolutamente, absolutamente maligno. Porque haveria de respeitar um Deus caprichoso, malicioso, estúpido que cria um mundo que está tão cheio de injustiça e dor?

O Deus que criou este Universo, se é que foi criado por um Deus, é claramente um maníaco, um completo louco, totalmente egoísta.

Citações de Fry retiradas deste artigo do jornal Público.

 

A lei irlandesa prevê a punição de quem insulte qualquer religião ou os seus fiéis. No entanto, para a investigação chegar a julgamento, terão de existir vários ofendidos. E esse foi o facto que acabou por deixar cair a acusação. A polícia, segundo notícia de ontem do Daily mail, não encontrou mais ofendidos pelas palavras de Fry e assim caiu a acusação de blasfémia contra o ator.

 

No fim, resta saber quem mais blasfemou: Fry, com a sua ira contra um deus omnipresente, mas caprichoso, malicioso (palavras, nada mais do que palavras), ou os funcionários burocratas indiferentes à aflição alheia, entretidos a trocar faxes e telefonemas entre si (ações ou falta delas).

  

Festival das memórias

Uma das minhas primeiras memórias preservadas durante décadas remonta a 1980/81, teria eu uns dois ou três anos e o que o ouvido captou e os olhos míopes ajudaram a gravar em memória foi o início da transmissão do Festival da Eurovisão da Canção. Numa época em que o entretenimento televisivo era bastante limitado e, morando eu numa zona rural, o entretenimento de uma forma geral era coisa arcaica quando comparada com os tempos que correm, a transmissão do Festival da canção era um momento de grande excitação e expetativa, vivido em família, motivo de conversa nos dias seguintes, momento televisivo imperdível.

 

Na memória desse longínquo ano ficou o hino inicial da transmissão, a imagem gráfica básica, mas que marcava o ponto de partida da grande noite que se seguia, tornando-se assim memorável.

 

Hino Eurovisão RTP-ZDF (Marc-Antoine Charpentier - Te Deum) 

 

Nos anos seguintes, a expetativa manteve-se. A transmissão do festival continuou a ser ponto alto no entretenimento em família, fonte de angústia e excitação (os momentos das votações dos vários países, o raio da vitória que nunca nos calhava na rifa, o complô evidente entre os países bálticos, a amizade entre os países escandinavos e o raio dos coitadinhos dos portugueses nunca tinham direito a nada). No festival de 1991 apareceu uma das minhas canções favoritas de sempre. A canção francesa de Amina agarrou-se-me à memória de tal maneira que, numa época sem internet e sem grandes recursos de procura musical, por lá hibernou, recordada em trauteios volta e não volta. Com o surgimento décadas depois do youtube, busquei Amina e trouxe-a à tona da memória e ali estava novamente «C'est le dernier qui a parlé qui a raison», sons de outrora disponíveis para serem relembrados.

 

Amina, Cést le dernier qui a parlé qui a raison (a música de Amina ficou em primeiro lugar empatada com a Suécia, mas este último país, tendo obtido mais vezes 12 pontos, foi declarado o vencedor do certame).

 

Com o avançar da década de noventa e com a chegada dos anos 2000, o fervor pelo festival foi desvanecendo lentamente. Novos canais televisivos surgiram, a qualidade das músicas apresentadas começou em franco declínio até chegarmos a um ponto em que o festival se transformou num espetáculo visual aparatoso, mas musicalmente pobre, não justificando que se gastasse horas a acompanhar a sua transmissão. A língua inglesa passou a ser língua de escolha preferencial para as letras das músicas, o género dominante é o pop (nada contra), mas, salvo raras exceções, o que se vê são cópias rápidas, sem grande originalidade, pobres a todos os níveis, transformando o concurso num desenrolar de «músicas» sem interesse.

 

Este ano, um certo fervor do passado regressou. Se há uns quantos anos não faltariam por aí pessoas que nem sequer saberiam quem era o concorrente português à eurovisão, este ano isso será fenómeno raro. A escolha de Salvador Sobral não convenceu toda a gente — para alguns, a música não será suficientemente festivaleira, musicalmente boa demais para o certame em questão (o que diz muito sobre a qualidade atual percecionada do festival), mas para outros, adequando-se ou não ao propósito para o qual foi escolhida, é uma boa música que nos dignifica enquanto país concorrente.

 

A quem neste momento abra um qualquer agregador de notícias, por lá encontrará uma boa quantidade de artigos sobre o concorrente português, a quem abra o youtube, por lá se deparará com diversas versões da música, entrevistas ao músico, vlogs de opiniões sobre a canção portuguesa. E o interesse por um certame, até à data decadente por estas bandas, ganhou um ímpeto inusitado que trouxe o Festival da Eurovisão para tema central das conversas de café e das redes sociais.

 

Salvador Sobral, Amar pelos dois.

 

Pessoalmente, gosto da nossa música e embora não tenha acompanhado o festival nas últimas décadas, as memórias da infância, aquele vislumbre de tempos idos, leva-me a depositar um carinho especial por este evento. A memória regressa à infância, regressa ao frenesim daqueles tempos e secretamente sussurro:

Portugal, 12 points.

Feminazi

Tinha pensado em escrever sobre Marina Abramović e sobre uma das suas performances mais emblemáticas, mas uma mensagem no blog mudou o rumo da escrita de hoje. Marina ficará para amanhã.

 

Escrevi no sábado um texto sobre o jornalismo numa associação a um artigo do Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. O texto era uma denúncia da forma enviesada, sexista, como Brigitte era referida, funcionando como demonstração da maneira como as mulheres ainda são vistas na sociedade, como, apesar de mudanças várias, a mulher ainda é referida como certo acessório masculino. Não acho que tenha sido o meu mais brilhante texto, longe disso. Estava irritada com o artigo (a irritação nunca é grande conselheira), o meu filho questionava-me sobre coisas várias enquanto eu tentava escrever, em suma, pouca concentração, alguma irritação, e nasceu um texto. Penso que tenha sido esse mesmo texto o causador da mensagem que recebi de um qualquer anónimo, que me apelidou de feminazi — tenho de dar créditos humorísticos à designação. É genial, embora tenha perdido certa graça devido à repetição exaustiva:

 

porque será que se fala na primeira profissão do mundo com a mulher como fornecedora de servico? a culpa é sempre do homem.....faltam espelhos em casa? ou já não suporta olhar para eles? talvez haja uma coincidencia e alguma identificacao na menopausa...mais uma feminazi.....

 

Toda a mudança de uma hierarquia instituída vem sempre acompanhada de medo, de uma certa inquietação relativa à disrupção iminente. Quando o esclavagismo chegou ao fim, a integração dos antigos escravos trouxe inquietação à raça que dominava, quando uma religião começa a ganhar crentes numa determinada região, isso traz uma inquietação que pode levar à revolta, à violência, dos crentes que antes viam a sua religião como dominante naquele local, quando as mulheres entraram em força no mercado de trabalho, isso trouxe uma insegurança aos homens, que antes dominavam sem questionamento esse mesmo mercado. E a história está cheia de disrupções e consequentes medos.

 

Dito isto, não sinto choque por ter homens à minha volta que se dirijam a mim da forma como este anónimo fez. As mudanças recentes em alguns países no que aos direitos da mulher diz respeito trazem, inevitavelmente, mudanças numa hierarquia, numa organização social que dura há séculos e, como qualquer mudança, esta também é geradora de inquietações. Ver o domínio ameaçado, uma ordem instituída que parecia garantida ser abanada pelas bases, fragiliza sempre e, quanto menor a capacidade de refletir, tentar ver o mundo pelos olhos do outro, tentar perscrutar o futuro sob a lupa da mudança, menor a tolerância para essa mudança e maior a revolta.

 

Há um século atrás, quando as mulheres se começaram a afirmar, entraram na universidade, se juntaram em grupos de reflexão, escreveram livros sobre a sua condição de mulheres, saíram ao prelo milhares de livros de ataque à mulher escritos por homens, livros que a tentavam reduzir à esfera doméstica, a uma submissão ao homem, a uma condição de muleta do homem ditada por deus. Na altura, um dos argumentos esgrimido por alguns era a inferior intelectualidade, a menor inteligência da mulher. Um século passado, esse argumento já não resulta, foi descartado e, faltando algo de mais sólido, retrocede-se. Como se vê pelo comentário deste anónimo, volta-se ao básico: uma sugestão da minha pouca beleza, da minha insatisfação pelo o que o espelho reflete, da minha frustração por estar na menopausa (lá chegarei, se, entretanto, não bater a caçoleta).

 

Quando lia o livro de Yuval Noah Harari chamado Sapiens, onde o autor escreve sobre a evolução do ser humano ao longo dos tempos, a dada altura a questão da sociedade patriarcal é discutida. A pergunta que continua a persistir no ramo da antropologia é: porque é que, talvez desde os primórdios da evolução do homo sapiens, sempre se viveu numa hierarquia, numa sociedade patriarcal e uma organização matriarcal num foi opção? A opinião dos antropólogos segue em diversas vertentes: alguns julgam que a força muscular, geralmente maior nos homens, ditou esta organização; outros acham que não foi tanto a força, mas a agressividade. O homem sempre teve, de forma geral, um temperamento mais agressivo, o que poderá ter condicionado de forma primitiva a organização social; outros antropólogos referem ainda um possível gene patriarcal, algo intrínseco ao ser humano, que nos leva irremediavelmente a uma organização patriarcal.

 

Na realidade, não há um consenso, não há uma resposta clara que justifique o nosso caminho de milénios que nos trouxe, enquanto seres humanos, até ao dia de hoje, nesta organização social tal como a conhecemos. No entanto, tudo o que conseguirmos fazer, mudar, revolucionar, será parte integrante do que somos, natural, parte da nossa evolução. Dito isto, esta luta das mulheres pela equidade de direitos, por um olhar de igual para igual, pode trazer ansiedade àqueles que, numa organização hierárquica, não estavam habituados a um olhar olhos nos olhos, mas antes a uma olhar submisso, mas apesar desse medo e inquietação, é um movimento natural evolutivo.

O humor na luta

Se a expressão «Fora, Temer» é frase de ordem no Brasil da atualidade, palavras icónicas na luta contra o presidente, mostra de rejeição, demonstração de descontentamento, um funcionário de um cemitério resolveu inovar e, ao invés de mandar o presidente embora, resolveu convidá-lo a entrar. No cemitério, claro está.

E bastaram duas palavritas para eu soltar uma gargalhada. O humor, mesmo na luta, é sempre o melhor remédio.

 

Entra temer.jpg

 Imagem retirada daqui.

 

Jornalismo papel higiênico

Se há coisa que me faz soltar umas imprecações, uns quantos palavrões sentidos, é quando o jornalismo, arma essencial numa sociedade moderna e democrata, se tenta armar aos cucos, mandando por água a baixo a sua credibilidade, transformando o que deveria ser uma poderosa arma informativa, num mero rolo de papel higiénico.

 

No meio das notícias que lia, aparece-me à frente uma notícia do jornal Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. Começo por questionar qual o interesse de escrever um artigo sobre a esposa de um candidato às eleições francesas, mas, ainda assim, embora pouco relevante e de cariz fofoqueiro e não informativo, grande mal não viria ao mundo. No entanto, o título, o grande sacana do título, quase me provocou uma apoplexia.

 

Observador.jpg

 

Há algo de absolutamente sexista, misógino neste título, mas o que ainda me enfurece mais é a cobardia implícita pelo uso das aspas. O jornal Observador usou a expressão «barbie com menopausa» para designar Brigitte e, um pouco em jeito de «não fui eu que disse, foram outros senhores», usou as aspas como desculpa pelo abuso. Na realidade, é irrelevante quem usou primeiro a expressão, a repetição de um absurdo não é desculpável pela antecedência desse absurdo. Não é por vários jornais se terem apropriado de uma expressão sexista e redutora de uma mulher que é admissível e desculpável a persistência do uso dessa expressão.

 

Quanto à expressão em si, por mais voltas que o mundo dê, a mulher continua a ter um tratamento diferenciado do do homem, tratamento esse fortemente ligado a uma certa objetivação, ao aspeto físico, a uma certa ideia de família tradicional. Não há escândalo algum em Melania ser uma catrefada de anos mais novo do que Trump, não há drama algum em Marcela ser quase quarenta anos mais jovem do que Temer. A eles, gabam-lhes a capacidade de terem arranjado tão bonitas e jovens esposas, a elas gabam-lhes a juventude e a beleza.

 

Mas o diabo do Macron, grande cromo, foi arranjar uma esposa vinte e picos anos mais velha. É o apocalipse. A ela, apesar de não lhe negarem uma suposta beleza, esfregam-lhe na cara a evidência do envelhecimento, da sexualidade decadente implícita, o uso do «com menopausa» como se de uma doença maligna se tratasse,  a ele chamam-lhe de menino da mamã e tentam arranjar desculpas para tão bizarra escolha: é gay, o casamento é uma fachada.

 

Em suma, tanto num exemplo como noutro, a mulher fica-se pela única dimensão do aspeto físico e apenas essa dimensão é explorada. Sem grande interesse, no caso da juventude (é comum homens poderosos e ricos casados com mulheres mais novas), mas em tom de escândalo quando o oposto acontece: homem jovem casado com mulher mais velha. A nós, mulheres, para estes jornaleiros da atualidade, resta-nos o papel de bibelot, acompanhante de luxo dos senhores políticos, ícone de beleza.

 

Pois é… tanto tempo perdido, tanto computador ligado a gastar energia, e gastam os jornais tempo nestas irrelevâncias constrangedoras e perpetuadoras de estereótipos tristes e ultrapassados.

 

Sabem, o que eu gostaria mesmo de saber é quem é Macron, qual o seu passado político, qual as suas propostas em cima da mesa para o futuro da França, quais as contradições do seu discurso político, quais as soluções e a sua viabilidade, qual a capacidade que demonstra para enfrentar a França pelos cornos. Só isso, nada mais do que isso.

Monty Python’s world

O funcionamento do mundo está cheio de detalhes bizarros camuflados, na maioria das vezes, pelas vestes da normalidade, da banalidade. Mas há certas bizarrias que, por mais maquiagem que se lhes ponha em cima, permanecem absurdamente bizarras aos olhos de quem as quiser ver. Dou por mim a murmurar palavrões ao ler certas notícias, a questionar a verosimilhança da realidade onde me insiro, a verdade deste meu agora.

 

Neste último domingo, a Arábia Saudita foi eleita para a Comissão para os Direitos das Mulheres da ONU. A eleição deste país para esta comissão é de tal forma aberrante que roça o absurdo, a comédia hilariante. É um pouco como eleger um pedófilo para a comissão dos direitos das crianças ou um traficante de droga para a comissão da luta contra o tráfico de estupefacientes. Arábia Saudita e Direitos das mulheres são um paradoxo, a antítese um do outro, o que torna esta eleição uma aberração pública, uma anedota.

 

Num país onde as mulheres são consideradas um subproduto humano, um ser subserviente do homem, onde não podem conduzir, onde não podem estudar, trabalhar e viajar sem autorização de um homem, votar em todas as eleições, a escolha deste país para uma comissão que pretende acabar exatamente com esse tipo de abominações no que concerne os direitos das mulheres é, acima de tudo, uma autêntica descredibilização da ONU, transformando um organismo que deveria ser de relevância, numa anedota.

 

Relembro ainda que este mesmo país foi reeleito no ano passado, em outubro de 2016, para o conselho de direitos humanos da ONU. O poder de determinadas nações (poder económico, estratégico, político) acaba por ter mais peso, ser mais relevante do que qualquer facto, do que a evidência das atrocidades cometidas. Num país onde os ateus são considerados terroristas (com penas equivalente àqueles que praticam terrorismo na verdadeira aceção do termo), os direitos humanos são como um tapete onde a Arábia Saudita limpa os pés.

 

Quando vemos as urgências do mundo e quando percebemos as estratégias adotadas por organismos que deveriam zelar pela resolução eficaz dessas urgências, percebemos que isto está tudo mesmo fodido (pardon my french).

 

No fundo, estamos todos metidos dentro de um filme dos Monty Python. Que o absurdo nos possa, pelo menos, parecer comédia. Se rirmos, não dói tanto.

 

 Monty Python - A vida de Brian (stoning scene)

O fim do abate nos canis municipais

Ando há uns dias para escrever sobre este assunto, mas optei por deixar assentar o pó da irritação que inicialmente me invadiu de forma a conseguir escrever sobre o tema de uma forma mais objetiva e menos passional (o mais certo é esta minha intenção sair frustrada).

 

Foi aprovada na semana passada uma nova legislação que vem proibir o abate de animais em centros municipais, que tem sido usado até agora como forma de controlo da população animal ou sobrelotação. A nova lei prevê apenas a eutanásia de animais com a justificação de problemas de saúde ou de comportamento e sempre através de um ato médico, praticado por um veterinário e de forma indolor para o animal. A lei, apesar de entrar em vigor daqui a um mês, prevê um espaço temporal de dois anos para que sejam criados centros de recolha oficiais onde os animais recolhidos das ruas permaneçam até possível adoção.

 

Pareceu-me uma medida louvável, até porque, no que diz respeito ao abandono animal e mau trato animal, o nosso país tem comportamentos que classificaria típicos de países do terceiro mundo. Para além de uma óbvia falta de consciência por parte de uma fatia considerável da sociedade sobre como tratar os seus animais domésticos, a forma como funciona a recolha/reabilitação e encaminhamento para adoção de animais abandonados ou vadios é também ela bastante deficiente, uma espécie de varrer o problema para debaixo do tapete.

 

A grande parte dos municípios não tem canil, os que o têm, uma parte deles funciona de forma obscura. Li ainda na semana passada o relato de uma pessoa que vive no mesmo distrito que eu, queixando-se que o seu cão tinha desaparecido e tentando procurá-lo no espaço onde supostamente existia o canil municipal do seu município, encontrou apenas um barracão sem qualquer funcionário nem aviso sobre horário de atendimento. Depois de telefonar várias vezes para a câmara municipal, conseguiu falar com o responsável pelo canil (um senhor com mais talento para trabalhar num açougue do que com animais domésticos vivos) que lhe disse não ter tempo de ir com ela ao espaço para que ela pudesse verificar se o cão dela lá estava.

 

Como esta denúncia, existem milhares. Animais recolhidos que desaparecem misteriosamente às mãos de funcionários camarários, recolhas de animais e encaminhamento sistemático para canis de abate.

 

Excluindo estas situações, as recolhas, alimentação, alojamento e encaminhamento para adoção dos vários animais abandonados estão a ser promovidas essencialmente por associações, que sobrevivem apenas e só devido a uma grande dose de altruísmo e dedicação por parte dos seus voluntários. Pegando no caso da associação existente no meu concelho, não fosse o amor condicional aos animais por parte dos seus voluntários, centenas de animais teriam sido encaminhados para o canil de abate de Ílhavo, que até há pouco tempo tinha um acordo de cooperação com a minha câmara municipal. No entanto, o trabalho desta associação e certamente de todas as outras, afigura-se uma autêntica batalha diária. São as despesas com a alimentação e desparasitação que não param de crescer, a falta de espaço, as despesas veterinárias dos animais feridos que são recolhidos, as despesas das esterilizações que são feitas, a promoção diária nas redes sociais para a adoção responsável.

 

Mas voltando à questão da aprovação da lei do fim do abate, o presidente da câmara de Aveiro, capital do meu distrito, após a aprovação da lei de que falo acima, veio mostrar a sua indignação, criticando a proibição de abate de animais. Durante vários anos, os animais recolhidos em Aveiro foram reencaminhados para o canil de Ílhavo, com quem a câmara de Aveiro tinha um acordo de cooperação. A câmara de Aveiro teve o seu canil fechado pela Direção geral de veterinária em 2012, por falta de condições básicas. Este acordo de cooperação permitiu à câmara ver-se livre do problema de forma elementar, sem se dar muito ao trabalho. Os animais eram apanhados e enviados para Ílhavo e lá, grande parte deles foram mortos. Em quatro anos, o número de animais mortos pelo canil de Ílhavo chega a 1000 animais. Num ano, e pelos vários canis municipais do nosso país, são abatidos cerca de 100.000 animais.

 

Para Ribau Esteves, a preocupação pela vida animal nunca terá sido ponto de agenda essencial no seu município. Se até agora conseguiu desviar o problema para mãos alheias, com a mudança da lei e com a revogação unilateral do acordo com o canil de Ílhavo, vê-se agora obrigado a enfrentar e solucionar o problema. Como é óbvio, a solução não é mágica como tem sido a solução provida pelo abate. Mata-se o cão, o problema desaparece, apesar de ser um problema recorrente, crónico. Na realidade, a única coisa que separava certos canis municipais de um matadouro, é que os animais ali mortos não são para consumo humano. De resto, o comportamento para com o animal é em tudo semelhante.

 

O nosso canil não vai ser elástico e a produção de cães vadios é muito alta e não se vai resolver com legislação insensata. Muda o problema e não o resolve.

Palavras de Ribau Esteves numa reunião camarária. A expressão «produção de cães vadios» é esclarecedora da forma um tanto enviesada como o autarca aborda o tema.

 

Olhando para os casos de países onde o abandono de animais é marginal e o problema está dado como erradicado, percebe-se que a solução a adotar não pode ser uma solução a curto prazo, instantânea. Tem de ser a combinação de vários fatores que a médio/longo prazo trarão a desejada erradicação do abandono e dos animais de rua.

 

É necessário promover-se a consciencialização das pessoas para o bem-estar animal e isso deveria ser feito desde a tenra idade. Mais do que a punição criminal pelo mau trato ou abandono (necessária, mas muitas vezes difícil de provar e aplicar), melhor será a promoção da mudança de mentalidades.

 

Tal como aprovado, deveria existir centros especializados para a recolha dos animais, que promovessem a total esterilização das fêmeas e identificação dos animais que seguiriam para adoção. As situações obscuras de vão de escada têm de acabar.

 

Se estes centros forem planeados convenientemente, ao prestarem serviços veterinários pagos aos animais da sua zona, venda de produtos farmacêuticos e alimentares veterinários, poderão em parte financiar o próprio centro.

 

Deveriam ser feitas campanhas de forma ativa que promovessem a adoção responsável, mesmo por parte de entidades coletivas como lares, escolas, empresas, etc.

 

Para terminar, enquanto certas pessoas, tal como o Sr. Ribau Esteves, virem os animais de companhia como chouriças que saem de uma fábrica de enchidos e não como seres sencientes, talvez seja utópico almejar uma mudança drástica na forma como a sociedade trata os seus animais. No entanto, tentemos pensar na resolução deste problema como uma corrida de fundo, um problema que começa a ser resolvido nas suas raízes para ter resultados efetivos e permanentes a longo prazo. A meu ver, a nova legislação, se conveneintemente aplicada, contribuirá para que isso aconteça.

Inovações criminais

Porque nem só de bustos pitorescos vive o homem e porque a cabecinha hoje (e nos últimos dias) não dá para mais, hoje decidi dedicar o meu post ao último grito no que diz respeito à inovação criminal.

 

Dentro do crime é possível enveredar por vários esquemas diferentes para tentar extorquir umas boas quantias aos mais incautos. O sequestro é uma das opções. Rapta-se determinada pessoa e exige-se aos seus entes queridos mais próximos um resgate astronómico para que a mesma seja libertada e possa regressar a casa (de preferência viva).

 

No entanto, um grupo criminoso da Sardenha resolveu dar um toque de inovação à opção criminosa do sequestro, porque há sempre espaço para inovar, mesmo que o negócio empreendedor em questão seja na área do crime.

 

Porquê raptar alguém vivo (que grande trabalheira, a pessoa resiste, grita, esperneia, tem de se lhe dar de comer e beber, etc.) se se pode raptar alguém morto?

 

Este inovador grupo criminoso da Sardenha pretendia raptar o corpo do falecido fundador da Ferrari, Enzo Ferrari, falecido em 1988 com 90 anos. O corpo repousa num jazigo da família num cemitério próximo das instalações da fábrica da Ferrari e a intenção do grupo era retirá-lo de lá de forma a pedir um resgate à família ou mesmo à própria empresa Ferrari. Infelizmente, os intentos criminosos do grupo saíram gorados porque a polícia de Nuoro, quando levava a cabo umas investigações relacionadas com o tráfico de armas, deparou-se com o plano inovador da quadrilha, frustrando assim os seus intentos de ganhar umas massas.

 

E digo infelizmente porque, mesmo tratando-se de um crime, é impossível não extrapolar para o filme que este crime seria se pudesse ter sido levado a cabo. Uma quadrilha a passear pela cidade com um caixão na parte de trás de uma carrinha, as movimentações para esconder o caixão, caixão escada a cima, caixão escada a baixo, o telefonema para a família:

 

«Temos o Enzo. Queremos 3 milhões para o soltar.»

e a família, perplexa, pergunta: «O Enzo, qual Enzo? Aquele que morreu há 29 anos?»

«Sim. Esse. Queremos marcar a entrega contra pagamento dos 3 milhões. Tragam 4 homens para carregar o Enzo».

«O Enzo não vale 3 milhões. Está morto há décadas. Podem ficar com ele.»

 

Em suma, a inovação e o empreendedorismo são sempre bem-vindos, seja em que ramo de atividade for, mais não seja para me fazer deambular pela casa, imaginando filmes policiais em que a vítima é um cadáver. Uma pessoa sempre tem de se entreter com alguma coisa.

 

Enzo Ferrari.jpg

Enzo Ferrari. Fotografia retirada daqui.

Ficções: bons ateus ou maus católicos?

É raro perder tempo a ler textos que, pela sua origem, sei à partida que a leitura dos mesmos será uma perda de tempo. No entanto, se o fundamento do meu acordar diário é, a cima de tudo, tentar aprender alguma coisa, tem dias em que saber «onde param as modas» pode ser imperativo, mesmo que essas modas não me levem a lado nenhum de interesse.

 

Assim sendo, movida pelo título, dei por mim a ler um artigo de opinião do padre Gonçalo de Almada no jornal Observador. Como padre que é, percebi que o mote principal dos artigos do padre Gonçalo é a religião católica e romana. A religião sempre foi, para mim, motivo de grande interesse, apesar do meu ateísmo confesso. Não tenho grande interesse pelas particularidades das religiões em si, mas interessa-me a génese da crença humana pelas ficções como forma de organização e estruturação da sua vida pessoal e vida em sociedade. A crença numa qualquer ficção (que envolva divindades ou abstrações do mundo físico/material) parece algo intrínseco ao ser humano, uma quase necessidade que nos caracteriza desde dos primórdios da nossa evolução.

 

No entanto, se as religiões serviram e, de certa forma ainda servem, para unir numa crença um grande grupo de pessoas que não se conhecem, tornando possível uma base de entendimento e aproximação entre milhares e milhões de desconhecidos, o certo é que o oposto também se aplica. As mesmas religiões uniram, mas criaram também divisões irreversíveis (e de grande violência) entre grupos de diferentes crenças. Para as principais religiões atuais, não basta difundir uma crença e promovê-la, é essencial incutir aos seus seguidores que aquela crença é que é A Verdadeira Crença e todas as outras se encerram dentro da categoria das fraudes ou degenerações.

 

Voltando ao artigo e ao seu título do artigo — Bons ateus ou maus católicos? — o autor, nos parágrafos finais, tenta perceber o que é melhor: um bom ateu ou um mau católico. Depreendo que a esta quantificação de bom e mau, esta visão maniqueísta do ser humano, esteja ligada às ações efetuadas por uns e outros. Para mim, alguém que seja tolerante, solidário, empático, altruísta, será alguém que se enquadra dentro da categorização de Bom.

 

No entanto, para o padre Gonçalo, as coisas não serão tão lineares:

 

O Papa Francisco reconhece que há ateus que, por excepção, são bons, como também não ignora que há católicos que, por excepção, são maus; mas também sabe que são meras excepções. A regra é que os católicos sejam bons, não por mérito próprio, mas pela graça dessa sua condição; quem a não tem pode ter alguma bondade, mas não tanta quanto teria se a tivesse. Caso contrário, para que serviria ser cristão?!

 

De facto, os maus católicos são melhores do que os bons ateus, não porque humanamente sejam mais perfeitos, mas porque, pela sua fé, não só alcançam a graça que os perdoa e liberta dos seus pecados, como também a alegria do amor de Deus.

Bons ateus ou maus católicos?, padre Gonçalo Portocarrero de Almada, Jornal Observador (25/03/2017)

 

Estas duas frases retorcidas deixaram-me inquieta. Sei que são apenas um olhar enviesado da realidade, mas são o olhar de alguém numa posição para propagar ideias, difundir opiniões, estabelecer-se como orientador de um rebanho.

 

Na realidade, alguém que faz uma boa ação porque acha que deus assim o quer (porque será punido se for mau ou será premiado ser for bom) não será alguém com menos bondade dentro de si do que alguém que promove o bem, faz boas ações apenas comando pela sua consciência?

 

Eu acho que sim. Se dividir o mundo de forma simplória entre bons e maus, os melhores de todos serão aqueles que promovem o bem de forma altruísta, sem terem por trás de si segundas intenções de salvação divina. O que os move não é a punição ou salvação, é apenas o amor desprendido, incondicional ao próximo.

 

Estas palavras do padre Gonçalo, para além de promoverem a religião como salvo conduto para a salvação, independentemente do comportamento pessoal de cada pessoa, chocam porque nada diferem de certos radicalismos tão fortemente criticados. Elas retiram ao ser humano qualquer responsabilidade sobre as suas ações, depositando toda essa responsabilidade na crença num deus específico. Basta acreditar para se ter a certidão de boa pessoa. Todas as ações veem-se justificadas, perdoadas, se a pessoa acreditar neste deus específico.

 

E por mais boas ações que se faça, se o que o move uma pessoa for apenas o bem, isento de qualquer ficção religiosa, essas ações nunca serão boas o suficiente, mesmo que comparadas com as más ações de um crente.

 

 

The way the world goes round

Pela Europa cresce o medo fomentado por ataques terroristas dispersos. O medo procura um rosto que possa acusar, a que se posso aferroar com unhas e dentes. E facilmente o encontra. Mesmo os que se dizem vestidos pela capa da moral, da tolerância, sentem a doce tentação da generalização, da simplificação daquilo que é tremendamente complicado. Se foi engendrado por nós, humanos, tinha mesmo de o ser — complicado.

 

No entanto, temos de nos agarrar com força às evidências: a falta de empatia pelo próximo, a barbárie, a capacidade geradora de violência, não são coisas exclusivas de crentes de uma ou outra religião. O que de mais medíocre existe no ser humano, mesquinho, rude, é transversal aos crentes de todas as religiões, às pessoas de todas as raças, etnias, proveniências geográficas, género e orientação sexual. No meio de nós ou em nós, dentro de nós, existem psicopatas.

 

Após o ato tresloucado de um demente em Londres, surge a memória de outros dementes, outros seres humanos danificados. Corria o ano de 2011 quando veio a público os atos grotescos levado a cabo por soldados norte-americanos no Afeganistão. Morlock, um dos oficiais visados, resolveu «chibar-se» e denunciar os colegas envolvidos, de forma a reduzir a pena pelos atos inomináveis. E que fizeram eles, quais eram esses atos abomináveis: durante a campanha militar no Afeganistão mataram vários civis desarmados «por desporto». E estas palavras — «for sport» — foram usadas, não são minha invenção. Estes soldados escolhiam um alvo e matavam-no por desporto, usando de várias encenações e estratagemas para encobrir as motivações das mortes. Alguns chegaram a guardar partes dos corpos, incluindo um crânio, como recordação da diversão das suas práticas desportivas.

 

Diariamente, sob a cobertura da bênção de um rosto ocidental, de uma vida ocidental, de uma cultura ocidental, várias pessoas são sujeitas à tortura e morte por este mundo afora. Um psicopata não deixa de ser psicopata por ser cristão, branco e ocidental. O que urge banir não são os muçulmanos, o Islão, mas a doença que afeta alguns de nós. O que urge corrigir é a perceção errada dos atos sem consequências. Todos os atos têm consequência e os grandes atos (por grandes, falo na dimensão não na grandiosidade qualitativa) tendem a ter grandes consequências. E quando esses grandes atos são atabalhoados, desastrosos, é patético esperar deles consequências que não sejam também elas desastrosas.

 

E sem querer justificar, porque a barbárie não pode ter uma justificação, a violência elimina-se, não se justifica — o ato de um psicopata no médio-oriente, de uma coligação de psicopatas, de uma estratégia militar de psicopatas, pode ser gerador do ato de um psicopata ou grupo de psicopatas no ocidente. E se o olho por olho, dente por dente é expressão grotesca, primitiva, ela, queira-se ou não, serve como se feita à medida da ocasião.

 

E no fundo, nada disto nunca se tratou de religião, mesmo que o embrulho da prenda fosse esse. No fim, tratou-se e continuará a tratar-se, hoje e sempre, de poder e domínio que uns querem exercer sobre outros. Fora dos jogos de poder ficamos nós, tristes peões, mas nem por isso isentos de culpas.