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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O Evangelho Segundo Lázaro (Richard Zimler) — «Respondi-te no lugar onde se esconde o trovão».

Para se fazer uma crítica, para se avaliar o trabalho de alguém, será sempre necessário um olhar objetivo, despido de preconceito, focado na essência e não na circunstância. Não posso dizer que tenha capacidade para fazer uma crítica objetiva seja do que for. O meu julgamento está constantemente toldado pela emoção, contaminado pela subjetividade do meu olhar (a minha experiência de vida, aquilo que sou, faz-me fruir as coisas de maneira diversa de qualquer outra pessoa). O meu olhar não é despido, imparcial, ele é a soma de todas as partes e aquilo que nasce, evoluiu à minha frente sob o desígnio de uma determinada leitura, é necessariamente único, só eu o posso ver, sentir, resguardar-me sob a égide da sua força, sofrer os seus tumultos.

 

Por isso, se quero falar sobre o último livro de Richard Zimler, o que aqui vos escreverei não será uma crítica. Deixo-vos o Evangelho Segundo Lázaro, segundo Sónia Pereira.

 

As religiões, para mim, sempre se encerraram numa espécie de câmara de fascínios e horrores. Desde cedo me autoproclamei imune ao toque religioso, mas uma infância totalmente evangelizada, uma meia vida vivida sob a presença constante do catolicismo teve, inequivocamente, efeitos sobre mim. Sinto repulsa pela religião, mas uma tremenda atração pela crença. Daí, quando percebi que a última obra de Richard teria como personagens centrais Lázaro (Eliezer) e Jesus (Yeshua), a vontade de ter aquele livro na mão ganhou um contorno quase místico. A antevisão do que ali estaria, de até onde Richard conseguiria levar aqueles personagens e, consequentemente, levar-me a mim, puxava-me para aquelas páginas com uma força algo sobrenatural.

 

O narrador é Lázaro e aquilo que temos pela frente é o testemunho que este vai desfiando, página após página, ao seu neto Yaphiel. Fala da sua ressurreição, um retorno da terra dos mortos promovido por Jesus, dos efeitos perversos do seu regresso à vida, das dúvidas que aquele retorno despoletou, da forte união que tinha com Jesus, que começou ainda eram os dois crianças, na perseguição e morte do amigo, no desespero da perda, na impotência implícita, mas no laço (imaginado, real?) que se manteve além-vida e na reflexão de como, cada segundo, cada milímetro da vida dos dois, Lázaro e Jesus, poderá ter-se desenrolado para alcançar um determinado fim. Nada aconteceu em vão, nenhum sussurro foi um desperdício, nenhuma dor caiu no vazio.

 

Como ponto inicial, refiro a grandeza da contextualização história. Não raras vezes, sou confrontada com romances históricos que o são de forma medíocre. Não basta referir que a história se passa em tal sítio e em tal data para o autor conseguir transportar os leitores até àqueles tempos idos. Um romance histórico exige uma enorme investigação, uma total contextualização à época, aos personagens, da mensagem que o escritor pretende passar. Este romance de Zimler é magistral nesse sector. Para além de nos trazer dois personagens que necessariamente serão familiares a quase toda a gente, esses personagens estão magnificamente envolvidos numa época, com linguagem própria, com lendas próprias, com maneiras muito específicas de se viver e ver o mundo em redor. E Zimler teve o condão de trazer aqueles cheiros, aqueles sons, aquele rebuliço de uma época, de uma região, e encerrá-los dentro das páginas deste livro.

 

Conseguiu ainda erigir uma obra que facilmente poderia decair numa visão alternativa sobre textos sagrados existentes, um novo evangelho entre outros, um olhar sobre a vida de Jesus do ponto de vista de Lázaro, transmutando-a numa história que vai muito além da religião, da crença, da existência daquele ser humano especial que terá sido Yeshua. Na minha frente, cresceu um louvor a uma amizade extrema, a uma união entre dois seres humanos que ultrapassa a união física (embora também o seja), para ser uma união metafísica, espiritual, uma missão de vida (e para além da vida) conjunta, una.

 

Refiro ainda algo que é transversal a todos os romances do autor — a capacidade de transmitir o aconchego físico, o toque. Em mim reside um conflito interno sobre o toque humano. Quero-o, mas, paradoxalmente, tenho uma certa reserva em o aceitar. Talvez por isso, desde sempre percebi, com um certo fascínio, a relação do autor com a transmissão do aconchego físico, da afeição traduzida em gestos, sem reservas. Seres que não se inibem de se tocarem, de exprimirem afeto pelo toque, sejam homens, mulheres, crianças e até animais. O calor dessa afeição transmitida transpira por entre letras e páginas e chega até mim, leitora. E é reconfortante, de uma forma primária, mas superiorizada.

 

Numa crítica no jornal Público, Helena Vasconcelos considerava esta obra de Zimler o seu romance mais completo e magistral. E realmente é-o. Sou leitora de Zimler há anos, mas ler este livro foi como a subida a uma torre mágica, altaneira, de onde se consegue vislumbrar até aos confins da terra. E se vos digo que escrevo estas linhas num certo estado de exaltação, embalada numa mística que só os melhores autores conseguem criar, não vos estou a mentir. Ainda lá estou, em Betânia, em Jerusalém,  a ouvi-los, a pressentir a grandeza encerrada em cada palavra e gesto.

 

«Pede e o teu desejo será concedido. Procura e encontrarás. Bate à porta e ela abrir-se-á para ti.» Yeshua bem Yosef

(página 15 )

 

Respondi-te no lugar onde se esconde o trovão. (página 436)

 

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Evangelho segundo Lázaro, Richard Zimler, Porto Editora

 

A evolução da edição literária de temática homossexual

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Não será novidade para ninguém o facto da censura e tabus vários condicionarem, desde sempre, a edição literária em qualquer parte do mundo. Na atualidade editorial, a censura, per se, não se apresenta diretamente como um fator de recusa de uma obra, mas sendo que esta atividade, como quase todas as outras, obedece cada vez mais às leis do mercado, toda a obra editada passará sempre por um crivo censor, mais não seja o crivo da vontade das massas.

 

Dito isto, olhando para os livros que aqui tinha em casa dentro da temática da homossexualidade, dei por mim a imaginar as diversas mudanças que este tipo de edição sofreu ao longo das décadas, as batalhas pessoais dos autores até verem (ou não) as suas obras nos escaparates das livrarias, as humilhações a que foram sujeitos à conta daquela obra específica, ou a chegada à banalização da temática.

 

Em 1914, E. M. Foster completou a obra Maurice, mas esta apenas «viu a luz do dia» em 1971, um ano após a morte do autor. A temática da obra condicionou a sua publicação durante décadas. O romance conta a história de Maurice, um jovem da alta burguesia inglesa, na descoberta e aceitação da sua homossexualidade. Movendo-se em meios sociais e familiares conservadores, o protagonista vive entre a opressão e a tentativa de consumação daquilo que é a sua natureza, confrontado com uma paixão esquiva que acaba frustrada. Apesar de algumas discrepâncias entre as biografias de Foster e o personagem Maurice, há quem creia que Maurice se apresenta como uma espécie de alter-ego do autor, uma personagem biográfica que reflete os dilemas do próprio escritor, embora com um final de história díspar da experiência pessoal de Foster.

Não tendo consultado nenhuma obra biográfica sobre Foster, li na Wikipédia (tendo isso a fiabilidade possível), que E. M. Foster acabaria por deixar de escrever (Maurice foi o seu penúltimo romance), por considerar impossível continuar a tecer tramas de casais heterossexuais nos seus romances, quando a sua vontade seria explorar temáticas com as quais sentisse maior identificação.

A edição que tenho desta obra de E. M. Foster é da Edições Cotovia, de 1989.

 

Avançando pelo século XX adentro, chegamos ao ano de 1955, ano em que o romance Os anjos maus de Éric Jourdan vai ao prelo. O autor, que tinha na altura da publicação apenas 16 anos, vê a obra ser imediatamente censurada após a publicação e vê-se confrontado com ameaças de morte e de prisão. A esta última só escapou por ser ainda menor na altura das acusações.

O romance, que descreve uma fulgurante paixão adolescente entre Pierre e Gerard, teve, durante anos, uma vida literária clandestina, pois a censura continuou a sua perseguição pelas décadas que se seguiram.

O que há de mais belo neste romance é o fulgor típico de um olhar adolescente. Pode-se olhar para esta obra e acusá-la de ter algumas limitações literárias, de ser excessiva, descomedida e algo histriónica, mas, paralelamente a essas «deficiências» literárias, têm um arrebatamento que apenas um cérebro adolescente poderia conceber. Um autor, por mais capaz que seja, vê-se sempre condicionado pelo passar do tempo, pelos balizamentos próprios de quem envelhece e se vê confrontado com uma certa normalização da maneira de se olhar o mundo. Este olhar jovem, púbere, tem uma força desmedida, brutal mesmo e é esse fulgor que trespassa cada palavra desta narrativa e a torna tão excecional. A minha edição é da editora Bico de Pena, de 2009.

 

Era o ano de 1996 quando dei de caras com o livro Não digas a ninguém, do escritor peruano Jaime Bayly, na livraria Bertrand em Lisboa. Tínhamos chegado à década onde já não havia vergonha de ter um livro daquele «género» exposto nas livrarias e com dezenas de exemplares para venda. Comprei e li. Não recordo especialmente a trama do livro, mas retenho em mente a sensação de uma leitura desinibida, divertida, mas simultaneamente a funcionar como um alerta de consciência. O livro retrata a vida de um jovem homossexual oriundo de um estrato social privilegiado e o seu sequente enredar no mundo da droga e prostituição.

Ao contrário dos livros anteriores que, em edições antigas ou mais atuais, aparecem como edições destinadas a um nicho específico e pequeno do mercado editorial, a edição deste último livro foi de uma editora de considerável dimensão na altura, e com expressão aceitável no que diz respeito à distribuição e representatividade nas livrarias. A editora da edição que tenho é a Editorial Notícias, edição de 1996.

 

Para finalizar, ressalvo o livro Acabar com Eddy Bellegueule, do autor francês Édouard Louis. O livro é autobiográfico e fala da vida de Eddy numa família disfuncional, num meio rural, onde a discriminação, a violência verbal e física eram parte integrante do dia a dia. O livro é o percurso de fuga de Eddy dessa realidade castradora para uma realidade onde se pudesse afirmar e ganhar distância sobre aquele nicho social e familiar onde não encaixava. Escrito aos 19 anos por Édouard Louis, o livro apresenta-se como uma espécie de encerrar de uma vida que ficou para trás e o início de uma nova etapa onde o autor pode viver a sua verdadeira identidade em plenitude.

Para além desse olhar pessoal, intimista sobre o percurso de vida de Eddy, é possível vislumbrar uma franja social francesa que passa despercebida ao público em geral, e que, apesar de certas conquistas sociais, culturais e económicas, ainda permanece submergida em certos valores conservadores, de extrema violência, penalizando fortemente quem se desvia das regras estabelecidas.

A edição desta obra é da Fumo editora, de 2014.

 

Como nota final, deixo apenas um pequeno apontamento. Os anos avançaram e no mundo ocidental não temos autores a serem acusados ou ameaçados de morte por escreverem e publicarem livros de teor homossexual. Facilmente será possível adquirir uma destas obras ou uma outra que se enquadre dentro desta temática. No entanto, com o advento da internet e de novos paradigmas da edição editorial, denoto que a maioria das obras publicadas em Portugal em que o personagem principal é homossexual ou em que a temática geral versa a homossexualidade continuam a ser edições de pequenas editoras ou editoras de nicho, editoras com edições em print-on-demand ou em eBook. As grandes casas editoriais não fazem da temática um assunto preferencial com interesse de mercado.

O Evangelho segundo Lázaro — Richard Zimler

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O Evangelho segundo Lázaro, Richard Zimler, Porto Editora (fotografia retirada do site da Porto Ediora)

 

A propósito do lançamento do livro O Evangelho segundo Lázaro de Richard Zimler, decidi falar sobre o livro, apesar de ainda não o ter ligo. Alguns críticos talvez façam algo do género, lendo obliquamente a obra que pretendem criticar, cedendo à amizade ou proximidade com o autor ou fazendo uma suave concessão aos seus ódios de estimação. No entanto, o que farei não será uma crítica, mas um elogio ao autor do livro em questão. Irei revisitar as minhas leituras da sua obra, fazer uma pequena viagem à década em que me acompanhou com as suas palavras.

 

Há muitos anos (caminho para velha, é verdade), vi na televisão uma entrevista a Richard Zimler. Já tinha ouvido falar nele, mas ainda não tinha lido nenhum dos seus livros. Algo naquela entrevista intimista me impulsionou a procurar a sua obra numa ida futura à livraria. Na altura comprei o que era o romance mais conhecido do autor — O último cabalista de Lisboa. Depois desta leitura, Lisboa não voltou a ser a mesma. Sentia os fantasmas daqueles dias de horror gravados nas pedras dos edifícios, sentia uma atmosfera de medo, perseguição, a pairar no ar que respirava. Após esta experiência literária, comprei todos os livros que o autor tinha publicado em Portugal. Lembro-me de estar na praia a ler Meia-Noite ou o Princípio do mundo e, sentada na areia, sentir uma doce familiaridade com partes do texto e há algo de absolutamente ambíguo, assustador e feliz, quando descobrimos alguém que consegue ver o mundo com os nossos próprios óculos, quando alguém distante nos parece tão próximo e familiar.

 

Recordo ainda um domingo em que passei o dia todo a ler À procura de Sana até ao ponto da minha cabeça doer. Ao ler a última página e fechar o livro, estava mergulhada numa dor que era física, mas transbordava o corpo, submergindo-me numa melancolia que não me deixava abandonar aquele mundo que se encerrava naquelas páginas. Toda eu, matéria e pensamento, estava cativa naquele outro mundo e demorou dias a partir as grilhetas, soltar-me econseguir distanciar-me.

 

Naquela altura (tal como agora), Zimler afigurava-se como um dos autores que mais apreciava. Nunca fui muito de ter coisas preferidas (livro preferido, filme preferido, música preferida, comida preferida), mas ainda assim permitia-me colocar aquele escritor na minha galeria de prediletos, onde figuravam aqueles que não exigiam explicação sensata para a leitura de um seu novo livro.

 

Numa era pré redes sociais onde a distância entre escritores e leitores era sem dúvida maior do que na atualidade, cedi a um arrojamento qualquer e enviei um email a Richard Zimler. Era uma escritora de trazer por casa (ainda o sou) e resolvi pedir-lhe alguns conselhos, sugestões e também manifestar-lhe o meu apreço pela sua obra. Para grande surpresa minha (enviei o email sem realmente contar com uma resposta), Zimler respondeu-me com um texto longo e simpático onde me deu várias sugestões, falou sobre a sua experiência pessoal como escritor e todo o caminho até à publicação. Aquele gesto de consideração para com uma sua leitora contou muito para mim e destacou-o de uns certos comportamentos de altivez e distanciamento exibidos por alguns autores na altura.

 

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente nos seus lançamentos de novos livros e pude disfrutar de um jantar com ele e mais uns quantos seus leitores. Tinha concorrido a um concurso da livraria Bertrand que dava direito aos vencedores de poderem jantar com um escritor de sua eleição. Quando me telefonaram a dizer que tinha sido selecionada, a minha reação de júbilo levou os meus colegas de escritório a pensarem que tinha ganhado um carro, uma viagem ou um prémio avultado em dinheiro.

 

E se a fruição de uma obra não tem de estar intimamente ligada à pessoa que a executou, perceber que Richard Zimler, para além de ótimo escritor, era também uma pessoa especial, um ser humano com qualidades (daquelas que se apreciam nas pessoas que nos são próximas, que queremos ter por perto), só contribuiu para que passasse a ler os seus livros com uma diferente devoção e carinho, para que tentasse ver para além das palavras impressas e conseguisse ver e compreender o homem que as escreveu.

 

Assim sendo, não sinto necessidade de fazer qualquer reflexão sobre a compra do seu novo livro. Está encomendado e é para ler mal chegue às minhas mãos, mesmo desconhecendo as críticas literárias que lhe foram feitas ou as opiniões de outros leitores que já o leram. Quando se tem um autor na nossa galeria de especiais, não há racionalidade que nos valha.

 

Prometo fazer uma verdadeira crítica quando acabar a leitura, embora seja péssima a fazer críticas. Deixo-me sempre levar pelas emoções e fico muito aquém na questão da objetividade e capacidade de síntese da obra. Mas ainda assim, tentarei.

 

Até lá, boas leituras.

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(Fotografia de Richard Zimler retirada do site www.wook.pt)

Leitura dos clássicos

Com milhares de novos livros editados anualmente no nosso país (livros de autores nacionais e estrangeiros), muitas vezes os leitores deixam-se seduzir mais facilmente pelas novidades publicadas do que pelas reedições dos clássicos da literatura. No meu caso, tenho sempre uma grande curiosidade de conhecer aquelas obras que perduraram na história da literatura, que são marcos literários mesmo quando passados mais de cem anos da sua publicação original.

 

Há um fascínio na descoberta de personagens complexas, narrativas que relevam pensamentos, pontos de vista de uma atualidade desarmante, mesmo quando o cenário, o contexto histórico é tão diferente do atual.

 

Contudo, há sempre uma obra que aguardamos ler com alguma impaciência e que após a sua leitura se releva aquém das nossas expectativas iniciais. Embora o contrário também possa acontecer. Encetar uma leitura porque se trata de um autor que achava que deveria ler e aquele livro revelar-se a porta de entrada para um universo autoral que não vou querer largar.

 

Relativamente à primeira situação, acabei há pouco o livro A Condição Humana de Malraux. Há já algum tempo que o tinha na minha lista de leituras futuras e assim acabei por o comprar e ler. As várias críticas que tinha lido sobre esta obra criaram uma expectativa na minha leitura que levou a que me sentisse, quase desde o início, defraudada. Pensando na questão geral da condição humana, nas condicionantes que nos diferenciam de todos os outros animais e nos tornam nisto, em pessoas, vi-me remetida para uma outra obra, também ela vencedora do prémio Concourt (tal como aconteceu com A Condição Humana), mas que, a meu ver, tem um efeito mais inquietante no leitor. Essa obra é As benevolentes, de que também já falei aqui no blog. E talvez seja disso que senti falta, de uma certa inquietude, que apesar de estar lá, não conseguiu atingir-me com a força que julgava necessária. Apesar de ser uma obra muito bem escrita, talvez o autor tenha usado de uma maior crueza, quase abstração, ao invés de optar por uma estratégia de maior impacto emocional, de distúrbio do leitor. A parte final do livro torna-se mais interessante, mas mesmo assim não chegou para que tenha nesta leitura uma leitura memorável, persistente no tempo.

 

Claro que esta deceção chega-me com uns certos laivos de culpa. Penso para mim que com toda a certeza não cheguei ao âmago daquele livro, não consegui captar as verdadeiras intenções do autor, ainda não tenho competências para absorver corretamente este tipo de leitura.

 

Assim, talvez faça uma releitura de Malraux daqui uns anos e talvez, o que me falta agora para ver o aclamado esplendor da obra, se me entranhe entretanto.

 

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A condição humana de André Malraux — Edição Livros do Brasil.

Edição original da obra em 1933.

 

A depressão dos tops de vendas

Quando passo os olhos pelo top de vendas da FNAC e WOOK fico sempre com sintomas depressivos. Desta vez, nem a presença de Elena Ferrante e Mario Vargas Llosa atenuou esses sinais incómodos, pois aqueles três desgraçados pareciam rir-se na minha cara, em jeito de gozo e até me pareceu ouvi-los dizer: «Viemos para o top e é para ficar, minha cara. Habitua-te. Aguenta-te à bomboca».  

 

O JRS, num dos tops 10, tinha direito a dois livros e não deixa de haver alguma ironia no sucesso deste «escritor». Um homem que diz que escreve pois não há nenhum livro que gostasse de ler (nem um, centenas de anos de literatura e nada, aos olhos deste homem não se aproveita nadinha de nada), tem milhares de leitores que o compram e o leem. Só gostava que todos os seus leitores fossem como ele, mais adeptos da escrita do que da leitura.

 

Sobre JRS fica-me ainda uma dúvida: se não há nenhum livro que gostasse de ler, será que nunca leu nenhum livro na vida à exceção dos escritos por ele próprio? Ou tudo o que leu foi a contragosto? E como raio faz ele as tais «investigações» com resultados fascinantes, autênticas descobertas que revolucionam a história da humanidade sem ler absolutamente nada? Ou será que só lê os artigos manhosos da wikipédia? A dúvida não me deixará dormir.

 

Lá pelo meio estava o maior guru da auto-ajuda do nosso país. Um homem que diz sem rodeios que a culpa de alguém ser vítima de violência não é do agressor, do violador, mas… (wait for it) da própria vítima. Alguém que adora trocadilhos com as palavras, mas trocadilhos que são apenas parvos, carecendo de qualquer sentido — a mente chama-se mente porque nos mente. (Neste momento cheguei a sentir um pequenino impulso suicida. Inspira, expira. Já passou.)

 

Não deixa de me surpreender a correlação direta entre o aumento de baboseiras proferidas pelo Gustava Santos e o aumento de livros vendidos e o aumento de likes na sua página do Fecebook.

 

Para último, fica o eterno morador dos tops nacionais, o Pedro Frases Feitas (peço desculpa roubar este delicioso termo sem dar direitos de autor ao criador, mas não sei quem foi).

 

Tenho no entanto de dar a mão à palmatória. Ele é definitivamente mais honesto que a maioria das figuras públicas da nossa praça. O homem promete falhar e falha, ele promete perder e perde. Pedro Chagas Freitas é, para mim, um fenómeno, mas não literário. De marketing. O percurso dele deveria ser usado como caso de estudo na área da comunicação e marketing porque não deixa de ser fascinante a forma como conseguiu desbravar terreno até chegar onde chegou — morador dos tops de vendas, figura com mais frases e textos lamechas partilhados nas redes sociais, autor adorado por milhares de leitores.

 

Este artigo da revista Sábado ilustra bem o autor e o seu percurso e, se eu pudesse, fazia uma cópia e enviava-a a todos os leitores do Frases Feitas. Um presente do fundo do coração.

 

Com isto concluo que o melhor para mim é manter-me na ignorância, evitar consultar os tops de vendas das livrarias, pois a depressão sai cara e não me apetece gastar dinheiro em medicamentos.

Sonhos estranhos

É raro recordar, ao acordar, os sonhos que tive durante o sono. Num ano, chegarão à claridade do dia apenas duas ou três lembranças das minhas andanças oníricas. As exceções que permanecem em memória costumam estar ligadas a situações extremas, terríficas, que continuam a ecoar mesmo depois do despertar. Um dos sonhos que mais me marcou foi o de perder o meu filho num passeio normal de sábado de manhã pelo centro da minha vila. Um outro que também sobreviveu ao acordar foi o da fuga aterradora num cenário de guerra, em que o medo de ser capturada, o medo da tortura e da morte continuaram a latejar em mim horas depois de acordar sobressaltada.

 

Em suma, a banalidade ou até mesmo a excentricidade, se não estiver associada ao medo, ao terror, não tem o poder de sobreviver fora do sono, não consegue permanecer para memória futura.

 

Mas mesmo dentro da exceção da memória, há exceções da categoria que se recorda e hoje acordei «enfiada» dentro de um sonho que nada tinha de terrífico, era apenas de uma trivialidade estranha.

 

Estava num comboio, sentada ao lado do escritor João Ricardo Pedro e conversávamos. Não sei qual a razão do meu cérebro sonhador ter escolhido este escritor e não outro. Não comprei o último livro dele, não li qualquer entrevista dele ou artigo sobre o seu último livro, a leitura do seu primeiro livro já tem anos, por isso esta escolha de co-protagonista onírico não tem uma explicação lógica.

 

A dada altura, ele pede-me o telemóvel para poder aceder à internet e consultar os emails. Emprestei-lho, embora agora, acordada, me pergunte qual a razão do moço não ter um telemóvel próprio e ter de cravar um aparelho a uma pessoa que mal conhece. Explicou que aguardava um email da editora sobre um projeto. E aí, nas suas mãos, aparece uma catrefada de papelada que prontamente decide mostrar-me. Texto e várias fotografias de carros de rally e de Formula 1. Tentei demonstrar um genuíno interesse, embora o desporto automóvel não seja bem a minha praia, mas não pretendia ferir os sentimentos do meu entusiasmado interlocutor.

 

No entanto, todo aquele interesse pela exposição do seu manuscrito rapidamente desvaneceu quando João vislumbrou, num acento mais atrás, alguém conhecido. Levantou-se sem explicações e foi sentar-se junto a uma mulher. Estava eu ainda um pouco confusa com aquele abandono súbito, quando uma outra mulher se senta junto a mim, uma mulher loura bem bonita, cheia de secretismos, que me deu a entender que João escondia algo, estava metido em alguma alhada. Aqui, quando o enredo parecia adensar-se e aquela viagem de comboio tinha potencial para se transformar numa aventura policial onde teria honras de protagonista, fui acordada pelo meu marido. Eram horas de me levantar para a rotina de um novo dia.

 

A primeira coisa que me veio à cabeça, ao despertar, foi que João Ricardo Pedro não tinha chegado a devolver-me o telemóvel antes de me trocar por uma outra companheira de viagem. Só depois deste pensamento é que emergiu a estranheza da escolha aleatória dos personagens daquele sonho.

 

Depois da experiência onírica desta noite, aviso-vos: nunca emprestem um telemóvel a João Ricardo Pedro num dos vossos sonhos. Ele fica-vos com ele. E tentem sonhar o sonho completo antes de ser horas de saltar da cama. Isto de ficar com o sonho pelo meio, quando aquele será um dos poucos espécimes recordados nesse ano, é uma grande chatice.  

 

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Fotografia de João Ricardo Pedro retirada do site www. wook.pt

Postal de Detroit é o mais recente livro do autor

 

Autores personagens

Num curto espaço de tempo, li dois livros nos quais os seus autores figuravam como personagens. Não foi uma escolha de leitura consciente, orientada para essa faceta da personagem/autor, e foi com surpresa que descobri o uso desse artifício no caso de um dos livros e com um certo choque, no caso do outro.

 

Em Dinheiro, de Martin Amis (um livro com edição original inglesa de 1984), Martin Amis aparece a dada altura como personagem na narrativa. O personagem principal do livro, John Self, encontra por vezes, nas ruas do bairro onde vive, aquele escritor estranho, introvertido, metido no seu mundo e quando necessita de que o guião do seu próximo filme seja reescrito, lembra-se de abordar o escritor que já conhecia das rua ou de alguma tasca de fast-food, para que seja ele o autor da nova versão cinematográfica. Martin Amis não se inibe de se caracterizar de forma pouco abonatória, desenhando o seu personagem como alguém que vive de forma desinteressada pelo mundo material que o rodeia, fixado na escrita e na leitura, com rotinas diárias pré-definidas e, de certa forma, alheado de tudo o resto que passe à margem do seu mundo pessoal

 

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Dinheiro, Martin Amis, editora Quetzal, tradução de Jorge Pereirinha Pires

 

Em O mapa e o território, de Michel Houellebecq, o autor também aparece como personagem mas com um impacto na narrativa de longe superior ao de Martin Amis em Dinheiro.

 

Jed Martin, o personagem principal de O mapa e o território, é um artista que inicia a sua carreira como fotógrafo, ganhando notoriedade através das fotografias artísticas que fez de secções selecionadas de mapas das estradas Michelin. Posteriormente deixou a fotografia e dedicou-se à pintura e os seus quadros onde retratava personalidades conhecidas, após uma exposição e divulgação nos meios de comunicação, adquiriram celebridade tal, que o autor conseguiu embolsar uma soma considerável com as vendas e um lugar de destaque no mundo artístico.

 

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O mapa e o Território, Michel Houellebecq, editora Alfaguara, tradução de Pedro Tamen

 

Uma das personalidades que Jed decide retratar num dos seus quadros é precisamente Michel Houellebecq, convidando-o ainda para escrever o prefácio do catálogo de apresentação da exposição.

 

Esta decisão de pintar Michel aproxima os dois personagens, o pintor e o escritor, permitindo ao leitor mergulhar na vida algo esquizofrénica de Houellebecq. Michel Houellebecq não tem qualquer pudor em se mostrar como alguém que bebe demais, fuma compulsivamente, pouco dado à higiene pessoal e da casa, com picos de humor que o levam a ter uma atitude positiva sobre a vida, a dedicar-se à escrita ou, em contraste, abandonar-se à solidão, ao não fazer nada, ao álcool. Descreve-se ainda como alguém indiferente aos laços pessoais, alguém capaz de ignorar a existência de um filho, que mantém relacionamentos com mulheres que oscilam entre os meramente físicos ou os quase paternais, alguém fixado numa série de perversões, um ser misantropo, misógino — em suma, um ser humano que, extraindo as suas capacidades como escritor, pensador, a sua genialidade intelectual, é medíocre como pessoa, facilmente esquecível, um zé-ninguém.

Michel Houellebecq já demonstrara anteriormente esta desinibição em se expor, mesmo que essa exposição o retrate como um ser esquisito, fisicamente repulsivo, um homem sem qualidades. No filme O rapto de Michel Houellebecq, Michel desempenha o papel de si próprio, o autor que foi raptado por uns meliantes amadores e levado para uma casa na província, conseguindo, contudo, travar amizade com os raptores e passar um bom bocado na sua companhia.

 

Relativamente a O mapa e o território, Houellebecq consegue, no entanto, levar a opção do uso de si próprio como personagem ficcional a um patamar mais extremo do que Martin Amis em Dinheiro, matando a sua personagem através de um assassinato macabro, onde também o seu cão perece às mãos de um psicopata que acaba por subtrair o quadro (oferecido pelo pintor a Houellebecq) onde está retratado. Após o cenário horrendo do palco do homicídio ser descrito pormenorizadamente, temos a divulgação da notícia da morte que choca mais os fãs do autor do que qualquer pessoa do seu relacionamento pessoal (se é que tal coisa, na verdadeira aceção do termo, existiu na sua vida), e somos levados ao funeral do autor, cerimónia triste pelo nada a que é reduzida.

 

Este exercício de especulação do escritor sobre a sua própria morte, sobre a forma como os outros o apreendem, sobre a significância da sua existência, foram, para mim, de uma grande tristeza (somos ensinados desde pequenos sobre a importância do eu social, dos relacionamentos, da sua preponderância sobre a importância da nossa existência), mas, paradoxalmente, mostraram-me alguém despido de circunstancialismos, alguém que vive para aquilo que quer, sem condicionalismos exteriores, alguém capaz de rir de si próprio e das suas figuras tristes, dos seus pensamentos perversos, oblíquos.

 

Dois livros diferentes, mas ambos interessantes. Se em Dinheiro, o facto do uso do personagem de Amis não ser preponderante para o interesse do livro, sendo este uma espécie de análise sobre a voracidade do dinheiro, dos esquemas de poder e corrupção e depravação promovidos pelo mesmo, em o livro O mapa e o território, Michel Houellebecq é essencial à natureza do livro, de uma forma enviesada quase narcisista. Embora sejam livros completamente diferentes, ambos têm como ponto central a sociedade atual, a forma como esta tem vindo a evoluir, os contornos absurdos que tem vindo a adquirir e o papel individual/coletivo que cada ser humano ocupa nesta teia ilógica cada vez mais densa.

Noam Chomsky — Mudar o mundo

Neste livro estão reunidas várias conversas entre Noam Chomsky e David Barsamian sobre temas fundamentais do século XXI. Chomsky, linguista, filósofo, faz uma análise séria e relevante sobre o futuro da democracia, sobre jogos de poder e guerra de países como os E.U.A., sobre a evolução da extrema-direita, sobre a deterioração da educação pública e  a segurança social, assim como o novo ativismo político e social como o Occupy Wall Street, passando ainda pelos novos sistemas de propaganda com roupagens modernas de Marketing.

 

 

O poder privado não gosta da educação pública, por vários motivos. Um é o princípio no qual se baseia, que é ameaçador para o poder. A educação pública fundamenta-se num princípio de solidariedade. […] Isso é contrário à doutrina de que devemos simplesmente cuidar de nós mesmos e deixar que todos os outros se danem, um princípio básico das regras empresariais. A educação pública é uma ameaça a esse sistema de crenças porque pressupões um sentido de solidariedade, de comunidade, de apoio mútuo.

[…] Mas a educação pública e a Segurança Social são resíduos de uma conceção perigosa de que estamos todos no mesmo barco e que temos de colaborar para criar melhores condições de vida e um futuro melhor. Quando se está a tentar maximizar os lucros ou o consumo, a colaboração passa a ideia errada. Tem de ser escorraçada da mente das pessoas.

A solidariedade dificulta o controlo das pessoas e impede-as de serem objetos passivos do poder privado. Por isso é necessário ter um sistema de propaganda que anule quaisquer desvios ao princípio da subjugação aos sistemas de poder.

Noam Chomsky, Mudar o mundo, Pág. 45

 

 

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Mudar o mundo — Noam Chomsky, Bertrand Editora

 

 

 

Os quatro livros da mulher

 

Em 1909 começam a ser editadas em Portugal as traduções da tetralogia de Paul Combes, com o título geral de Os quatro livros da mulher e durante quase cinquenta anos os quatro livros que compõem esta obra são reeditados por diversas editoras portuguesas. O livro da esposa, O livro da mãe, O livro da Educadora e O livro da dona-de-casa são obras que pretendem modelar a mulher nas únicas quatro facetas que lhe estavam socialmente disponíveis — esposa, mãe, educadora (dos próprios filhos) e dona-de-casa.

 

Se noutros países da Europa e além Atlântico, nos E.U.A., a luta pela emancipação feminina era já um fenómeno expressivo desde o início do Seculo XX e que tinha eco nas publicações editoriais dirigidas às mulheres, por cá, em Portugal, alguns livros de carácter emancipatório tiveram ainda a oportunidade de chegar ao prelo, mas após a constituição do Estado Novo, em 1933, as publicações dirigidas às mulheres resumiam-se a edições redundantes de carácter formativo, que tentavam colocar a mulher no local que Estado e sociedade da época lhe achavam devido — o lar, como dona de casa, esposa e mãe.

 

Assim, apesar de Paul Combes ter escrito uma obra em finais do século XIX, inícios do século XX, que poderia ser considerada desatualizada, fundamentalista e sexista, chegando aos anos de 1950, esta obra ainda era publicada no nosso país, formatando as mulheres da época, reduzindo-as a um papel secundário, subalterno e subordinado ao papel masculino na sociedade da época. Mas Combes não estava sozinho, foram centenas os livros publicados, com diversas reedições, maioritariamente de autoras portuguesas, que funcionavam como manuais de boa conduta, gestão doméstica e educação feminina.

 

Pelos anos de 40 e 50 do século XX, no que diz respeito à publicação de autores estrangeiros nesta área específica da edição dirigida a leitoras do sexo feminino, os que permaneciam reeditados eram aqueles cujas obras tinham edição original mais antiga (edições originais entre 1890 e 1910). Com as mudanças que surgiam internacionalmente, eram escassas as novas obras de índole conservadora publicadas por autores estrangeiros. Orgulhosamente sós, as edições dirigidas às mulheres tentavam a todo o custo manter a mulher portuguesa refugiada num passado conservador, tradicional, onde o lar tinha de chegar para cumprir os seus sonhos e expetativas de vida.

 

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Os Quatro Livros da Mulher, Paul Combes, Editora Educação Nacional

 

 

Mais do que nunca chegou a hora de as educadoras cristãs velarem pelos seus filhos, reagindo contra as modernas tendências tão funestas.

Pág. 125, Paul Combes – O livro da Educadora. Editora Educação Nacional, 1948, 4ª Edição

 

É que o dever – que chamaremos essência – da dona de casa não é trabalhando na vida exterior, por mais nobres e louváveis que apreçam as obras. O seu primeiro dever é a organização, a direção do lar familiar.

Pág. 129 O livro da dona de Casa – Paul Combes, 1934, 4ª edição

 

O mérito da mulher é governar a sua casa, fazer feliz o seu marido, consola-lo, alentá-lo, e educar os seus filhos, isto é, fazer deles homens.

Pág. 10, Paul Combes, O livro da mãe

 

As leis gerais da natureza – confirmadas pelas leis divinas, por meio da Revelação, e pelas leis humanas – assinalam à mulher a missão de companheira do homem.

Pág. 2, O livro da esposa, Paul Combes

 

Jo Nesbø e a leitura compulsiva

Os romances policiais, considerados por alguns críticos como um género literário menor, têm, no entanto, conseguido adquirir um lugar de relevo no mercado editorial nacional e internacional. Dos países nórdicos, impulsionados pelo estrondoso sucesso de Stieg Larsson, chegam-nos nomes como Mons Kallentoft, Camilla Läckberg, Åsa Larsson, Lars Kepler e Jo Nesbø, entre outros. Também os islandeses têm alguns autores em destaque neste género, como por exemplo Arnaldur Indridason ou Yrsa Sigurdardóttir.

 

Todavia, de entre todos estes autores, no campo do romance policial Nesbø é a minha adicção literária. Acompanho-o desde o primeiro livro lançado em Portugal, O pássaro de peito vermelho, e desde essa altura sou uma fiel leitora deste norueguês. Se com outros livros é possível levar a leitura de uma forma faseada, dedicando um par de horas por dia, o diabo do Nesbø não me permite tal coisa. Consigo compreender as estratégias usadas para prender o leitor, um rol de manipulações que durante centenas de páginas, ajudadas por cortes estratégicos de capítulos, nos levam em direções erradas, criando suspeições infundadas, tudo para que o desenlace final seja surpreendente e pouco previsível. Mas mesmo compreendendo que estou a ser ludibriada, não consigo parar de ler e sou menina para despachar um livro de seiscentas páginas em dois ou três dias, levando a leitura a adquirir uns contornos um pouco doentios. Parte do meu fascínio prende-se não só com as estratégias narrativas manipuladoras, mas também com a análise constante da natureza humana, onde convivem polícias alcoólicos, assassinos sem escrúpulos que se confundem com pessoas ditas normais, onde o poder da corrupção e o poder da ambição transformam personagens e onde um filho pode ser um carrasco.

 

No último livro que li do Nesbø, O fantasma, cheguei à última página com uma imensa sensação de perda. Aquele personagem, Harry Hole, que tantas horas de sono me tinha roubado, tanta atenção do meu mundo quotidiano tinha desviado, estava para ali, cravado de balas, como morto. Juro que fiquei umas quantas horas meia apalermada até ter tido a brilhante ideia de usufruir da maravilhosa invenção do mundo moderno — a internet. Teria Hole realmente morrido, seria este o último livro da saga Harry Hole? Depois de uma breve pesquisa, percebi que deveria ser a única leitora de Nesbø que se mantivera na ignorância sobre este assunto até 2016.

 

Felizmente, Nesbø, o meu dealer de policiais, ainda nos presenteará com, pelo menos, mais um livro da saga Harry Hole, o livro Police (na tradução inglesa). Não sei quando chegará a tradução portuguesa, dado que antes disso será publicado a segunda obra do autor (Cockroaches, na tradução inglesa), que ainda não tinha edição portuguesa.

 

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O Fantasma, Jo Nesbø, editora D. Quixote