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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Leitura dos clássicos

Com milhares de novos livros editados anualmente no nosso país (livros de autores nacionais e estrangeiros), muitas vezes os leitores deixam-se seduzir mais facilmente pelas novidades publicadas do que pelas reedições dos clássicos da literatura. No meu caso, tenho sempre uma grande curiosidade de conhecer aquelas obras que perduraram na história da literatura, que são marcos literários mesmo quando passados mais de cem anos da sua publicação original.

 

Há um fascínio na descoberta de personagens complexas, narrativas que relevam pensamentos, pontos de vista de uma atualidade desarmante, mesmo quando o cenário, o contexto histórico é tão diferente do atual.

 

Contudo, há sempre uma obra que aguardamos ler com alguma impaciência e que após a sua leitura se releva aquém das nossas expectativas iniciais. Embora o contrário também possa acontecer. Encetar uma leitura porque se trata de um autor que achava que deveria ler e aquele livro revelar-se a porta de entrada para um universo autoral que não vou querer largar.

 

Relativamente à primeira situação, acabei há pouco o livro A Condição Humana de Malraux. Há já algum tempo que o tinha na minha lista de leituras futuras e assim acabei por o comprar e ler. As várias críticas que tinha lido sobre esta obra criaram uma expectativa na minha leitura que levou a que me sentisse, quase desde o início, defraudada. Pensando na questão geral da condição humana, nas condicionantes que nos diferenciam de todos os outros animais e nos tornam nisto, em pessoas, vi-me remetida para uma outra obra, também ela vencedora do prémio Concourt (tal como aconteceu com A Condição Humana), mas que, a meu ver, tem um efeito mais inquietante no leitor. Essa obra é As benevolentes, de que também já falei aqui no blog. E talvez seja disso que senti falta, de uma certa inquietude, que apesar de estar lá, não conseguiu atingir-me com a força que julgava necessária. Apesar de ser uma obra muito bem escrita, talvez o autor tenha usado de uma maior crueza, quase abstração, ao invés de optar por uma estratégia de maior impacto emocional, de distúrbio do leitor. A parte final do livro torna-se mais interessante, mas mesmo assim não chegou para que tenha nesta leitura uma leitura memorável, persistente no tempo.

 

Claro que esta deceção chega-me com uns certos laivos de culpa. Penso para mim que com toda a certeza não cheguei ao âmago daquele livro, não consegui captar as verdadeiras intenções do autor, ainda não tenho competências para absorver corretamente este tipo de leitura.

 

Assim, talvez faça uma releitura de Malraux daqui uns anos e talvez, o que me falta agora para ver o aclamado esplendor da obra, se me entranhe entretanto.

 

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A condição humana de André Malraux — Edição Livros do Brasil.

Edição original da obra em 1933.

 

A depressão dos tops de vendas

Quando passo os olhos pelo top de vendas da FNAC e WOOK fico sempre com sintomas depressivos. Desta vez, nem a presença de Elena Ferrante e Mario Vargas Llosa atenuou esses sinais incómodos, pois aqueles três desgraçados pareciam rir-se na minha cara, em jeito de gozo e até me pareceu ouvi-los dizer: «Viemos para o top e é para ficar, minha cara. Habitua-te. Aguenta-te à bomboca».  

 

O JRS, num dos tops 10, tinha direito a dois livros e não deixa de haver alguma ironia no sucesso deste «escritor». Um homem que diz que escreve pois não há nenhum livro que gostasse de ler (nem um, centenas de anos de literatura e nada, aos olhos deste homem não se aproveita nadinha de nada), tem milhares de leitores que o compram e o leem. Só gostava que todos os seus leitores fossem como ele, mais adeptos da escrita do que da leitura.

 

Sobre JRS fica-me ainda uma dúvida: se não há nenhum livro que gostasse de ler, será que nunca leu nenhum livro na vida à exceção dos escritos por ele próprio? Ou tudo o que leu foi a contragosto? E como raio faz ele as tais «investigações» com resultados fascinantes, autênticas descobertas que revolucionam a história da humanidade sem ler absolutamente nada? Ou será que só lê os artigos manhosos da wikipédia? A dúvida não me deixará dormir.

 

Lá pelo meio estava o maior guru da auto-ajuda do nosso país. Um homem que diz sem rodeios que a culpa de alguém ser vítima de violência não é do agressor, do violador, mas… (wait for it) da própria vítima. Alguém que adora trocadilhos com as palavras, mas trocadilhos que são apenas parvos, carecendo de qualquer sentido — a mente chama-se mente porque nos mente. (Neste momento cheguei a sentir um pequenino impulso suicida. Inspira, expira. Já passou.)

 

Não deixa de me surpreender a correlação direta entre o aumento de baboseiras proferidas pelo Gustava Santos e o aumento de livros vendidos e o aumento de likes na sua página do Fecebook.

 

Para último, fica o eterno morador dos tops nacionais, o Pedro Frases Feitas (peço desculpa roubar este delicioso termo sem dar direitos de autor ao criador, mas não sei quem foi).

 

Tenho no entanto de dar a mão à palmatória. Ele é definitivamente mais honesto que a maioria das figuras públicas da nossa praça. O homem promete falhar e falha, ele promete perder e perde. Pedro Chagas Freitas é, para mim, um fenómeno, mas não literário. De marketing. O percurso dele deveria ser usado como caso de estudo na área da comunicação e marketing porque não deixa de ser fascinante a forma como conseguiu desbravar terreno até chegar onde chegou — morador dos tops de vendas, figura com mais frases e textos lamechas partilhados nas redes sociais, autor adorado por milhares de leitores.

 

Este artigo da revista Sábado ilustra bem o autor e o seu percurso e, se eu pudesse, fazia uma cópia e enviava-a a todos os leitores do Frases Feitas. Um presente do fundo do coração.

 

Com isto concluo que o melhor para mim é manter-me na ignorância, evitar consultar os tops de vendas das livrarias, pois a depressão sai cara e não me apetece gastar dinheiro em medicamentos.

Sonhos estranhos

É raro recordar, ao acordar, os sonhos que tive durante o sono. Num ano, chegarão à claridade do dia apenas duas ou três lembranças das minhas andanças oníricas. As exceções que permanecem em memória costumam estar ligadas a situações extremas, terríficas, que continuam a ecoar mesmo depois do despertar. Um dos sonhos que mais me marcou foi o de perder o meu filho num passeio normal de sábado de manhã pelo centro da minha vila. Um outro que também sobreviveu ao acordar foi o da fuga aterradora num cenário de guerra, em que o medo de ser capturada, o medo da tortura e da morte continuaram a latejar em mim horas depois de acordar sobressaltada.

 

Em suma, a banalidade ou até mesmo a excentricidade, se não estiver associada ao medo, ao terror, não tem o poder de sobreviver fora do sono, não consegue permanecer para memória futura.

 

Mas mesmo dentro da exceção da memória, há exceções da categoria que se recorda e hoje acordei «enfiada» dentro de um sonho que nada tinha de terrífico, era apenas de uma trivialidade estranha.

 

Estava num comboio, sentada ao lado do escritor João Ricardo Pedro e conversávamos. Não sei qual a razão do meu cérebro sonhador ter escolhido este escritor e não outro. Não comprei o último livro dele, não li qualquer entrevista dele ou artigo sobre o seu último livro, a leitura do seu primeiro livro já tem anos, por isso esta escolha de co-protagonista onírico não tem uma explicação lógica.

 

A dada altura, ele pede-me o telemóvel para poder aceder à internet e consultar os emails. Emprestei-lho, embora agora, acordada, me pergunte qual a razão do moço não ter um telemóvel próprio e ter de cravar um aparelho a uma pessoa que mal conhece. Explicou que aguardava um email da editora sobre um projeto. E aí, nas suas mãos, aparece uma catrefada de papelada que prontamente decide mostrar-me. Texto e várias fotografias de carros de rally e de Formula 1. Tentei demonstrar um genuíno interesse, embora o desporto automóvel não seja bem a minha praia, mas não pretendia ferir os sentimentos do meu entusiasmado interlocutor.

 

No entanto, todo aquele interesse pela exposição do seu manuscrito rapidamente desvaneceu quando João vislumbrou, num acento mais atrás, alguém conhecido. Levantou-se sem explicações e foi sentar-se junto a uma mulher. Estava eu ainda um pouco confusa com aquele abandono súbito, quando uma outra mulher se senta junto a mim, uma mulher loura bem bonita, cheia de secretismos, que me deu a entender que João escondia algo, estava metido em alguma alhada. Aqui, quando o enredo parecia adensar-se e aquela viagem de comboio tinha potencial para se transformar numa aventura policial onde teria honras de protagonista, fui acordada pelo meu marido. Eram horas de me levantar para a rotina de um novo dia.

 

A primeira coisa que me veio à cabeça, ao despertar, foi que João Ricardo Pedro não tinha chegado a devolver-me o telemóvel antes de me trocar por uma outra companheira de viagem. Só depois deste pensamento é que emergiu a estranheza da escolha aleatória dos personagens daquele sonho.

 

Depois da experiência onírica desta noite, aviso-vos: nunca emprestem um telemóvel a João Ricardo Pedro num dos vossos sonhos. Ele fica-vos com ele. E tentem sonhar o sonho completo antes de ser horas de saltar da cama. Isto de ficar com o sonho pelo meio, quando aquele será um dos poucos espécimes recordados nesse ano, é uma grande chatice.  

 

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Fotografia de João Ricardo Pedro retirada do site www. wook.pt

Postal de Detroit é o mais recente livro do autor

 

Autores personagens

Num curto espaço de tempo, li dois livros nos quais os seus autores figuravam como personagens. Não foi uma escolha de leitura consciente, orientada para essa faceta da personagem/autor, e foi com surpresa que descobri o uso desse artifício no caso de um dos livros e com um certo choque, no caso do outro.

 

Em Dinheiro, de Martin Amis (um livro com edição original inglesa de 1984), Martin Amis aparece a dada altura como personagem na narrativa. O personagem principal do livro, John Self, encontra por vezes, nas ruas do bairro onde vive, aquele escritor estranho, introvertido, metido no seu mundo e quando necessita de que o guião do seu próximo filme seja reescrito, lembra-se de abordar o escritor que já conhecia das rua ou de alguma tasca de fast-food, para que seja ele o autor da nova versão cinematográfica. Martin Amis não se inibe de se caracterizar de forma pouco abonatória, desenhando o seu personagem como alguém que vive de forma desinteressada pelo mundo material que o rodeia, fixado na escrita e na leitura, com rotinas diárias pré-definidas e, de certa forma, alheado de tudo o resto que passe à margem do seu mundo pessoal

 

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Dinheiro, Martin Amis, editora Quetzal, tradução de Jorge Pereirinha Pires

 

Em O mapa e o território, de Michel Houellebecq, o autor também aparece como personagem mas com um impacto na narrativa de longe superior ao de Martin Amis em Dinheiro.

 

Jed Martin, o personagem principal de O mapa e o território, é um artista que inicia a sua carreira como fotógrafo, ganhando notoriedade através das fotografias artísticas que fez de secções selecionadas de mapas das estradas Michelin. Posteriormente deixou a fotografia e dedicou-se à pintura e os seus quadros onde retratava personalidades conhecidas, após uma exposição e divulgação nos meios de comunicação, adquiriram celebridade tal, que o autor conseguiu embolsar uma soma considerável com as vendas e um lugar de destaque no mundo artístico.

 

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O mapa e o Território, Michel Houellebecq, editora Alfaguara, tradução de Pedro Tamen

 

Uma das personalidades que Jed decide retratar num dos seus quadros é precisamente Michel Houellebecq, convidando-o ainda para escrever o prefácio do catálogo de apresentação da exposição.

 

Esta decisão de pintar Michel aproxima os dois personagens, o pintor e o escritor, permitindo ao leitor mergulhar na vida algo esquizofrénica de Houellebecq. Michel Houellebecq não tem qualquer pudor em se mostrar como alguém que bebe demais, fuma compulsivamente, pouco dado à higiene pessoal e da casa, com picos de humor que o levam a ter uma atitude positiva sobre a vida, a dedicar-se à escrita ou, em contraste, abandonar-se à solidão, ao não fazer nada, ao álcool. Descreve-se ainda como alguém indiferente aos laços pessoais, alguém capaz de ignorar a existência de um filho, que mantém relacionamentos com mulheres que oscilam entre os meramente físicos ou os quase paternais, alguém fixado numa série de perversões, um ser misantropo, misógino — em suma, um ser humano que, extraindo as suas capacidades como escritor, pensador, a sua genialidade intelectual, é medíocre como pessoa, facilmente esquecível, um zé-ninguém.

Michel Houellebecq já demonstrara anteriormente esta desinibição em se expor, mesmo que essa exposição o retrate como um ser esquisito, fisicamente repulsivo, um homem sem qualidades. No filme O rapto de Michel Houellebecq, Michel desempenha o papel de si próprio, o autor que foi raptado por uns meliantes amadores e levado para uma casa na província, conseguindo, contudo, travar amizade com os raptores e passar um bom bocado na sua companhia.

 

Relativamente a O mapa e o território, Houellebecq consegue, no entanto, levar a opção do uso de si próprio como personagem ficcional a um patamar mais extremo do que Martin Amis em Dinheiro, matando a sua personagem através de um assassinato macabro, onde também o seu cão perece às mãos de um psicopata que acaba por subtrair o quadro (oferecido pelo pintor a Houellebecq) onde está retratado. Após o cenário horrendo do palco do homicídio ser descrito pormenorizadamente, temos a divulgação da notícia da morte que choca mais os fãs do autor do que qualquer pessoa do seu relacionamento pessoal (se é que tal coisa, na verdadeira aceção do termo, existiu na sua vida), e somos levados ao funeral do autor, cerimónia triste pelo nada a que é reduzida.

 

Este exercício de especulação do escritor sobre a sua própria morte, sobre a forma como os outros o apreendem, sobre a significância da sua existência, foram, para mim, de uma grande tristeza (somos ensinados desde pequenos sobre a importância do eu social, dos relacionamentos, da sua preponderância sobre a importância da nossa existência), mas, paradoxalmente, mostraram-me alguém despido de circunstancialismos, alguém que vive para aquilo que quer, sem condicionalismos exteriores, alguém capaz de rir de si próprio e das suas figuras tristes, dos seus pensamentos perversos, oblíquos.

 

Dois livros diferentes, mas ambos interessantes. Se em Dinheiro, o facto do uso do personagem de Amis não ser preponderante para o interesse do livro, sendo este uma espécie de análise sobre a voracidade do dinheiro, dos esquemas de poder e corrupção e depravação promovidos pelo mesmo, em o livro O mapa e o território, Michel Houellebecq é essencial à natureza do livro, de uma forma enviesada quase narcisista. Embora sejam livros completamente diferentes, ambos têm como ponto central a sociedade atual, a forma como esta tem vindo a evoluir, os contornos absurdos que tem vindo a adquirir e o papel individual/coletivo que cada ser humano ocupa nesta teia ilógica cada vez mais densa.

Noam Chomsky — Mudar o mundo

Neste livro estão reunidas várias conversas entre Noam Chomsky e David Barsamian sobre temas fundamentais do século XXI. Chomsky, linguista, filósofo, faz uma análise séria e relevante sobre o futuro da democracia, sobre jogos de poder e guerra de países como os E.U.A., sobre a evolução da extrema-direita, sobre a deterioração da educação pública e  a segurança social, assim como o novo ativismo político e social como o Occupy Wall Street, passando ainda pelos novos sistemas de propaganda com roupagens modernas de Marketing.

 

 

O poder privado não gosta da educação pública, por vários motivos. Um é o princípio no qual se baseia, que é ameaçador para o poder. A educação pública fundamenta-se num princípio de solidariedade. […] Isso é contrário à doutrina de que devemos simplesmente cuidar de nós mesmos e deixar que todos os outros se danem, um princípio básico das regras empresariais. A educação pública é uma ameaça a esse sistema de crenças porque pressupões um sentido de solidariedade, de comunidade, de apoio mútuo.

[…] Mas a educação pública e a Segurança Social são resíduos de uma conceção perigosa de que estamos todos no mesmo barco e que temos de colaborar para criar melhores condições de vida e um futuro melhor. Quando se está a tentar maximizar os lucros ou o consumo, a colaboração passa a ideia errada. Tem de ser escorraçada da mente das pessoas.

A solidariedade dificulta o controlo das pessoas e impede-as de serem objetos passivos do poder privado. Por isso é necessário ter um sistema de propaganda que anule quaisquer desvios ao princípio da subjugação aos sistemas de poder.

Noam Chomsky, Mudar o mundo, Pág. 45

 

 

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Mudar o mundo — Noam Chomsky, Bertrand Editora

 

 

 

Os quatro livros da mulher

 

Em 1909 começam a ser editadas em Portugal as traduções da tetralogia de Paul Combes, com o título geral de Os quatro livros da mulher e durante quase cinquenta anos os quatro livros que compõem esta obra são reeditados por diversas editoras portuguesas. O livro da esposa, O livro da mãe, O livro da Educadora e O livro da dona-de-casa são obras que pretendem modelar a mulher nas únicas quatro facetas que lhe estavam socialmente disponíveis — esposa, mãe, educadora (dos próprios filhos) e dona-de-casa.

 

Se noutros países da Europa e além Atlântico, nos E.U.A., a luta pela emancipação feminina era já um fenómeno expressivo desde o início do Seculo XX e que tinha eco nas publicações editoriais dirigidas às mulheres, por cá, em Portugal, alguns livros de carácter emancipatório tiveram ainda a oportunidade de chegar ao prelo, mas após a constituição do Estado Novo, em 1933, as publicações dirigidas às mulheres resumiam-se a edições redundantes de carácter formativo, que tentavam colocar a mulher no local que Estado e sociedade da época lhe achavam devido — o lar, como dona de casa, esposa e mãe.

 

Assim, apesar de Paul Combes ter escrito uma obra em finais do século XIX, inícios do século XX, que poderia ser considerada desatualizada, fundamentalista e sexista, chegando aos anos de 1950, esta obra ainda era publicada no nosso país, formatando as mulheres da época, reduzindo-as a um papel secundário, subalterno e subordinado ao papel masculino na sociedade da época. Mas Combes não estava sozinho, foram centenas os livros publicados, com diversas reedições, maioritariamente de autoras portuguesas, que funcionavam como manuais de boa conduta, gestão doméstica e educação feminina.

 

Pelos anos de 40 e 50 do século XX, no que diz respeito à publicação de autores estrangeiros nesta área específica da edição dirigida a leitoras do sexo feminino, os que permaneciam reeditados eram aqueles cujas obras tinham edição original mais antiga (edições originais entre 1890 e 1910). Com as mudanças que surgiam internacionalmente, eram escassas as novas obras de índole conservadora publicadas por autores estrangeiros. Orgulhosamente sós, as edições dirigidas às mulheres tentavam a todo o custo manter a mulher portuguesa refugiada num passado conservador, tradicional, onde o lar tinha de chegar para cumprir os seus sonhos e expetativas de vida.

 

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Os Quatro Livros da Mulher, Paul Combes, Editora Educação Nacional

 

 

Mais do que nunca chegou a hora de as educadoras cristãs velarem pelos seus filhos, reagindo contra as modernas tendências tão funestas.

Pág. 125, Paul Combes – O livro da Educadora. Editora Educação Nacional, 1948, 4ª Edição

 

É que o dever – que chamaremos essência – da dona de casa não é trabalhando na vida exterior, por mais nobres e louváveis que apreçam as obras. O seu primeiro dever é a organização, a direção do lar familiar.

Pág. 129 O livro da dona de Casa – Paul Combes, 1934, 4ª edição

 

O mérito da mulher é governar a sua casa, fazer feliz o seu marido, consola-lo, alentá-lo, e educar os seus filhos, isto é, fazer deles homens.

Pág. 10, Paul Combes, O livro da mãe

 

As leis gerais da natureza – confirmadas pelas leis divinas, por meio da Revelação, e pelas leis humanas – assinalam à mulher a missão de companheira do homem.

Pág. 2, O livro da esposa, Paul Combes

 

Jo Nesbø e a leitura compulsiva

Os romances policiais, considerados por alguns críticos como um género literário menor, têm, no entanto, conseguido adquirir um lugar de relevo no mercado editorial nacional e internacional. Dos países nórdicos, impulsionados pelo estrondoso sucesso de Stieg Larsson, chegam-nos nomes como Mons Kallentoft, Camilla Läckberg, Åsa Larsson, Lars Kepler e Jo Nesbø, entre outros. Também os islandeses têm alguns autores em destaque neste género, como por exemplo Arnaldur Indridason ou Yrsa Sigurdardóttir.

 

Todavia, de entre todos estes autores, no campo do romance policial Nesbø é a minha adicção literária. Acompanho-o desde o primeiro livro lançado em Portugal, O pássaro de peito vermelho, e desde essa altura sou uma fiel leitora deste norueguês. Se com outros livros é possível levar a leitura de uma forma faseada, dedicando um par de horas por dia, o diabo do Nesbø não me permite tal coisa. Consigo compreender as estratégias usadas para prender o leitor, um rol de manipulações que durante centenas de páginas, ajudadas por cortes estratégicos de capítulos, nos levam em direções erradas, criando suspeições infundadas, tudo para que o desenlace final seja surpreendente e pouco previsível. Mas mesmo compreendendo que estou a ser ludibriada, não consigo parar de ler e sou menina para despachar um livro de seiscentas páginas em dois ou três dias, levando a leitura a adquirir uns contornos um pouco doentios. Parte do meu fascínio prende-se não só com as estratégias narrativas manipuladoras, mas também com a análise constante da natureza humana, onde convivem polícias alcoólicos, assassinos sem escrúpulos que se confundem com pessoas ditas normais, onde o poder da corrupção e o poder da ambição transformam personagens e onde um filho pode ser um carrasco.

 

No último livro que li do Nesbø, O fantasma, cheguei à última página com uma imensa sensação de perda. Aquele personagem, Harry Hole, que tantas horas de sono me tinha roubado, tanta atenção do meu mundo quotidiano tinha desviado, estava para ali, cravado de balas, como morto. Juro que fiquei umas quantas horas meia apalermada até ter tido a brilhante ideia de usufruir da maravilhosa invenção do mundo moderno — a internet. Teria Hole realmente morrido, seria este o último livro da saga Harry Hole? Depois de uma breve pesquisa, percebi que deveria ser a única leitora de Nesbø que se mantivera na ignorância sobre este assunto até 2016.

 

Felizmente, Nesbø, o meu dealer de policiais, ainda nos presenteará com, pelo menos, mais um livro da saga Harry Hole, o livro Police (na tradução inglesa). Não sei quando chegará a tradução portuguesa, dado que antes disso será publicado a segunda obra do autor (Cockroaches, na tradução inglesa), que ainda não tinha edição portuguesa.

 

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O Fantasma, Jo Nesbø, editora D. Quixote

Mulheres

Por curiosidade, separei os livros de escritoras que li no ano passado, só para descobrir que foram em menor quantidade do que os livros lidos escritos por homens. O mundo, de uma forma geral, continua a ser predominantemente masculino, mesmo quando parece que nas sociedades ocidentais tanto mudou no que diz respeito à igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Essa entoação masculina está de tal forma entranhada que nós, mulheres, acabamos por considerar certas atitudes, maneiras da sociedade funcionar, normais. É normal haver uma predominância de prémios literários atribuídos a homens, é normal haver uma predominância de divulgação de obras de autores masculinos, é normal haver mais autores masculinos publicados do que femininos.

 

Mas todas essas normalidades não conseguem apagar a qualidade do trabalho literário das autoras lidas, a unicidade da sua voz artística e a forma como cada uma destas obras me marcou de forma indelével.

 

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Susan Sontag — Olhando o sofrimento dos outros;

Mrs Dalloway — Virginia Woolf;

O meu amante de domingo — Alexandra Lucas Coelho;

Os interessantes — Meg Wolitzer;

História do novo nome e História de quem vai e de quem fica — Elena Ferrante;

A história secreta — Donna Tartt;

O olhar e a alma, Romance de Modigliani — Cristina Carvalho;

Marguerite Yourcenar — Memórias de Adriano.

 

Memórias de Adriano — Marguerite Yourcenar

Nem sempre a motivação que nos conduz a um livro é a mais nobre, a que gostamos de apresentar em conversa, mas algo de mais obscuro e de difícil explicação. Não foi a notoriedade de Marguerite Yourcenar, as suas reconhecidas capacidades literárias que me levaram até Memórias de Adriano.

 

Desde cedo tive uma certa apetência por literatura que explorasse diferentes formas de sexualidade, distintos relacionamentos interpessoais, literatura que fugisse ao cânone dominante das relações heterossexuais, do «man meet girl». Ainda adolescente, já esta motivação me fazia pegar em livros menos convencionais, me fazia pesquisar, procurar, correr a comprar.

 

Apesar da minha heterossexualidade, a temática homossexual sempre surtiu um determinado fascínio em mim e essa foi uma das razões de ter pegado neste livro para o ler. E ainda bem que o fiz, porque esta obra é bem mais do que isso, é bem mais do que a paixão do imperador Adriano pelo seu protegido Antínoo, é bem mais do que o dilaceramento de Adriano pela perda do seu amado, este livro é uma obra de arte.

 

Marguerite Yourcenar pesquisou durante anos para este livro e podemos encontrar, na edição da Ulisseia, alguns apontamentos que foram feitos pela autora ao longo dos anos no decorrer dos seus estudos sobre o Imperador Adriano e sobre o império romano. O que foi conseguido neste texto singular foi um olhar sobre uma época distante que pretende não estar maculado ou modelado pelo olhar contemporâneo (até onde isso é possível).

 

Muitos romances históricos pecam precisamente por colocar em personagens de outros tempos, outras épocas, costumes, maneiras de ser e pensar que não pertencem ali, naquele passado, transformando o romance histórico numa miscelânea de adereços de época com personagens, hábitos e costumes hodiernos.

 

Assim, este livro não detém em si apenas a emoção de uma história do passado, contém a possibilidade de vislumbrar uma época pelo olhar de um homem notável, como se Adriano, ele mesmo, tivesse deixado estas palavras escritas especialmente para nós, leitores do século XX em diante.

 

 

E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz esta mesma carne, que tão-pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo.

Pág. 20

 

Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação.

Pág. 109

 

O meu luto não era mais que uma forma de excesso, uma devassidão grosseira: eu continuava a ser aquele que aproveita, aquele que goza, aquele que experimenta: o bem-amado entregava-me a sua morte.

Pág. 188

 

 

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Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenas, Ulisseia

 

Stoner — John Williams

Ao ler um post noutro blog sobre o livro Butcher’s Crossing de John Williams, recordei uma leitura do ano passado, o livro Stoner, do mesmo autor. Ainda na sequência do meu último post sobre a minha incapacidade analítica, este livro figura como a prova de uma valente ressaca literária da qual me recuso proceder a uma análise que a explique.

 

A personagem principal é um homem com uma existência mediana, com vivências medianas, amores medianos, sucesso académico mediano, no entanto, a minha leitura foi obsessiva, compulsiva, sem que o resumo da narrativa objetivamente tal justificasse. Na reta final, passei uma manhã a ler, descurando outros afazeres, e quando acabei e fechei o livro, o que ficou foi um grande vazio, uma tristeza imensa. Consigo vislumbrar a explicação das minhas emoções, mas não quero, prefiro fechar os olhos a essas análises, prefiro manter intacta a crueza das emoções daquela manhã e dos três ou quatro dias posteriores. Normalmente, quando acabo um livro começo a ler logo outro, mas o mesmo não aconteceu depois de Stoner. Passei dias sem conseguir ler, sem olhar para a capa doutro qualquer livro. E quase um ano passado depois da leitura de Stoner, a memória emocional persiste, fazendo-o brilhar acima de umas dezenas de outros livros também lidos no ano passado.

 

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Stoner de John Williams, Editora D. Quixote