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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Pagadores de promessas

Há uns tempos tinha visto uma reportagem sobre um homem que era pagador de promessas profissional. Em troca de uma determinada quantia de dinheiro, a pessoa em questão fazia a penitência que o contratante tinha prometido — ir a pé a Fátima durante X quilómetros, colocar velas no santuário, rezar o terço, etc.

 

O que na altura me pareceu bizarro, fazendo lembrar os pagamentos das bulas séculos atrás, parece ter-se tornado num negócio prometedor, em franca expansão. Segundo noticiam umas quantas publicações nacionais, existem agora várias pessoas a oferecer este serviço em páginas na internet, o de pagarem a promessa por alguém contra pagamentos, na maioria das vezes, avultados. O centenário das supostas aparições/visões parece ter contribuído para o florescimento deste nicho de mercado e é de supor que tamanha oferta implique uma procura.

 

o-pagador-de-promessas.jpg

Imagem da adaptação televisiva da obra «O pagador de Promessas». Fotografia retirada daqui.

 

Apesar do meu olhar sobre o tema ser moldado pela minha não crença religiosa, penso que mesmo alguns crentes acharão esta opção pela contratação de um pagador de promessas algo de insólito, se não mesmo em claro confronto com os mais básicos preceitos religiosos.

 

A justificação daqueles que contratam tais serviços e daqueles que os oferecem é que pagar dinheiro para alguém pagar uma promessa implica que esse dinheiro tenha sido ganho pelo contratante e há, evidentemente, esforço envolvido, sacrifício na labuta diária que é revertida em salário. Em suma, o dinheiro é sinónimo de sacrifício e como tal não há mal em o gastar para pagar a um pagador de promessas, pois o sacrifício implicado no pagamento de uma promessa (caminhar quilómetros, fazer percursos de joelhos) está implícito no pagamento monetário.

 

No alto da minha ignorância religiosa, deixo aqui apenas uma singela sugestão: se alguém tem 2500 euros para pagar a um pagador de promessas profissional (preço levado por grande parte dos profissionais pelo percurso a pé Lisboa-Fátima), não seria mais louvável, mesmo do ponto de vista cristão, ofertar esse valor a uma instituição de solidariedade social ou ajudar diretamente alguém que necessitasse desse dinheiro? A devoção, a crença, deve revelar-se através de ações e não se ficar apenas pelas intenções.

Blasfémias

Outubro de 2013. Um barco com 400 pessoas provenientes da Síria naufragou a poucos quilómetros de Lampedusa, na Itália. 268 pessoas perderam a vida, entre elas 60 crianças. Números trágicos, mas que pela repetição diária se tornaram corriqueiros. Números…

 

No entanto, apesar de quase cinco anos passados, novas informações surgiram sobre este incidente específico. Na altura do acidente, surgiram algumas suspeitas relativas à extrema demora no auxílio aos náufragos que fugiam de uma guerra sangrenta. Neste momento, as suspeitas confirmaram-se. Um médico sírio, a bordo do barco, entrou em contacto com a guarda costeira italiana informando da situação crítica do barco (estava a entrar água na embarcação), avisando que «estamos a morrer!». As coordenadas que permitiam a localização da embarcação foram fornecidas, a informação sobre a situação limite em que se encontravam aquelas centenas de pessoas foi relatada. Mas o que a guarda costeira italiana fez foi empurrar a responsabilidade do auxilio para Malta. Mandou o médico ligar para Malta. Este assim o fez. De lá, de Malta, recebeu instrução idêntica: «ligue a Itália. Eles estão mais próximos». Durante cinco horas, Itália e Malta empurraram a responsabilidade com troca de telefonemas e faxes, enquanto centenas de pessoas se afogavam no Mediterrâneo. Só quando Malta enviou um avião que verificou, sobrevoando o local, que já estavam centenas de pessoas na água, é que Itália resolveu mandar auxílio. A frase desesperada do médico sírio «Estamos a morrer!» não surtiu qualquer efeito empático nos funcionários italianos ou malteses, as chamadas insistentes, a aflição na voz de alguém que percebia a morte eminente não conseguiu arrancar o funcionalismo burocrático aos seres humanos que atenderam aquelas chamadas.

 

Agora, a revista italiana L’espresso conseguiu ter acesso às gravações de cinco chamadas telefónicas que provam a indiferença e a ineficácia de auxílio das autoridades italianas que permitiram, dessa forma, a morte de 268 pessoas. Jammo, o médico sírio que deu o alerta, sobreviveu ao naufrágio, mas dois dos seus filhos não resistiram às cinco horas de espera impostas pela indiferença burocrática italiana.

 

Numa blasfémia de diferente natureza, a República da Irlanda resolveu investigar Stephen Fry por blasfémia. O humorista britânico foi investigado após uma denúncia feita por um telespetador após a emissão de um programa de 2015, onde Fry, questionado sobre o que diria a deus depois de morrer, respondeu o seguinte:

 

Como se atreve a criar um mundo onde existe tanta miséria? A culpa não é nossa. Não é correto. É absolutamente, absolutamente maligno. Porque haveria de respeitar um Deus caprichoso, malicioso, estúpido que cria um mundo que está tão cheio de injustiça e dor?

O Deus que criou este Universo, se é que foi criado por um Deus, é claramente um maníaco, um completo louco, totalmente egoísta.

Citações de Fry retiradas deste artigo do jornal Público.

 

A lei irlandesa prevê a punição de quem insulte qualquer religião ou os seus fiéis. No entanto, para a investigação chegar a julgamento, terão de existir vários ofendidos. E esse foi o facto que acabou por deixar cair a acusação. A polícia, segundo notícia de ontem do Daily mail, não encontrou mais ofendidos pelas palavras de Fry e assim caiu a acusação de blasfémia contra o ator.

 

No fim, resta saber quem mais blasfemou: Fry, com a sua ira contra um deus omnipresente, mas caprichoso, malicioso (palavras, nada mais do que palavras), ou os funcionários burocratas indiferentes à aflição alheia, entretidos a trocar faxes e telefonemas entre si (ações ou falta delas).

  

Festival das memórias

Uma das minhas primeiras memórias preservadas durante décadas remonta a 1980/81, teria eu uns dois ou três anos e o que o ouvido captou e os olhos míopes ajudaram a gravar em memória foi o início da transmissão do Festival da Eurovisão da Canção. Numa época em que o entretenimento televisivo era bastante limitado e, morando eu numa zona rural, o entretenimento de uma forma geral era coisa arcaica quando comparada com os tempos que correm, a transmissão do Festival da canção era um momento de grande excitação e expetativa, vivido em família, motivo de conversa nos dias seguintes, momento televisivo imperdível.

 

Na memória desse longínquo ano ficou o hino inicial da transmissão, a imagem gráfica básica, mas que marcava o ponto de partida da grande noite que se seguia, tornando-se assim memorável.

 

Hino Eurovisão RTP-ZDF (Marc-Antoine Charpentier - Te Deum) 

 

Nos anos seguintes, a expetativa manteve-se. A transmissão do festival continuou a ser ponto alto no entretenimento em família, fonte de angústia e excitação (os momentos das votações dos vários países, o raio da vitória que nunca nos calhava na rifa, o complô evidente entre os países bálticos, a amizade entre os países escandinavos e o raio dos coitadinhos dos portugueses nunca tinham direito a nada). No festival de 1991 apareceu uma das minhas canções favoritas de sempre. A canção francesa de Amina agarrou-se-me à memória de tal maneira que, numa época sem internet e sem grandes recursos de procura musical, por lá hibernou, recordada em trauteios volta e não volta. Com o surgimento décadas depois do youtube, busquei Amina e trouxe-a à tona da memória e ali estava novamente «C'est le dernier qui a parlé qui a raison», sons de outrora disponíveis para serem relembrados.

 

Amina, Cést le dernier qui a parlé qui a raison (a música de Amina ficou em primeiro lugar empatada com a Suécia, mas este último país, tendo obtido mais vezes 12 pontos, foi declarado o vencedor do certame).

 

Com o avançar da década de noventa e com a chegada dos anos 2000, o fervor pelo festival foi desvanecendo lentamente. Novos canais televisivos surgiram, a qualidade das músicas apresentadas começou em franco declínio até chegarmos a um ponto em que o festival se transformou num espetáculo visual aparatoso, mas musicalmente pobre, não justificando que se gastasse horas a acompanhar a sua transmissão. A língua inglesa passou a ser língua de escolha preferencial para as letras das músicas, o género dominante é o pop (nada contra), mas, salvo raras exceções, o que se vê são cópias rápidas, sem grande originalidade, pobres a todos os níveis, transformando o concurso num desenrolar de «músicas» sem interesse.

 

Este ano, um certo fervor do passado regressou. Se há uns quantos anos não faltariam por aí pessoas que nem sequer saberiam quem era o concorrente português à eurovisão, este ano isso será fenómeno raro. A escolha de Salvador Sobral não convenceu toda a gente — para alguns, a música não será suficientemente festivaleira, musicalmente boa demais para o certame em questão (o que diz muito sobre a qualidade atual percecionada do festival), mas para outros, adequando-se ou não ao propósito para o qual foi escolhida, é uma boa música que nos dignifica enquanto país concorrente.

 

A quem neste momento abra um qualquer agregador de notícias, por lá encontrará uma boa quantidade de artigos sobre o concorrente português, a quem abra o youtube, por lá se deparará com diversas versões da música, entrevistas ao músico, vlogs de opiniões sobre a canção portuguesa. E o interesse por um certame, até à data decadente por estas bandas, ganhou um ímpeto inusitado que trouxe o Festival da Eurovisão para tema central das conversas de café e das redes sociais.

 

Salvador Sobral, Amar pelos dois.

 

Pessoalmente, gosto da nossa música e embora não tenha acompanhado o festival nas últimas décadas, as memórias da infância, aquele vislumbre de tempos idos, leva-me a depositar um carinho especial por este evento. A memória regressa à infância, regressa ao frenesim daqueles tempos e secretamente sussurro:

Portugal, 12 points.

A importância de se chamar […]

É sabido que uma parte dos escritores, portugueses e não só, usam pseudónimos, substituindo o seu nome do registo civil por um qualquer nome de sua escolha. As razões da mudança podem ser várias, da mais elementar: troca por um nome que seja mais «apelativo» e diferenciador; às mais complexas: criação de uma persona, de um alter-ego, ocultação da verdadeira identidade do escritor.

 

Neste campo dos pseudónimos, há aqueles escritores que tentam «entrar a matar» e optam por um qualquer nome que, de tão estranho, acabe por tornar a identificação do autor memorável. O «drama» terá começado com o Valter Hugo Mãe, mas mais recentemente a fasquia dos pseudónimos elevou-se (e de que maneira).

 

Primeiro dei de caras com o António Deus-Rosto, depois veio o jovem escritor Raul Minh’alma e ontem encontrei na internet o Afonso Noite-Luar.

 

Assim, para não matarem muito a cabeça, deixo aqui algumas sugestões de pseudónimos aos jovens escritores que estejam a pensar em entrar em grande no meio editorial. Estes nomes, juro, não deixarão ninguém ficar mal:

 

— Francisco Tu’almofada;

— Gertrudes Sol-Insolação;

— Manuel Caras de Bacalhau;

— Hugo Joel Primos em Terceiro Grau;

— Isabel Nuvens-Granizo;

— José Jesus-Tromba;

— António Alá-Face;

— João José Madrasta;

— Ivone Noss’almôndega.

Rythm 0

Como já por aqui referi antes, uma das questões que mais interesse me desperta é a da natureza boa/má do ser humano. Obviamente, esta visão maniqueísta, esta divisão entre bom e mau, é tremendamente redutora e aquilo que somos, o nosso relacionamento com os nossos semelhantes, com a natureza, não pode ser categorizado apenas por estes dois polos extremados: bom e mau. Mas a questão é: somos, de forma primitiva, intrinsecamente propensos à violência, ao egoísmo, à subjugação do outro através do poder, ou esses traços vieram como uma assimilação cultural, danos colaterais da nossa evolução em sociedade?

 

Sobre isto, sobre a preponderância para o mal, muito poderá ser dito e algumas coisas fora do âmbito da natureza intrínseca, mas ligadas à anatomia, à morfologia do cérebro: certas alterações neurológicas podem levar a uma maior impulsividade, agressividade e falta de empatia, por exemplo. É possível, na prática, intervir cirurgicamente e tentar, com isso, modelar comportamentos. Mas no que diz respeito a este assunto, escreverei num outro post, pois também é tema que me deixa intrigada e com dúvidas de ordem ética.

 

De regresso à nossa natureza, dei de caras há umas semanas com um vídeo da artista Marina Abramović (The Artist is Present) e recordei uma das suas mais famosas performances, que ainda hoje, passados mais de 40 anos, permanece como uma das apresentações mais emblemáticas de Marina. Corria o ano de 1974 e a artista apresentou em Nápoles a performance Rythm 0. Numa mesa estavam dispostos 72 objetos, parte deles ligados a uma aceção de prazer e outros quantos ligados inequivocamente a uma aceção de dor. No centro da sala estava Marina, parada, à espera da interação do público. Durante seis horas, a artista teria de permanecer ali e subjugar-se às vontades dos visitantes, ao uso que estes fariam dos objetos. Inicialmente, as pessoas pareciam dominadas por uma certa timidez, mas não demorou muito até que alguns se soltassem das amarras da inibição e ousassem uma aproximação. Tocar, mexer, experimentar objetos numa pessoa que se apresentava subjugada, sem reação, levou a que em menos de nada a agressividade tomasse lugar naquela performance. A roupa de Marina foi rasgada, ela foi despida, amarrada, mudada de lugar, picada, cortada, o seu sangue lambido por um dos visitantes. A dada altura, uma das pessoas presentes pegou numa arma, um dos objetos expostos, e carregou-a com uma bala (também exposta) e apontou-a à artista. Um outro visitante interveio, nesse momento e afastou a arma.

 

Marina Abramovic.png

 Imagem retirada daqui.

 

A atitude de Marina, durante as seis horas, foi sempre de passividade e essa passividade, essa subjugação, levou a um uso quase exclusivo, por parte dos visitantes, dos objetos relacionados com o inflição de dor. Quando as seis horas acabaram, quando se chegou ao fim do tempo delimitado para a performance, a artista abandonou o espaço, seminua, a sangrar, de lágrimas nos olhos.

 

O interessante da performance não terá sido apenas, ou essencialmente, a agressão ao sujeito passivo, a falta de empatia e a crueldade das interações, a escolha pela dor ao invés da escolha por proporcionar prazer, mas a reação final dos visitantes à pessoa que, antes passiva, começou a caminhar e olhou os seus agressores nos olhos. A confrontação com a agressão, com a «vítima», deixou a audiência desconfortável, sem saber para onde olhar, apanhada na evidência do próprio erro. A passividade tinha sido como um livre passe para a agressão e quando essa passividade acabou, as pessoas viram-se «ao mesmo nível» do sujeito agredido, a sensação de poder esvaiu-se, ficou apenas a vergonha, o acanhamento.

 

Como é óbvio, não é possível extrapolar os resultados de uma performance nos anos 70 para definir todo o comportamento humano face à passividade, à fragilidade do seu semelhante. Embora não possamos concluir que, face a alguém que se demonstra numa atitude de submissão, o mais certo é haver lugar à subjugação, ainda assim uma pequena performance de seis horas funciona como um sistema de alerta para esta nossa, aparentemente intrínseca, necessidade de dominação. E esta dominação, esta ânsia de poder, de subjugação, vem embrulhada numa (temporária ou não) falta de empatia, de capacidade de ver o sujeito dominado como alguém igual, semelhante, senciente. Havendo a possibilidade de escolha entre proporcionar o bem-estar ou a agressão, agredir aparece como escolha aparentemente «natural».

 

De uma forma ingénua, penso que, se lá pudesse ter estado, em Nápoles, naquele dia, perante uma mulher jovem, inteligente, bonita, como Marina era (e ainda é), gostaria de lhe ter tocado, acariciado, olhado nos olhos, tentando uma aproximação aos seus pensamentos, expetativas e medos. A agressão nunca me passaria pela cabeça perante alguém que, de forma despojada, decidiu «dar-se» aos seus visitantes. No entanto, serei diferente ou, quando inserida num grupo, faria exatamente o mesmo que aquelas pessoas fizeram — experimentar como seria magoar alguém, infligir dor a alguém, fazer chorar alguém… ?

 

Estará esta ânsia de subjugação, domínio, fome pelo poder enraizada dentro de nós e a empatia é coisa aprendida e não natural?

 

Artigos relacionados com a performance Rythm 0 de Marina Abramović:

http://www.tate.org.uk/art/artworks/abramovic-rhythm-0-l03651

http://johndopp.com/reality-0-marina-abramovic/

 

 

Feminazi

Tinha pensado em escrever sobre Marina Abramović e sobre uma das suas performances mais emblemáticas, mas uma mensagem no blog mudou o rumo da escrita de hoje. Marina ficará para amanhã.

 

Escrevi no sábado um texto sobre o jornalismo numa associação a um artigo do Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. O texto era uma denúncia da forma enviesada, sexista, como Brigitte era referida, funcionando como demonstração da maneira como as mulheres ainda são vistas na sociedade, como, apesar de mudanças várias, a mulher ainda é referida como certo acessório masculino. Não acho que tenha sido o meu mais brilhante texto, longe disso. Estava irritada com o artigo (a irritação nunca é grande conselheira), o meu filho questionava-me sobre coisas várias enquanto eu tentava escrever, em suma, pouca concentração, alguma irritação, e nasceu um texto. Penso que tenha sido esse mesmo texto o causador da mensagem que recebi de um qualquer anónimo, que me apelidou de feminazi — tenho de dar créditos humorísticos à designação. É genial, embora tenha perdido certa graça devido à repetição exaustiva:

 

porque será que se fala na primeira profissão do mundo com a mulher como fornecedora de servico? a culpa é sempre do homem.....faltam espelhos em casa? ou já não suporta olhar para eles? talvez haja uma coincidencia e alguma identificacao na menopausa...mais uma feminazi.....

 

Toda a mudança de uma hierarquia instituída vem sempre acompanhada de medo, de uma certa inquietação relativa à disrupção iminente. Quando o esclavagismo chegou ao fim, a integração dos antigos escravos trouxe inquietação à raça que dominava, quando uma religião começa a ganhar crentes numa determinada região, isso traz uma inquietação que pode levar à revolta, à violência, dos crentes que antes viam a sua religião como dominante naquele local, quando as mulheres entraram em força no mercado de trabalho, isso trouxe uma insegurança aos homens, que antes dominavam sem questionamento esse mesmo mercado. E a história está cheia de disrupções e consequentes medos.

 

Dito isto, não sinto choque por ter homens à minha volta que se dirijam a mim da forma como este anónimo fez. As mudanças recentes em alguns países no que aos direitos da mulher diz respeito trazem, inevitavelmente, mudanças numa hierarquia, numa organização social que dura há séculos e, como qualquer mudança, esta também é geradora de inquietações. Ver o domínio ameaçado, uma ordem instituída que parecia garantida ser abanada pelas bases, fragiliza sempre e, quanto menor a capacidade de refletir, tentar ver o mundo pelos olhos do outro, tentar perscrutar o futuro sob a lupa da mudança, menor a tolerância para essa mudança e maior a revolta.

 

Há um século atrás, quando as mulheres se começaram a afirmar, entraram na universidade, se juntaram em grupos de reflexão, escreveram livros sobre a sua condição de mulheres, saíram ao prelo milhares de livros de ataque à mulher escritos por homens, livros que a tentavam reduzir à esfera doméstica, a uma submissão ao homem, a uma condição de muleta do homem ditada por deus. Na altura, um dos argumentos esgrimido por alguns era a inferior intelectualidade, a menor inteligência da mulher. Um século passado, esse argumento já não resulta, foi descartado e, faltando algo de mais sólido, retrocede-se. Como se vê pelo comentário deste anónimo, volta-se ao básico: uma sugestão da minha pouca beleza, da minha insatisfação pelo o que o espelho reflete, da minha frustração por estar na menopausa (lá chegarei, se, entretanto, não bater a caçoleta).

 

Quando lia o livro de Yuval Noah Harari chamado Sapiens, onde o autor escreve sobre a evolução do ser humano ao longo dos tempos, a dada altura a questão da sociedade patriarcal é discutida. A pergunta que continua a persistir no ramo da antropologia é: porque é que, talvez desde os primórdios da evolução do homo sapiens, sempre se viveu numa hierarquia, numa sociedade patriarcal e uma organização matriarcal num foi opção? A opinião dos antropólogos segue em diversas vertentes: alguns julgam que a força muscular, geralmente maior nos homens, ditou esta organização; outros acham que não foi tanto a força, mas a agressividade. O homem sempre teve, de forma geral, um temperamento mais agressivo, o que poderá ter condicionado de forma primitiva a organização social; outros antropólogos referem ainda um possível gene patriarcal, algo intrínseco ao ser humano, que nos leva irremediavelmente a uma organização patriarcal.

 

Na realidade, não há um consenso, não há uma resposta clara que justifique o nosso caminho de milénios que nos trouxe, enquanto seres humanos, até ao dia de hoje, nesta organização social tal como a conhecemos. No entanto, tudo o que conseguirmos fazer, mudar, revolucionar, será parte integrante do que somos, natural, parte da nossa evolução. Dito isto, esta luta das mulheres pela equidade de direitos, por um olhar de igual para igual, pode trazer ansiedade àqueles que, numa organização hierárquica, não estavam habituados a um olhar olhos nos olhos, mas antes a uma olhar submisso, mas apesar desse medo e inquietação, é um movimento natural evolutivo.

O humor na luta

Se a expressão «Fora, Temer» é frase de ordem no Brasil da atualidade, palavras icónicas na luta contra o presidente, mostra de rejeição, demonstração de descontentamento, um funcionário de um cemitério resolveu inovar e, ao invés de mandar o presidente embora, resolveu convidá-lo a entrar. No cemitério, claro está.

E bastaram duas palavritas para eu soltar uma gargalhada. O humor, mesmo na luta, é sempre o melhor remédio.

 

Entra temer.jpg

 Imagem retirada daqui.

 

Jornalismo papel higiênico

Se há coisa que me faz soltar umas imprecações, uns quantos palavrões sentidos, é quando o jornalismo, arma essencial numa sociedade moderna e democrata, se tenta armar aos cucos, mandando por água a baixo a sua credibilidade, transformando o que deveria ser uma poderosa arma informativa, num mero rolo de papel higiénico.

 

No meio das notícias que lia, aparece-me à frente uma notícia do jornal Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. Começo por questionar qual o interesse de escrever um artigo sobre a esposa de um candidato às eleições francesas, mas, ainda assim, embora pouco relevante e de cariz fofoqueiro e não informativo, grande mal não viria ao mundo. No entanto, o título, o grande sacana do título, quase me provocou uma apoplexia.

 

Observador.jpg

 

Há algo de absolutamente sexista, misógino neste título, mas o que ainda me enfurece mais é a cobardia implícita pelo uso das aspas. O jornal Observador usou a expressão «barbie com menopausa» para designar Brigitte e, um pouco em jeito de «não fui eu que disse, foram outros senhores», usou as aspas como desculpa pelo abuso. Na realidade, é irrelevante quem usou primeiro a expressão, a repetição de um absurdo não é desculpável pela antecedência desse absurdo. Não é por vários jornais se terem apropriado de uma expressão sexista e redutora de uma mulher que é admissível e desculpável a persistência do uso dessa expressão.

 

Quanto à expressão em si, por mais voltas que o mundo dê, a mulher continua a ter um tratamento diferenciado do do homem, tratamento esse fortemente ligado a uma certa objetivação, ao aspeto físico, a uma certa ideia de família tradicional. Não há escândalo algum em Melania ser uma catrefada de anos mais novo do que Trump, não há drama algum em Marcela ser quase quarenta anos mais jovem do que Temer. A eles, gabam-lhes a capacidade de terem arranjado tão bonitas e jovens esposas, a elas gabam-lhes a juventude e a beleza.

 

Mas o diabo do Macron, grande cromo, foi arranjar uma esposa vinte e picos anos mais velha. É o apocalipse. A ela, apesar de não lhe negarem uma suposta beleza, esfregam-lhe na cara a evidência do envelhecimento, da sexualidade decadente implícita, o uso do «com menopausa» como se de uma doença maligna se tratasse,  a ele chamam-lhe de menino da mamã e tentam arranjar desculpas para tão bizarra escolha: é gay, o casamento é uma fachada.

 

Em suma, tanto num exemplo como noutro, a mulher fica-se pela única dimensão do aspeto físico e apenas essa dimensão é explorada. Sem grande interesse, no caso da juventude (é comum homens poderosos e ricos casados com mulheres mais novas), mas em tom de escândalo quando o oposto acontece: homem jovem casado com mulher mais velha. A nós, mulheres, para estes jornaleiros da atualidade, resta-nos o papel de bibelot, acompanhante de luxo dos senhores políticos, ícone de beleza.

 

Pois é… tanto tempo perdido, tanto computador ligado a gastar energia, e gastam os jornais tempo nestas irrelevâncias constrangedoras e perpetuadoras de estereótipos tristes e ultrapassados.

 

Sabem, o que eu gostaria mesmo de saber é quem é Macron, qual o seu passado político, qual as suas propostas em cima da mesa para o futuro da França, quais as contradições do seu discurso político, quais as soluções e a sua viabilidade, qual a capacidade que demonstra para enfrentar a França pelos cornos. Só isso, nada mais do que isso.

Monty Python’s world

O funcionamento do mundo está cheio de detalhes bizarros camuflados, na maioria das vezes, pelas vestes da normalidade, da banalidade. Mas há certas bizarrias que, por mais maquiagem que se lhes ponha em cima, permanecem absurdamente bizarras aos olhos de quem as quiser ver. Dou por mim a murmurar palavrões ao ler certas notícias, a questionar a verosimilhança da realidade onde me insiro, a verdade deste meu agora.

 

Neste último domingo, a Arábia Saudita foi eleita para a Comissão para os Direitos das Mulheres da ONU. A eleição deste país para esta comissão é de tal forma aberrante que roça o absurdo, a comédia hilariante. É um pouco como eleger um pedófilo para a comissão dos direitos das crianças ou um traficante de droga para a comissão da luta contra o tráfico de estupefacientes. Arábia Saudita e Direitos das mulheres são um paradoxo, a antítese um do outro, o que torna esta eleição uma aberração pública, uma anedota.

 

Num país onde as mulheres são consideradas um subproduto humano, um ser subserviente do homem, onde não podem conduzir, onde não podem estudar, trabalhar e viajar sem autorização de um homem, votar em todas as eleições, a escolha deste país para uma comissão que pretende acabar exatamente com esse tipo de abominações no que concerne os direitos das mulheres é, acima de tudo, uma autêntica descredibilização da ONU, transformando um organismo que deveria ser de relevância, numa anedota.

 

Relembro ainda que este mesmo país foi reeleito no ano passado, em outubro de 2016, para o conselho de direitos humanos da ONU. O poder de determinadas nações (poder económico, estratégico, político) acaba por ter mais peso, ser mais relevante do que qualquer facto, do que a evidência das atrocidades cometidas. Num país onde os ateus são considerados terroristas (com penas equivalente àqueles que praticam terrorismo na verdadeira aceção do termo), os direitos humanos são como um tapete onde a Arábia Saudita limpa os pés.

 

Quando vemos as urgências do mundo e quando percebemos as estratégias adotadas por organismos que deveriam zelar pela resolução eficaz dessas urgências, percebemos que isto está tudo mesmo fodido (pardon my french).

 

No fundo, estamos todos metidos dentro de um filme dos Monty Python. Que o absurdo nos possa, pelo menos, parecer comédia. Se rirmos, não dói tanto.

 

 Monty Python - A vida de Brian (stoning scene)

Prazeres abençoados

Os senhores da Vista Alegre resolveram criar uma imagem da nossa senhora de Fátima com a finalidade de levar as fieis mais céticas a conseguir ver a luz e a sentir, nas suas próprias casas, uma experiência divina.

 

N.S.Fátima.jpg

Imagem retirada do site da Vista Alegre.

 

Pessoalmente, considero a escolha de materiais infeliz, mas sendo a Vista Alegre a empresa que é, conhecida pelo uso da cerâmica e vidro, seria ignorância minha esperar a preferência por um material como a borracha ou o látex. Cada um faz o que pode com aquilo que tem.

 

O preço também é um pouco abusivo. Mesmo tratando-se de uma quase garantia de uma experiência transcendente ao mais alto nível, já vi por aí coisas mais bem modeladas, com um aspeto mais apelativo e a um preço mais razoável. Mas o negócio é o negócio, independentemente das crenças envolvidas.

 

Por isso, aos interessados, aqui fica uma dica de uma compra abençoada.