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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O reality show de Karl Ove Knausgård

Prossigo a leitura do segundo volume de «A minha luta» de Karl Ove Knaurgård. Fenómeno editorial quando foi lançado, é fácil perceber o que causa esta atração por esta obra. Temos uma obra literária que se aproxima do leitor como se este, de certa forma, bisbilhotasse inadvertidamente e à socapa os diários de alguém que lhe é próximo. Karl Ove fala da sua vida, desde a infância à idade adulta, a morte do seu pai, a família, o nascimento dos filhos, a luta pela criação literária e a conciliação disso com a rotina de um homem casado com filhos.


Não se poderá chamar a este conjunto de quatro livros uma obra de ficção, mas também a classificação de autobiografia não lhe assenta com graciosidade. A obra é escrita como um desabafo, uma conversa com um Eu imaginário, e segue todos os preceitos de uma divagação sem normas, sem estrutura aparente, sem qualquer rigidez narrativa. Essa forma despojada de contar a sua história, faz com que ocorram todos aqueles tiques (propositados, certamente) de quando falamos com alguém muito próximo e lhe contamos alguma história — começamos a contar um qualquer episódio, mas facilmente nos perdemos em algum detalhe que nos transporta para um episódio totalmente diferente, até nos apercebermos que nos afastamos do nosso intento inicial e regressarmos.


A narrativa de Karl Ove está cheia disto, desta divagação que nos faz saltar da história de uma vizinha russa meia louca que ele encontra nas escadas do prédio para uma história passada há cinco anos. Este estratagema incute ao leitor a forte impressão de não estar a ler um livro, mas a ter uma conversa com o autor, transmite ainda a sensação da genuinidade daquilo que lhe é ali contado, como se ali nos estivesse a ser servido um Karl Ove que conseguimos espreitar, dissecar até ao âmago: conhecer fraquezas, taras, sonhos, frustrações, ambições. Tudo aquilo que nos torna humanos, mas que muitas vezes revestimos com uma grossa camada de verniz para melhor podermos viver em sociedade.

 

Havia apenas, por um lado, o pequeno personagem a que a auto-anulação me reduzia e, do outro lado, a minha extrema distância solitária. Entre estes dois pólos, decorria a minha vida de todos os dias. Talvez fosse por isso que se tornava para mim tão duro vivê-la. O dia-a-dia, com as suas obrigações e rotinas, era qualquer coisa que eu tinha de suportar, qualquer coisa que não me satisfazia, qualquer coisa que não tinha sentido para mim e não em fazia feliz. […] Portanto, a vida que eu vivia não era a minha própria vida. Tentava torná-la minha, era essa a minha luta, porque era sem dúvida isso que queria — mas fracassava, o desejo com que ansiava por outra coisa minava todos os meus esforços.
Página 68, A minha luta:2

 

No entanto, aquilo que é o mais atraente nesta obra, é também aquilo que ela tem de mais irritante. A verdade é que não estamos (falo de mim, enquanto leitora) totalmente preparados para ler, a cru, todo aquele tipo de pensamentos que também temos, mas que nunca, jamais, em tempo algum confessamos a alguém. E quando aquele que nos confessa os inconfessáveis é alguém real, um ser humano e não uma personagem de ficção, há um certo choque nessa leitura, um desconforto.


O facto de o autor confessar a atração sexual por várias mulheres quando empurra estrada abaixo o carrinho com a sua filha e tendo em casa a mulher à espera com a sua bebé, é desconcertante. Quando, estando descansado a ler um livro num café e apesar de ter passado muito da hora em que prometera voltar a casa, admite que não lhe apetece regressar para junto da família, é revoltante. E quando, perante um certo olhar recriminatório de uma empregada da caixa do supermercado (por não ter comprado um saco de compras) ele diz que não se importava com o que aquela pessoa pensava dele, porque ela era gorda, tudo em mim, como leitora, sofre um certo choque.


E, de resto, que me importava o que a empregada pudesse pensar de mim? Era tão gorda.
Página 102, A minha luta:2


Todos nós já tivemos pensamentos que surgem impulsionados por estereótipos e preconceitos vários. Antes de os confessarmos, esses pensamentos sofrem uma recriminação interna, porque os nossos códigos de ética e moral os refreiam. Jamais nos vemos a oralizar certas mediocridades que o nosso cérebro criou. Karl Ove fá-lo, como se tivéssemos um acesso privilegiado ao seu pensar antes de qualquer filtro ético atuar. E essa opção narrativa serve para expor as fragilidades, mas também as arrogâncias, os preconceitos. E se isso nos aproxima do autor como raramente nos aproximamos de alguém, sentimos ainda uma certa repulsa associada a essa aproximação. Ninguém é perfeito, sei-o, mas vê-lo escarrapachado assim, nas páginas de um livro, é desconfortável.

 

Se, por um lado, há originalidade na forma como Knaugård expõe a sua luta, por outro, por vezes sinto que seguimos um certo caminho de reality show, como se assistíssemos pacientemente a um personagem (que embora real, também tem muito de virtual) fechado dentro de uma casa, a viver a sua vida, com todas as grandezas e mesquinhices a que as vidas têm direito, tudo em frente aos nossos olhos.


E se essa sensação de exposição básica de reality show não vai aos extremos, é porque Karl Ove é hábil na sua criação literária. Consigo perceber o que ele pretende, consigo perceber o que ele me quer dizer, mas custa-me a aceitá-lo — «És como eu. Olha bem para ti. Não te esquives à observação. Não floreies o quadro com adereços desnecessários. Isto és tu e eu consigo vê-lo.»

 

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A minha luta:2, Um homem apaixonado — Karl Ove Knausgard, editora Relógio d'Água.

Tribunal da Relação do Porto e as viagens no tempo gratuitas

Quando há uns tempos, fiz uma investigação bibliográfica aprofundada para a minha tese de mestrado sobre os manuais de conduta para as mulheres (1900-1950) e deparei-me, como seria de esperar, com um sem fim de livros da época de cariz extremamente machista, contra a emancipação feminina, conservadores, embrulhados na infalível proteção religiosa, exultantes na sua fúria da defesa da «moral e bons costumes». A imagem da mulher, que exigia ser preservada a ferro e fogo, era a da mulher submissa, esposa dócil, dona de casa, um exemplo de virtudes e de subjugação, um ser que não ouve, não questiona, só obedece. Linhas e linhas disto, deste discurso repetido até à exaustão por certas personalidades da época que, vendo os avanços emancipatórios no exterior, temiam que tal coisa assolasse a bela pátria lusitana.


No entanto, a minha habituação a este discurso é de o ver escrito em livros antigos, com o acordo ortográfico de 1911, numa linguagem que me remetia ao passado. Um discurso ligado a páginas amarelecidas, livros de capa dura, palavras encerradas há décadas em estantes de bibliotecas. Tudo aquilo eram reminiscências de tempos idos que não tinham como nem porquê voltar.


Quando, este fim de semana, me deparo com um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, do juiz desembargador Neto de Moura, relativo a um caso de violência doméstica, todas aquelas palavras, frase por frase, tal e qual como se estivesse a olhar para um livro com cem anos, estavam lá escarrapachadas: a violência desculpada pelo adultério, a gravidade do adultério feminino, a ofensa à honra do homem, as constantes referências à bíblia, tudo aquilo era uma viagem ao passado, uma viagem no tempo de forma gratuita.


Julgava eu que a distopia era opção literária, afinal também é recurso judicial. Admirável mundo novo com cheiro insuportável a mofo…

Tribunal porto.jpg

Excerto do acordão de 11/10/2017, do Tribunal da Relação do Porto, escrito pelo Juiz Desembargador Neto de Moura e assinado também pela Juiza Maria Luísa Abrantes. O acordão pode ser consultado na sua totalidade aqui

De salientar que é possível encontrar argumentação semelhante usada pelo Juiz Neto de Moura noutros acordãos redigidos por ele.

Dunkirk — OST by Hans Zimmer

Ando sempre fora de tempo, atrasada nos meus textos sobre as novidades, as tendências, seja na música, na literatura, nas opiniões, no cinema.


Falar do filme Dunkirk em outubro, quando o mesmo saiu em julho ou agosto, é daquelas coisas que não devem interessar nem ao menino jesus. Mas apetece-me. E é quanto basta para eu escrever um texto. Na realidade, este post nem é uma crítica ou avaliação ao filme. A vontade de falar de Dunkirk nasceu da audição da banda sonora, da autoria do compositor Hans Zimmer. Confesso-me uma apreciadora das bandas sonoras de Zimmer e ainda mais daquelas em que ele teve colaboração de Lisa Gerrard, uma das minhas vozes preferidas (não é o caso deste filme). Não raras vezes ouço as bandas sonoras sem sequer conhecer o filme para o qual foram compostas.


Embora o trabalho de Zimmer seja sempre, em certo ponto, uma composição sem falhas, que «casa» bem com a imagem, nem todas as composições poderão ser chamadas de memoráveis, passíveis de serem perpetuadas na memória de quem as ouve/vê. Existem, no entanto, algumas que, mesmo passando os anos, mas mais depressa me lembro da banda sonora de Zimmer do que da história, do filme em si.


Quando fui ver Dunkirk — coisa rara, porque ultimamente não sou grande frequentadora de salas de cinema — o que de imediato se tornou evidente era a presença imposta, incómoda, da banda sonora. E quando digo incómoda, não é de todo uma crítica. Quando um filme retrata acontecimentos extremos, de enorme tensão, aquilo que o realizador, o argumentista, o compositor quer não é sentir indiferença por parte do público, é incomodá-lo, arrastá-lo para o pântano emocional daquela história, fazê-lo passar as mesmas amarguras que aqueles personagens, aterrorizá-lo, meter-lhe medo, tirá-lo da sua rotina. No entanto, somos constantemente bombardeados por emoções no nosso dia a dia, de tal forma que quase nos tornamos indiferentes, cada vez mais difíceis de perturbar, tornando a tarefa dos criativos, criadores cada vez mais difícil.


A banda sonora, nos filmes, sempre serviu para reforçar o tom emocional pretendido, gerir as emoções da narrativa cinematográfica. Um clímax nunca será um clímax «a seco», sem som; uma perseguição, o medo do perseguido, nunca chegará a medo sem a ambiência criada pela banda sonora (mais não seja, na gestão dos silêncios).


O que surpreende nesta banda sonora é que ela não aparece aqui e ali. Ela está sempre (serão, no total, um par de minutos, os momentos do filme em que a banda sonora desaparece). É uma presença tão esmagadora que não é apenas uma banda sonora, é uma personagem em si. E num filme com vários personagens, várias histórias paralelas, onde nenhum personagem é destacado, afirmado como personagem principal, poderei declarar sem exagero que a personagem principal deste filme é, sem sombra de dúvida, a composição sonora de Zimmer. 


Não direi que sem esta banda sonora o filme nada era, mas sem esta banda sonora, nenhum espetador teria saída das salas de cinema em profunda agitação, em lágrimas, aterrorizado, estupidificado com as contradições humanas.


Ouvindo «The mole» ou «supermarine», surge um quase apelo suicida, um desespero que, apanhando o ouvindo desatento, o fará necessariamente chorar. É esta subjugação, este saber-se manipulado pela emoção, transportado para fora do Agora, ou antes, inundado no Agora por um rol de emoções/pesadelos que não pertencem ali, que tornam esta banda sonora tão especial. Claro que há um uso sonoro de certos elementos que favorecem este descontrolo emocional. Sejam sons semelhantes a metralhadoras, um tic-tac de um relógio, um pulsar de um batimento cardíaco, a precursão acelerada que nos leva a um sentimento de urgência, perigo constante, que transportam o ouvinte a um ambiente acossado, de guerra, no limite da resistência humana.


Nolan e Zimmer tiveram um casamento perfeito com Dunkirk, mas como a composição de Zimmer vive plenamente sem o filme, como a música chama por mim sem necessitar do auxílio das imagens que a inspiraram, terei de bater palmas de pé a Zimmer.

 

OST Dunkirk — The mole, Hans Zimmer

 

 OST Dunkirk — Supermarine, Hans Zimmer

 

A escola, máquina corporativa

— Mãe, odeio a escola!

 

Estas palavras, mais um rol de outras tantas de semelhante sentido, são desfiadas todas as manhãs, como uma ladainha lamurienta de alguém que se sente acossado.
Esta aversão do meu filho à escola entranhou-se de tal forma, que o rendimento escolar dele é medíocre, frustrando-o ainda mais, causando uma revolta interna que leva a vómitos matinais, choro, um desalento generalizado.
Tentando ir à génese do desconforto, que já vem de anos anteriores, percebe-se que todo o sistema, a forma como a informação lhe é transmitida, é desinteressante, pouco motivadora, levando-o à distração e consequente mau desempenho.

 

— Mãe, a escola é uma seca. Ter de estar para lá parado, sentado, quieto a olhar para o quadro e para os livros…

 

Desde o primeiro ano do ensino básico que a meta pedagógica consiste em «despejar» uma determinada quantidade de informação para o aluno absorver. Um aluno padrão talvez consiga (consegue) processar essa informação, decorá-la, interioriza-la sem questionar. Outros tantos alunos, ainda crianças em idade de se perderem em brincadeiras, têm maior dificuldade em «engolir» tal quantidade informativa, sendo que muitas vezes essa incapacidade aparece não por dificuldades cognitivas, intelectuais, mas precisamente pelo oposto. O espírito crítico, inquisitivo do meu filho, leva-o a questionar-me, constantemente, do porquê. Qual a razão dele ter de aprender de rajada tanta coisa, por que motivo tem de ir à escola, por que motivo tem de estar quieto e parado, para que serve aquilo que lhe ensinam diariamente e ele teimosamente ignora.

 

— Mãe, parece que estou na prisão. O que eu que eu fiz para ter de estar nesta prisão?

 

Este meu desabafo não se enquadra, de maneira alguma, numa crítica à classe dos professores. Olhando para o exemplo da professora do meu filho, ela tem, numa mesma sala, à sua responsabilidade, duas turmas: uma de primeiro ano e outra de segundo ano (a do meu filho). A turma de primeiro ano é, obviamente, um desafio de grande exigência para qualquer professor. A turma de segundo ano, de alunos mais velhos, não ficará à deriva, mas apenas com orientações gerais, com menor apoio personalizado. Isto acontecerá em todas as turmas de anos mistos ou com maior número de alunos. Não há espaço para a personalização de apoio às necessidades educativas dos alunos, da perceção dos seus problemas, das suas angústias. Socialmente e até dentro do sistema, o aluno que não acompanha o ritmo estipulado pelo programa é um aluno problemático, distraído, desinteressado, burro.

 

Em casa, sozinha, pergunto-me como o poderei motivar, como poderei transformar a aversão em diversão, mas é difícil quando eu própria não acredito nesta forma de ensino. Um ensino que não se apoia de forma alguma na criatividade, no espírito inquisitivo, na demonstração prática, na individualidade, unicidade do aluno.

 

— Mãe, para quê tentar se vou falhar de qualquer das maneiras? Mais vale desistir…

 

Todo o apoio para o meu filho terá de ser (e está a ser) exterior à escola porque esta não está preparada para o ajudar, não está preparada para a exceção (que nem será tão exceção assim). A exceção encrava a engrenagem do sistema, não interessa a ninguém. Neste momento a escola funciona como uma grande máquina corporativa, burocrática, uma empresa onde os nossos filhos estão empregados a tempo inteiro. Alguns, tal como nós adultos, aguentam e superam a rotina, já formatados desde pequenos para o que há de vir. Outros, questionam, estrebucham, cismam em ser crianças.


Quanto a mim, gostava de lhe poder dizer que a escola é importante, mas talvez, em prol da sua saúde mental me deva focar em lhe mostrar que existe muito mais mundo para além da escola. Que se as perguntas dele, as suas dúvidas e inquietações, não têm resposta na escola, farei de tudo para encontrar essas respostas, essa imensidão de saber, de conhecimento interessante, cá fora, do portão da escola para fora.