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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O humor na luta

Se a expressão «Fora, Temer» é frase de ordem no Brasil da atualidade, palavras icónicas na luta contra o presidente, mostra de rejeição, demonstração de descontentamento, um funcionário de um cemitério resolveu inovar e, ao invés de mandar o presidente embora, resolveu convidá-lo a entrar. No cemitério, claro está.

E bastaram duas palavritas para eu soltar uma gargalhada. O humor, mesmo na luta, é sempre o melhor remédio.

 

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 Imagem retirada daqui.

 

Jornalismo papel higiênico

Se há coisa que me faz soltar umas imprecações, uns quantos palavrões sentidos, é quando o jornalismo, arma essencial numa sociedade moderna e democrata, se tenta armar aos cucos, mandando por água a baixo a sua credibilidade, transformando o que deveria ser uma poderosa arma informativa, num mero rolo de papel higiénico.

 

No meio das notícias que lia, aparece-me à frente uma notícia do jornal Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. Começo por questionar qual o interesse de escrever um artigo sobre a esposa de um candidato às eleições francesas, mas, ainda assim, embora pouco relevante e de cariz fofoqueiro e não informativo, grande mal não viria ao mundo. No entanto, o título, o grande sacana do título, quase me provocou uma apoplexia.

 

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Há algo de absolutamente sexista, misógino neste título, mas o que ainda me enfurece mais é a cobardia implícita pelo uso das aspas. O jornal Observador usou a expressão «barbie com menopausa» para designar Brigitte e, um pouco em jeito de «não fui eu que disse, foram outros senhores», usou as aspas como desculpa pelo abuso. Na realidade, é irrelevante quem usou primeiro a expressão, a repetição de um absurdo não é desculpável pela antecedência desse absurdo. Não é por vários jornais se terem apropriado de uma expressão sexista e redutora de uma mulher que é admissível e desculpável a persistência do uso dessa expressão.

 

Quanto à expressão em si, por mais voltas que o mundo dê, a mulher continua a ter um tratamento diferenciado do do homem, tratamento esse fortemente ligado a uma certa objetivação, ao aspeto físico, a uma certa ideia de família tradicional. Não há escândalo algum em Melania ser uma catrefada de anos mais novo do que Trump, não há drama algum em Marcela ser quase quarenta anos mais jovem do que Temer. A eles, gabam-lhes a capacidade de terem arranjado tão bonitas e jovens esposas, a elas gabam-lhes a juventude e a beleza.

 

Mas o diabo do Macron, grande cromo, foi arranjar uma esposa vinte e picos anos mais velha. É o apocalipse. A ela, apesar de não lhe negarem uma suposta beleza, esfregam-lhe na cara a evidência do envelhecimento, da sexualidade decadente implícita, o uso do «com menopausa» como se de uma doença maligna se tratasse,  a ele chamam-lhe de menino da mamã e tentam arranjar desculpas para tão bizarra escolha: é gay, o casamento é uma fachada.

 

Em suma, tanto num exemplo como noutro, a mulher fica-se pela única dimensão do aspeto físico e apenas essa dimensão é explorada. Sem grande interesse, no caso da juventude (é comum homens poderosos e ricos casados com mulheres mais novas), mas em tom de escândalo quando o oposto acontece: homem jovem casado com mulher mais velha. A nós, mulheres, para estes jornaleiros da atualidade, resta-nos o papel de bibelot, acompanhante de luxo dos senhores políticos, ícone de beleza.

 

Pois é… tanto tempo perdido, tanto computador ligado a gastar energia, e gastam os jornais tempo nestas irrelevâncias constrangedoras e perpetuadoras de estereótipos tristes e ultrapassados.

 

Sabem, o que eu gostaria mesmo de saber é quem é Macron, qual o seu passado político, qual as suas propostas em cima da mesa para o futuro da França, quais as contradições do seu discurso político, quais as soluções e a sua viabilidade, qual a capacidade que demonstra para enfrentar a França pelos cornos. Só isso, nada mais do que isso.

Monty Python’s world

O funcionamento do mundo está cheio de detalhes bizarros camuflados, na maioria das vezes, pelas vestes da normalidade, da banalidade. Mas há certas bizarrias que, por mais maquiagem que se lhes ponha em cima, permanecem absurdamente bizarras aos olhos de quem as quiser ver. Dou por mim a murmurar palavrões ao ler certas notícias, a questionar a verosimilhança da realidade onde me insiro, a verdade deste meu agora.

 

Neste último domingo, a Arábia Saudita foi eleita para a Comissão para os Direitos das Mulheres da ONU. A eleição deste país para esta comissão é de tal forma aberrante que roça o absurdo, a comédia hilariante. É um pouco como eleger um pedófilo para a comissão dos direitos das crianças ou um traficante de droga para a comissão da luta contra o tráfico de estupefacientes. Arábia Saudita e Direitos das mulheres são um paradoxo, a antítese um do outro, o que torna esta eleição uma aberração pública, uma anedota.

 

Num país onde as mulheres são consideradas um subproduto humano, um ser subserviente do homem, onde não podem conduzir, onde não podem estudar, trabalhar e viajar sem autorização de um homem, votar em todas as eleições, a escolha deste país para uma comissão que pretende acabar exatamente com esse tipo de abominações no que concerne os direitos das mulheres é, acima de tudo, uma autêntica descredibilização da ONU, transformando um organismo que deveria ser de relevância, numa anedota.

 

Relembro ainda que este mesmo país foi reeleito no ano passado, em outubro de 2016, para o conselho de direitos humanos da ONU. O poder de determinadas nações (poder económico, estratégico, político) acaba por ter mais peso, ser mais relevante do que qualquer facto, do que a evidência das atrocidades cometidas. Num país onde os ateus são considerados terroristas (com penas equivalente àqueles que praticam terrorismo na verdadeira aceção do termo), os direitos humanos são como um tapete onde a Arábia Saudita limpa os pés.

 

Quando vemos as urgências do mundo e quando percebemos as estratégias adotadas por organismos que deveriam zelar pela resolução eficaz dessas urgências, percebemos que isto está tudo mesmo fodido (pardon my french).

 

No fundo, estamos todos metidos dentro de um filme dos Monty Python. Que o absurdo nos possa, pelo menos, parecer comédia. Se rirmos, não dói tanto.

 

 Monty Python - A vida de Brian (stoning scene)

Prazeres abençoados

Os senhores da Vista Alegre resolveram criar uma imagem da nossa senhora de Fátima com a finalidade de levar as fieis mais céticas a conseguir ver a luz e a sentir, nas suas próprias casas, uma experiência divina.

 

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Imagem retirada do site da Vista Alegre.

 

Pessoalmente, considero a escolha de materiais infeliz, mas sendo a Vista Alegre a empresa que é, conhecida pelo uso da cerâmica e vidro, seria ignorância minha esperar a preferência por um material como a borracha ou o látex. Cada um faz o que pode com aquilo que tem.

 

O preço também é um pouco abusivo. Mesmo tratando-se de uma quase garantia de uma experiência transcendente ao mais alto nível, já vi por aí coisas mais bem modeladas, com um aspeto mais apelativo e a um preço mais razoável. Mas o negócio é o negócio, independentemente das crenças envolvidas.

 

Por isso, aos interessados, aqui fica uma dica de uma compra abençoada.

Memórias históricas reprimidas — o massacre dos judeus em Lisboa em 1506

511 anos separam o dia de uma matança brutal na capital portuguesa, uma nódoa histórica difícil de enxaguar, do dia de hoje. Uma enormidade de tempo, mas, paradoxalmente, não o tempo suficiente para que as gerações que devieram aprendessem a não alimentar o ódio com os seus medos.

 

A seca, a fome e, não bastando, a praga da peste, assolavam Portugal em 1506. Alguns anos antes dessa data, entraram no país, expulsos de Espanha, dezenas de milhares de judeus, ao abrigo da tolerância do monarca português para com a comunidade judaica. A pressão exercida pelos nuestros hermanos levou, no entanto, a que os recém-chegados fossem obrigados posteriormente a converter-se ao cristianismo. Seria isso o suficiente para que a comunidade local os olhasse de igual para igual?

 

No convento de S. Domingos em Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, rezava-se pelo fim dos tormentos que assolavam o país, rezava-se pelo fim da peste, pela chegada da abundância que matasse a fome. Um reflexo, uma alucinação momentânea, um qualquer efeito luminoso, levou alguém a exclamar ter visto o rosto de Cristo iluminado no altar. Um sinal divino de misericórdia, um milagre, portanto. No meio de uma atmosfera de devoção alguém ousou, na sua inocência, questionar aquele assombro luminoso. Um cristão novo tentou explicar que aquele suposto milagre nada mais seria do que um reflexo promovido por uma das fontes de luz no local. E naquele momento, naquele local, iniciou-se um dos episódios mais negros da nossa história. Aquele que ousou questionar foi espancado ali mesmo até à morte e, aquela multidão enraivecida, movida pelo ódio, contagiou toda a cidade que, nos dias seguintes, perseguiu, torturou, espancou, matou milhares de judeus, estando o número total de mortos estimado, por alguns historiadores, em 4000.

 

A ausência do rei, que teria ido a Beja visitar a mãe, a incitação dos dominicanos, que viam nos judeus o bode expiatório perfeito para a causa da fome e da peste, as suas promessas de absolvição dos pecados para aqueles que matassem os hereges, o ódio recalcada da própria população que via nos judeus, aqueles que não pertenciam, que eram exteriores ao grupo, a causa da desgraça que assolava as suas vidas, todos estes grandes pormenores serviram de acendalha à histeria assassina dos três dias de matança. Perseguições, espancamentos, fogueiras improvisadas no Rossio, onde pessoas foram queimadas à moda da inquisição (que ainda estava para vir), todo um cenário dantesco impossível de ser detido pelas autoridades locais, que só acabou quando a fúria chegou ao ponto de saciedade.

 

Olhando para a atualidade, sente-se este estranho déjà vu histórico. Há uma espécie de atração fatal pela culpabilização dos recém-chegados, daqueles que supostamente não pertencem ao grupo, à tribo e todos os males do mundo lhes podem ser atribuídos, desde aqueles que poderão ter algum tipo de relação causa/efeito, àqueles completamente aleatórios ou de ordem mais mística e abstrata.

 

Entre 1506 e hoje, nada mudou. Não queimamos pessoas em praças públicas, mas somos hábeis em «queimá-las» em lume brando, numa sopa de ódio, acusações, medo, humilhações e exclusão.

 

E talvez doa olhar para trás e perceber que somos descendentes de uma horda de assassinos, de facínoras sanguinários, de pessoas cujos medos alimentaram um ódio tal que as levou a ações irracionais de grande violência. Mas é essa a realidade. A única maneira de impedir a repetição dos erros é ter uma plena consciência desses mesmos erros, interiorizar as falhas, olhar abertamente ao espelho o eu social, histórico, cultural destruidor. Enquanto povo, perseguimos, massacrámos, matámos, fomos dominados por um ódio cego infundado. Não esquecer, reavivar a memória, serve como um alerta constante para o que há de vir.

 

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 Lisboa, 19 de Abril de 1506 - O massacre dos Judeus, de Susana Bastos Mateus e Paulo Mendes Pinto, Alêtheia Editores

 

O fim do abate nos canis municipais

Ando há uns dias para escrever sobre este assunto, mas optei por deixar assentar o pó da irritação que inicialmente me invadiu de forma a conseguir escrever sobre o tema de uma forma mais objetiva e menos passional (o mais certo é esta minha intenção sair frustrada).

 

Foi aprovada na semana passada uma nova legislação que vem proibir o abate de animais em centros municipais, que tem sido usado até agora como forma de controlo da população animal ou sobrelotação. A nova lei prevê apenas a eutanásia de animais com a justificação de problemas de saúde ou de comportamento e sempre através de um ato médico, praticado por um veterinário e de forma indolor para o animal. A lei, apesar de entrar em vigor daqui a um mês, prevê um espaço temporal de dois anos para que sejam criados centros de recolha oficiais onde os animais recolhidos das ruas permaneçam até possível adoção.

 

Pareceu-me uma medida louvável, até porque, no que diz respeito ao abandono animal e mau trato animal, o nosso país tem comportamentos que classificaria típicos de países do terceiro mundo. Para além de uma óbvia falta de consciência por parte de uma fatia considerável da sociedade sobre como tratar os seus animais domésticos, a forma como funciona a recolha/reabilitação e encaminhamento para adoção de animais abandonados ou vadios é também ela bastante deficiente, uma espécie de varrer o problema para debaixo do tapete.

 

A grande parte dos municípios não tem canil, os que o têm, uma parte deles funciona de forma obscura. Li ainda na semana passada o relato de uma pessoa que vive no mesmo distrito que eu, queixando-se que o seu cão tinha desaparecido e tentando procurá-lo no espaço onde supostamente existia o canil municipal do seu município, encontrou apenas um barracão sem qualquer funcionário nem aviso sobre horário de atendimento. Depois de telefonar várias vezes para a câmara municipal, conseguiu falar com o responsável pelo canil (um senhor com mais talento para trabalhar num açougue do que com animais domésticos vivos) que lhe disse não ter tempo de ir com ela ao espaço para que ela pudesse verificar se o cão dela lá estava.

 

Como esta denúncia, existem milhares. Animais recolhidos que desaparecem misteriosamente às mãos de funcionários camarários, recolhas de animais e encaminhamento sistemático para canis de abate.

 

Excluindo estas situações, as recolhas, alimentação, alojamento e encaminhamento para adoção dos vários animais abandonados estão a ser promovidas essencialmente por associações, que sobrevivem apenas e só devido a uma grande dose de altruísmo e dedicação por parte dos seus voluntários. Pegando no caso da associação existente no meu concelho, não fosse o amor condicional aos animais por parte dos seus voluntários, centenas de animais teriam sido encaminhados para o canil de abate de Ílhavo, que até há pouco tempo tinha um acordo de cooperação com a minha câmara municipal. No entanto, o trabalho desta associação e certamente de todas as outras, afigura-se uma autêntica batalha diária. São as despesas com a alimentação e desparasitação que não param de crescer, a falta de espaço, as despesas veterinárias dos animais feridos que são recolhidos, as despesas das esterilizações que são feitas, a promoção diária nas redes sociais para a adoção responsável.

 

Mas voltando à questão da aprovação da lei do fim do abate, o presidente da câmara de Aveiro, capital do meu distrito, após a aprovação da lei de que falo acima, veio mostrar a sua indignação, criticando a proibição de abate de animais. Durante vários anos, os animais recolhidos em Aveiro foram reencaminhados para o canil de Ílhavo, com quem a câmara de Aveiro tinha um acordo de cooperação. A câmara de Aveiro teve o seu canil fechado pela Direção geral de veterinária em 2012, por falta de condições básicas. Este acordo de cooperação permitiu à câmara ver-se livre do problema de forma elementar, sem se dar muito ao trabalho. Os animais eram apanhados e enviados para Ílhavo e lá, grande parte deles foram mortos. Em quatro anos, o número de animais mortos pelo canil de Ílhavo chega a 1000 animais. Num ano, e pelos vários canis municipais do nosso país, são abatidos cerca de 100.000 animais.

 

Para Ribau Esteves, a preocupação pela vida animal nunca terá sido ponto de agenda essencial no seu município. Se até agora conseguiu desviar o problema para mãos alheias, com a mudança da lei e com a revogação unilateral do acordo com o canil de Ílhavo, vê-se agora obrigado a enfrentar e solucionar o problema. Como é óbvio, a solução não é mágica como tem sido a solução provida pelo abate. Mata-se o cão, o problema desaparece, apesar de ser um problema recorrente, crónico. Na realidade, a única coisa que separava certos canis municipais de um matadouro, é que os animais ali mortos não são para consumo humano. De resto, o comportamento para com o animal é em tudo semelhante.

 

O nosso canil não vai ser elástico e a produção de cães vadios é muito alta e não se vai resolver com legislação insensata. Muda o problema e não o resolve.

Palavras de Ribau Esteves numa reunião camarária. A expressão «produção de cães vadios» é esclarecedora da forma um tanto enviesada como o autarca aborda o tema.

 

Olhando para os casos de países onde o abandono de animais é marginal e o problema está dado como erradicado, percebe-se que a solução a adotar não pode ser uma solução a curto prazo, instantânea. Tem de ser a combinação de vários fatores que a médio/longo prazo trarão a desejada erradicação do abandono e dos animais de rua.

 

É necessário promover-se a consciencialização das pessoas para o bem-estar animal e isso deveria ser feito desde a tenra idade. Mais do que a punição criminal pelo mau trato ou abandono (necessária, mas muitas vezes difícil de provar e aplicar), melhor será a promoção da mudança de mentalidades.

 

Tal como aprovado, deveria existir centros especializados para a recolha dos animais, que promovessem a total esterilização das fêmeas e identificação dos animais que seguiriam para adoção. As situações obscuras de vão de escada têm de acabar.

 

Se estes centros forem planeados convenientemente, ao prestarem serviços veterinários pagos aos animais da sua zona, venda de produtos farmacêuticos e alimentares veterinários, poderão em parte financiar o próprio centro.

 

Deveriam ser feitas campanhas de forma ativa que promovessem a adoção responsável, mesmo por parte de entidades coletivas como lares, escolas, empresas, etc.

 

Para terminar, enquanto certas pessoas, tal como o Sr. Ribau Esteves, virem os animais de companhia como chouriças que saem de uma fábrica de enchidos e não como seres sencientes, talvez seja utópico almejar uma mudança drástica na forma como a sociedade trata os seus animais. No entanto, tentemos pensar na resolução deste problema como uma corrida de fundo, um problema que começa a ser resolvido nas suas raízes para ter resultados efetivos e permanentes a longo prazo. A meu ver, a nova legislação, se conveneintemente aplicada, contribuirá para que isso aconteça.