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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Rendas da natureza

Encontrei esta folha no meu quintal e pareceu-me uma obra de arte da natureza, um exemplo de como a destruição, o caminho para o aniquilamento, também encerra em si uma grande beleza. A beleza do fugaz, daquilo que é finito.

 

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Fotografia: Sónia Pereira

QUASE benfiquista, QUASE psicopata

As declarações do nosso PR Marcelo Rebelo de Sousa, de que era QUASE feminista, deixaram-me cheia de dúvidas existenciais.

 

Eu sou portista, o meu marido é benfiquista. No entanto, quando o Benfica joga em competições europeias, eu torço pelo Benfica. Afinal, é um clube português e sempre é bom ver o meu marido feliz com uma vitória da sua equipa. Serei QUASE benfiquista?

 

Quando conduzo, detesto aqueles condutores que não fazem uso dos piscas do seu veículo para assinalaram desvios ou orientações de marcha, seja em rotundas, cruzamentos ou ultrapassagens, deixando os outros condutores feitos parvos, à espera, sem saberem se podem avançar ou não. Nessas alturas, fico com uma vontade doida de esfrangalhar aquelas pessoas à porrada e partir-lhes o carro todo com uma picareta, pelo desplante do desrespeito pelos outros. Segundos depois, aquela sensação passa, mas… serei QUASE psicopata?

 

Também sou menina para falar com a minha cadela e por vezes, confesso, faço uma vozinha em falsete como se ela me estivesse a responder. Não é coisa que faça em público, mas sim num domínio privado, no conforto do meu lar. Serei QUASE maluca?

 

Ficam as excruciantes dúvidas…

Com AO ou sem AO

Comecei a usar o novo acordo ortográfico por imposição e não opção. Quando fui fazer um mestrado, o uso do AO era obrigatório e a sua não aplicação tinha repercussões drásticas, dado que algumas disciplinas, como Revisão de Texto, tinham a sua avaliação diretamente ligada à utilização do novo acordo. Neste momento, acabo por escrever maioritariamente com o novo AO, embora intermitentemente, por razões diversas, escreva sem AO.

 

Compreendo a celeuma quase generalizada contra o AO90. Embora concorde que algumas soluções são positivas, muitas outras parecem-me um pouco inconsequentes. Ressalvo que este meu ponto de vista é o de uma mera utilizadora da língua escrita, não me apoiando em nenhuma análise lexicográfica ou linguística, pois não tenho competência académica para fazer tais análises.

 

Será fácil encontrar uns quantos exemplos um pouco desconcertantes que, de certa forma, acabam por descredibilizar o novo AO, sendo que as novas soluções ou se assemelham a palavras já existentes, mas com uma sonoridade diversa, ou a retirada das consoantes mudas, que muitas vezes serviam para «abrir» a vogal que se seguia, altera a perceção da forma de pronunciar devidamente a palavra.

 

Pára — Para (igual à preposição para. Duas palavras homógrafas, mas não homófonas);

Recepção — receção (semelhante à palavras recessão, embora com diferente pronúncia);

Afecto — afeto (que, sem a presença da consoante muda, dever-se-ia ler com a vogal fechada: afêto).

 

No entanto, esta minha publicação não é para indicar as más soluções do AO90, mas mais para refletir sobre as formas de luta de quem se lhe opõe. Se algumas figuras públicas de relevo e com competências na área da língua portuguesa são honestas opositoras à aplicação do novo acordo, fazendo usos de bons exemplos que ilustram a sua oposição, uma vasta quantidade de pessoas que se diz opor ao AO90 fá-lo com puro desconhecimento de causa. Este desconhecimento acaba por ridicularizar a luta por uma alteração/correção ou anulação do novo acordo, assim como criar falsos exemplos que não se aplicam.

 

A utilização da palavra fato (facto), que alguns dão como exemplo de alteração trazida pelo AO, é um exemplo não aplicável. A palavra continua com a mesma grafia de antes (facto), não sofrendo qualquer alteração. Todavia, este exemplo é referido frequentemente de forma informal entre pessoas que discutem o novo acordo e consequentes alterações. A utilização deste exemplo mostra apenas desconhecimento e sem conhecimento do que mudou é impossível uma luta digna por qualquer tipo de alteração ao AO90.

 

Também o uso de palavras com erros ortográficos é usado para desacreditar o novo acordo. Embora se possa argumentar que algumas alterações possam potenciar o surgimento de certo tipo de erros ortográficos, estes não são consequência direta do acordo, são apenas e só erros ortográficos. Numa página de facebook que luta contra a aplicação do novo AO, foi dado o exemplo da palavra fição, que apareceu escrita desta forma num órgão de comunicação social. Neste caso, trata-se de um erro do canal televisivo, pois a palavra ficção manteve a grafia de antes e a subtração de um C à palavra é um erro grosseiro e nada mais.

 

Resumindo, qualquer que seja a nossa posição perante o AO90, convém que seja fundamentada e não mera preguiça de tentar perceber o que mudou. Se a posição é de oposição, não é com exemplos não aplicáveis que essa oposição será eficaz, bem pelo contrário. O uso de maus exemplos mina o discurso, desacreditando-o.

 

Noam Chomsky — Mudar o mundo

Neste livro estão reunidas várias conversas entre Noam Chomsky e David Barsamian sobre temas fundamentais do século XXI. Chomsky, linguista, filósofo, faz uma análise séria e relevante sobre o futuro da democracia, sobre jogos de poder e guerra de países como os E.U.A., sobre a evolução da extrema-direita, sobre a deterioração da educação pública e  a segurança social, assim como o novo ativismo político e social como o Occupy Wall Street, passando ainda pelos novos sistemas de propaganda com roupagens modernas de Marketing.

 

 

O poder privado não gosta da educação pública, por vários motivos. Um é o princípio no qual se baseia, que é ameaçador para o poder. A educação pública fundamenta-se num princípio de solidariedade. […] Isso é contrário à doutrina de que devemos simplesmente cuidar de nós mesmos e deixar que todos os outros se danem, um princípio básico das regras empresariais. A educação pública é uma ameaça a esse sistema de crenças porque pressupões um sentido de solidariedade, de comunidade, de apoio mútuo.

[…] Mas a educação pública e a Segurança Social são resíduos de uma conceção perigosa de que estamos todos no mesmo barco e que temos de colaborar para criar melhores condições de vida e um futuro melhor. Quando se está a tentar maximizar os lucros ou o consumo, a colaboração passa a ideia errada. Tem de ser escorraçada da mente das pessoas.

A solidariedade dificulta o controlo das pessoas e impede-as de serem objetos passivos do poder privado. Por isso é necessário ter um sistema de propaganda que anule quaisquer desvios ao princípio da subjugação aos sistemas de poder.

Noam Chomsky, Mudar o mundo, Pág. 45

 

 

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Mudar o mundo — Noam Chomsky, Bertrand Editora

 

 

 

Nomes e números

Um atentado na Turquia e um atentado na Costa do Marfim não rendem notícias além de 24 horas. Um atentado em Paris rende semanas de diretos televisivos, reportagens escritas, peças radiofónicas, reflexões sobre o sentido da vida, sobre o escalar da violência no ocidente, notícias sobre a sorte dos que escaparam e sobre o infortúnio dos que pereceram.

 

Num atentado na Turquia ou na Costa do Marfim não morrem pessoas, morrem números — números de mortos. Num atentado de Paris, o número tem nome, o número é Jean Pierre, Marie ou Maurice, o número tem história, tem família, tinha sonhos e aspirações. Num atentado além Europa ocidental, o número é apenas e só parte de uma equação (o diabo de uma subtração).

 

E se um atentado na Turquia ou na Costa do Marfim sobreviver a 24 horas de notícias, será apenas para frisar que nenhum cidadão português por lá morreu, que nenhum nome de sonoridade familiar sobressaiu daquela lista de números, daquele somatório de corpos.

Os quatro livros da mulher

 

Em 1909 começam a ser editadas em Portugal as traduções da tetralogia de Paul Combes, com o título geral de Os quatro livros da mulher e durante quase cinquenta anos os quatro livros que compõem esta obra são reeditados por diversas editoras portuguesas. O livro da esposa, O livro da mãe, O livro da Educadora e O livro da dona-de-casa são obras que pretendem modelar a mulher nas únicas quatro facetas que lhe estavam socialmente disponíveis — esposa, mãe, educadora (dos próprios filhos) e dona-de-casa.

 

Se noutros países da Europa e além Atlântico, nos E.U.A., a luta pela emancipação feminina era já um fenómeno expressivo desde o início do Seculo XX e que tinha eco nas publicações editoriais dirigidas às mulheres, por cá, em Portugal, alguns livros de carácter emancipatório tiveram ainda a oportunidade de chegar ao prelo, mas após a constituição do Estado Novo, em 1933, as publicações dirigidas às mulheres resumiam-se a edições redundantes de carácter formativo, que tentavam colocar a mulher no local que Estado e sociedade da época lhe achavam devido — o lar, como dona de casa, esposa e mãe.

 

Assim, apesar de Paul Combes ter escrito uma obra em finais do século XIX, inícios do século XX, que poderia ser considerada desatualizada, fundamentalista e sexista, chegando aos anos de 1950, esta obra ainda era publicada no nosso país, formatando as mulheres da época, reduzindo-as a um papel secundário, subalterno e subordinado ao papel masculino na sociedade da época. Mas Combes não estava sozinho, foram centenas os livros publicados, com diversas reedições, maioritariamente de autoras portuguesas, que funcionavam como manuais de boa conduta, gestão doméstica e educação feminina.

 

Pelos anos de 40 e 50 do século XX, no que diz respeito à publicação de autores estrangeiros nesta área específica da edição dirigida a leitoras do sexo feminino, os que permaneciam reeditados eram aqueles cujas obras tinham edição original mais antiga (edições originais entre 1890 e 1910). Com as mudanças que surgiam internacionalmente, eram escassas as novas obras de índole conservadora publicadas por autores estrangeiros. Orgulhosamente sós, as edições dirigidas às mulheres tentavam a todo o custo manter a mulher portuguesa refugiada num passado conservador, tradicional, onde o lar tinha de chegar para cumprir os seus sonhos e expetativas de vida.

 

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Os Quatro Livros da Mulher, Paul Combes, Editora Educação Nacional

 

 

Mais do que nunca chegou a hora de as educadoras cristãs velarem pelos seus filhos, reagindo contra as modernas tendências tão funestas.

Pág. 125, Paul Combes – O livro da Educadora. Editora Educação Nacional, 1948, 4ª Edição

 

É que o dever – que chamaremos essência – da dona de casa não é trabalhando na vida exterior, por mais nobres e louváveis que apreçam as obras. O seu primeiro dever é a organização, a direção do lar familiar.

Pág. 129 O livro da dona de Casa – Paul Combes, 1934, 4ª edição

 

O mérito da mulher é governar a sua casa, fazer feliz o seu marido, consola-lo, alentá-lo, e educar os seus filhos, isto é, fazer deles homens.

Pág. 10, Paul Combes, O livro da mãe

 

As leis gerais da natureza – confirmadas pelas leis divinas, por meio da Revelação, e pelas leis humanas – assinalam à mulher a missão de companheira do homem.

Pág. 2, O livro da esposa, Paul Combes

 

Jo Nesbø e a leitura compulsiva

Os romances policiais, considerados por alguns críticos como um género literário menor, têm, no entanto, conseguido adquirir um lugar de relevo no mercado editorial nacional e internacional. Dos países nórdicos, impulsionados pelo estrondoso sucesso de Stieg Larsson, chegam-nos nomes como Mons Kallentoft, Camilla Läckberg, Åsa Larsson, Lars Kepler e Jo Nesbø, entre outros. Também os islandeses têm alguns autores em destaque neste género, como por exemplo Arnaldur Indridason ou Yrsa Sigurdardóttir.

 

Todavia, de entre todos estes autores, no campo do romance policial Nesbø é a minha adicção literária. Acompanho-o desde o primeiro livro lançado em Portugal, O pássaro de peito vermelho, e desde essa altura sou uma fiel leitora deste norueguês. Se com outros livros é possível levar a leitura de uma forma faseada, dedicando um par de horas por dia, o diabo do Nesbø não me permite tal coisa. Consigo compreender as estratégias usadas para prender o leitor, um rol de manipulações que durante centenas de páginas, ajudadas por cortes estratégicos de capítulos, nos levam em direções erradas, criando suspeições infundadas, tudo para que o desenlace final seja surpreendente e pouco previsível. Mas mesmo compreendendo que estou a ser ludibriada, não consigo parar de ler e sou menina para despachar um livro de seiscentas páginas em dois ou três dias, levando a leitura a adquirir uns contornos um pouco doentios. Parte do meu fascínio prende-se não só com as estratégias narrativas manipuladoras, mas também com a análise constante da natureza humana, onde convivem polícias alcoólicos, assassinos sem escrúpulos que se confundem com pessoas ditas normais, onde o poder da corrupção e o poder da ambição transformam personagens e onde um filho pode ser um carrasco.

 

No último livro que li do Nesbø, O fantasma, cheguei à última página com uma imensa sensação de perda. Aquele personagem, Harry Hole, que tantas horas de sono me tinha roubado, tanta atenção do meu mundo quotidiano tinha desviado, estava para ali, cravado de balas, como morto. Juro que fiquei umas quantas horas meia apalermada até ter tido a brilhante ideia de usufruir da maravilhosa invenção do mundo moderno — a internet. Teria Hole realmente morrido, seria este o último livro da saga Harry Hole? Depois de uma breve pesquisa, percebi que deveria ser a única leitora de Nesbø que se mantivera na ignorância sobre este assunto até 2016.

 

Felizmente, Nesbø, o meu dealer de policiais, ainda nos presenteará com, pelo menos, mais um livro da saga Harry Hole, o livro Police (na tradução inglesa). Não sei quando chegará a tradução portuguesa, dado que antes disso será publicado a segunda obra do autor (Cockroaches, na tradução inglesa), que ainda não tinha edição portuguesa.

 

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O Fantasma, Jo Nesbø, editora D. Quixote

Mulheres

Por curiosidade, separei os livros de escritoras que li no ano passado, só para descobrir que foram em menor quantidade do que os livros lidos escritos por homens. O mundo, de uma forma geral, continua a ser predominantemente masculino, mesmo quando parece que nas sociedades ocidentais tanto mudou no que diz respeito à igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Essa entoação masculina está de tal forma entranhada que nós, mulheres, acabamos por considerar certas atitudes, maneiras da sociedade funcionar, normais. É normal haver uma predominância de prémios literários atribuídos a homens, é normal haver uma predominância de divulgação de obras de autores masculinos, é normal haver mais autores masculinos publicados do que femininos.

 

Mas todas essas normalidades não conseguem apagar a qualidade do trabalho literário das autoras lidas, a unicidade da sua voz artística e a forma como cada uma destas obras me marcou de forma indelével.

 

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Susan Sontag — Olhando o sofrimento dos outros;

Mrs Dalloway — Virginia Woolf;

O meu amante de domingo — Alexandra Lucas Coelho;

Os interessantes — Meg Wolitzer;

História do novo nome e História de quem vai e de quem fica — Elena Ferrante;

A história secreta — Donna Tartt;

O olhar e a alma, Romance de Modigliani — Cristina Carvalho;

Marguerite Yourcenar — Memórias de Adriano.

 

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