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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A inteligência

Não há como escapar. Todos nós invejamos alguma coisa que encontramos nos outros que nos rodeiam, seja algum bem material que possuam, um dote físico ou intelectual. A inveja, vil sentimento (dizem), pode ser definida como desejar algo que o outro tem e sentir alguma frustração por não o conseguir, mas é ainda possível esticar um pouco o significado e levá-lo onde ele muitas vezes está — desejar algo que o outro tem e, consequentemente, desejar que o outro deixe de o ter.

Olhando para mim própria como exemplo, as minhas invejas foram variando no decorrer da minha vida. Na infância e quase descontroladamente na minha adolescência, a beleza, os atributos físicos que alguns tinham, eram o alvo da minha inveja. Não possuir certos dotes físicos, que invejava em corpos alheios, submergiu a minha adolescência e início da idade adulta em frustrações, baixa auto-estima e um rol de sentimentos de índole negativa que marcaram a negro esse período da minha vida. Consegui, no entanto, ultrapassar essa fase. Como qualquer outra pessoa, tenho momentos de descontentamento com o aspecto do meu corpo, mas não me martirizo por não ter o que esta ou aquela pessoa tem a nível físico. Esse passo em frente levou-me, com os anos, a desenvolver um gosto por o que considero ser uma beleza alternativa (eu sei, poderia ter ficado pelo cliché da beleza interior, mas acabei por deturpar um pouco o conceito). Facilmente me canso do óbvio, da simetria absoluta de um rosto e sinto grande atracção pelos corpos que, de uma maneira ou de outra, tem em si aspectos, detalhes, que embatem de frente com o estereótipo de beleza ocidental.

Quanto à inveja por bens materiais, confesso que nunca fui grandemente assolada por ela, pelo menos, não de forma doentia. Não almejo uma grande conta bancária, carros de luxo, uma casa de dezenas de assoalhadas, hotéis de cinco estrelas. Acho que lentamente fui percebendo o que estava por trás da posse desses bens materiais — uma necessidade de afirmação, de passar uma certa imagem através do que se tem e não do que realmente se é, algo fortemente promovido pelas sociedades ocidentais— ser-se definido pelo carro que se conduz, a casa em que se habita, a roupa que se veste, o telemóvel que se saca do bolso, os restaurantes que se frequenta, as jóias que se usa, o cabelo e as unhas que se ostenta. Não é que não goste de aproveitar certos prazeres da vida, alguns só conseguidos através da posse de dinheiro. Gosto de ir a um bom restaurante, apreciar uma boa comida, um bom vinho. Gostaria de ter dinheiro para poder viajar mais, comprar livros por impulso, quando agora tenho de fazer listas de prioridades e uma selecção prévia, o carro também já merecia ir descansar e dar lugar a um novo, mas este querer não é absolutista, nem me deixa frustrada, permitindo que aprecie o que tenho, sem perder o sono por o que não tenho.

Mas chegando à idade adulta, a caminho dos quarenta, uma outra inveja se revelou, impondo-se. A inteligência, o conhecimento revelado em opiniões expressas, a sagacidade, o espírito crítico, independente, voraz de sabedoria — encontrar tudo isto em certas pessoas faz-me invejá-las de forma compulsiva. Também eu persigo a inteligência, o conhecimento, a capacidade de pensar de forma crítica e independente, mas sentir-me tão aquém do objectivo, tão aquém da inteligência que encontro em algumas pessoas, causa-me imensa frustração. Por mais anos que viva, não chegarei lá (poderei culpar a genética, a educação que tive, a fraqueza actual das minhas capacidades, mas nada mudará a evidência da tarefa hercúlea que tenho pela frente). A meu favor, revelo que esta imensa inveja não me impede de prosseguir na saga da sabedoria, mesmo que de forma desnorteada, sem método, mesmo que o caminho esteja a ser feito com aproximações e sequentes afastamentos. Leio, pesquiso, bisbilhoto opiniões daqueles que são o alvo da minha inveja, descubro novas inteligências a invejar, percepciono a existência de um conhecimento sem fim, que não pára, que se desdobra, e sinto angústia por aquilo que nem sequer vejo, mas que pressinto que ali esteja. Invejo, mas não quero ser acabrunhada pela minha inveja.

Elena Ferrante

Com a literatura, podemos embarcar numa viagem de descoberta de novas coisas, um novo mundo de impressões até então desconhecidas, de questionamentos nunca tentados. Embora o filtro seja o próprio leitor e cada linha não tenha vida própria e seja obrigada a passar pela análise de quem a lê, é-se levado a observar maneiras diferentes de ser, agir e pensar. Personagens cáusticas, indolentes, sociopatas ou subservientes, que habitam em locais prazenteiros, inóspitos, decadentes, idílicos ou infernais, envolvidas em tramas complexas ou de uma simplicidade desarmante.

Pode-se ainda, num contraste com a primeira opção, descobrir o poder da identificação. Neste último caso, não falo de reconhecer semelhanças na personagem de um médico, quando também se tem a medicina como profissão, ou no peso de manter um segredo, quando também se se carrega um. Falo da identificação incómoda. De encontrar, traduzidas em palavras escolhidas pelo mais hábil artesão, num encadeamento de frases desprendidas, mas num paradoxo, incisivas, pensamentos, devaneios, medos, anseios tornados em obsessões, ambiguidades próprias de quem se sente deslocado, todos eles disfarçados, mascarados de uma normalidade aceitável, ou friamente recalcados durante anos. Ler cada linha como se se lesse um livro de memórias ficcionado e fazer-se a mais absurda das descobertas — de não haver nada de único em cada traço deste eu que se tenta apagar, que se julga necessário travestir perante os outros que se comportam de forma tão exemplar.

Se lerem as sinopses dos livros de Elena Ferrante (falo de A Amiga Genial, História do Novo Nome e História de Quem Vai e de Quem Fica, da editora Relógio D’Água), deparar-se-ão com uma história de traços inócuos. Talvez alguns não sintam sequer atracção por tamanha aparente «insignificância». Não teremos tramas policiais, nem amores capazes de sobreviver à morte, nem novos mundos surreais, nem fadas e dragões. Teremos apenas esmiuçadas todas as contradições de se estar vivo, do se querer e deixar de querer, do se tentar alcançar algo, sem nunca lhe chegar a meter as mãos em cima, do não se estar bem em lado nenhum e, por momentos, se estar bem em todo o lado. O esmiuçar de todas as grandezas e fraquezas de que somos compostos.

E a cada página, se por um lado a adição já levou a melhor, impelindo-me a continuar a leitura de forma quase glutona, por outro, um crescendo de um terror até então adormecido envergonha-me, humilha-me, tal é o espaço que ocupa dentro de mim, incitando-me à exposição. Estou ali, de forma absurda, em cada linha, em cada personagem, em cada entoação que depreendo dos diálogos, em cada ambição e frustração.

Quando for grande, quero escrever como a Elena Ferrante.