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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Prazeres abençoados

Os senhores da Vista Alegre resolveram criar uma imagem da nossa senhora de Fátima com a finalidade de levar as fieis mais céticas a conseguir ver a luz e a sentir, nas suas próprias casas, uma experiência divina.

 

N.S.Fátima.jpg

Imagem retirada do site da Vista Alegre.

 

Pessoalmente, considero a escolha de materiais infeliz, mas sendo a Vista Alegre a empresa que é, conhecida pelo uso da cerâmica e vidro, seria ignorância minha esperar a preferência por um material como a borracha ou o látex. Cada um faz o que pode com aquilo que tem.

 

O preço também é um pouco abusivo. Mesmo tratando-se de uma quase garantia de uma experiência transcendente ao mais alto nível, já vi por aí coisas mais bem modeladas, com um aspeto mais apelativo e a um preço mais razoável. Mas o negócio é o negócio, independentemente das crenças envolvidas.

 

Por isso, aos interessados, aqui fica uma dica de uma compra abençoada.

Memórias históricas reprimidas — o massacre dos judeus em Lisboa em 1506

511 anos separam o dia de uma matança brutal na capital portuguesa, uma nódoa histórica difícil de enxaguar, do dia de hoje. Uma enormidade de tempo, mas, paradoxalmente, não o tempo suficiente para que as gerações que devieram aprendessem a não alimentar o ódio com os seus medos.

 

A seca, a fome e, não bastando, a praga da peste, assolavam Portugal em 1506. Alguns anos antes dessa data, entraram no país, expulsos de Espanha, dezenas de milhares de judeus, ao abrigo da tolerância do monarca português para com a comunidade judaica. A pressão exercida pelos nuestros hermanos levou, no entanto, a que os recém-chegados fossem obrigados posteriormente a converter-se ao cristianismo. Seria isso o suficiente para que a comunidade local os olhasse de igual para igual?

 

No convento de S. Domingos em Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, rezava-se pelo fim dos tormentos que assolavam o país, rezava-se pelo fim da peste, pela chegada da abundância que matasse a fome. Um reflexo, uma alucinação momentânea, um qualquer efeito luminoso, levou alguém a exclamar ter visto o rosto de Cristo iluminado no altar. Um sinal divino de misericórdia, um milagre, portanto. No meio de uma atmosfera de devoção alguém ousou, na sua inocência, questionar aquele assombro luminoso. Um cristão novo tentou explicar que aquele suposto milagre nada mais seria do que um reflexo promovido por uma das fontes de luz no local. E naquele momento, naquele local, iniciou-se um dos episódios mais negros da nossa história. Aquele que ousou questionar foi espancado ali mesmo até à morte e, aquela multidão enraivecida, movida pelo ódio, contagiou toda a cidade que, nos dias seguintes, perseguiu, torturou, espancou, matou milhares de judeus, estando o número total de mortos estimado, por alguns historiadores, em 4000.

 

A ausência do rei, que teria ido a Beja visitar a mãe, a incitação dos dominicanos, que viam nos judeus o bode expiatório perfeito para a causa da fome e da peste, as suas promessas de absolvição dos pecados para aqueles que matassem os hereges, o ódio recalcada da própria população que via nos judeus, aqueles que não pertenciam, que eram exteriores ao grupo, a causa da desgraça que assolava as suas vidas, todos estes grandes pormenores serviram de acendalha à histeria assassina dos três dias de matança. Perseguições, espancamentos, fogueiras improvisadas no Rossio, onde pessoas foram queimadas à moda da inquisição (que ainda estava para vir), todo um cenário dantesco impossível de ser detido pelas autoridades locais, que só acabou quando a fúria chegou ao ponto de saciedade.

 

Olhando para a atualidade, sente-se este estranho déjà vu histórico. Há uma espécie de atração fatal pela culpabilização dos recém-chegados, daqueles que supostamente não pertencem ao grupo, à tribo e todos os males do mundo lhes podem ser atribuídos, desde aqueles que poderão ter algum tipo de relação causa/efeito, àqueles completamente aleatórios ou de ordem mais mística e abstrata.

 

Entre 1506 e hoje, nada mudou. Não queimamos pessoas em praças públicas, mas somos hábeis em «queimá-las» em lume brando, numa sopa de ódio, acusações, medo, humilhações e exclusão.

 

E talvez doa olhar para trás e perceber que somos descendentes de uma horda de assassinos, de facínoras sanguinários, de pessoas cujos medos alimentaram um ódio tal que as levou a ações irracionais de grande violência. Mas é essa a realidade. A única maneira de impedir a repetição dos erros é ter uma plena consciência desses mesmos erros, interiorizar as falhas, olhar abertamente ao espelho o eu social, histórico, cultural destruidor. Enquanto povo, perseguimos, massacrámos, matámos, fomos dominados por um ódio cego infundado. Não esquecer, reavivar a memória, serve como um alerta constante para o que há de vir.

 

massacre dos judeus.jpg 

 Lisboa, 19 de Abril de 1506 - O massacre dos Judeus, de Susana Bastos Mateus e Paulo Mendes Pinto, Alêtheia Editores

 

O fim do abate nos canis municipais

Ando há uns dias para escrever sobre este assunto, mas optei por deixar assentar o pó da irritação que inicialmente me invadiu de forma a conseguir escrever sobre o tema de uma forma mais objetiva e menos passional (o mais certo é esta minha intenção sair frustrada).

 

Foi aprovada na semana passada uma nova legislação que vem proibir o abate de animais em centros municipais, que tem sido usado até agora como forma de controlo da população animal ou sobrelotação. A nova lei prevê apenas a eutanásia de animais com a justificação de problemas de saúde ou de comportamento e sempre através de um ato médico, praticado por um veterinário e de forma indolor para o animal. A lei, apesar de entrar em vigor daqui a um mês, prevê um espaço temporal de dois anos para que sejam criados centros de recolha oficiais onde os animais recolhidos das ruas permaneçam até possível adoção.

 

Pareceu-me uma medida louvável, até porque, no que diz respeito ao abandono animal e mau trato animal, o nosso país tem comportamentos que classificaria típicos de países do terceiro mundo. Para além de uma óbvia falta de consciência por parte de uma fatia considerável da sociedade sobre como tratar os seus animais domésticos, a forma como funciona a recolha/reabilitação e encaminhamento para adoção de animais abandonados ou vadios é também ela bastante deficiente, uma espécie de varrer o problema para debaixo do tapete.

 

A grande parte dos municípios não tem canil, os que o têm, uma parte deles funciona de forma obscura. Li ainda na semana passada o relato de uma pessoa que vive no mesmo distrito que eu, queixando-se que o seu cão tinha desaparecido e tentando procurá-lo no espaço onde supostamente existia o canil municipal do seu município, encontrou apenas um barracão sem qualquer funcionário nem aviso sobre horário de atendimento. Depois de telefonar várias vezes para a câmara municipal, conseguiu falar com o responsável pelo canil (um senhor com mais talento para trabalhar num açougue do que com animais domésticos vivos) que lhe disse não ter tempo de ir com ela ao espaço para que ela pudesse verificar se o cão dela lá estava.

 

Como esta denúncia, existem milhares. Animais recolhidos que desaparecem misteriosamente às mãos de funcionários camarários, recolhas de animais e encaminhamento sistemático para canis de abate.

 

Excluindo estas situações, as recolhas, alimentação, alojamento e encaminhamento para adoção dos vários animais abandonados estão a ser promovidas essencialmente por associações, que sobrevivem apenas e só devido a uma grande dose de altruísmo e dedicação por parte dos seus voluntários. Pegando no caso da associação existente no meu concelho, não fosse o amor condicional aos animais por parte dos seus voluntários, centenas de animais teriam sido encaminhados para o canil de abate de Ílhavo, que até há pouco tempo tinha um acordo de cooperação com a minha câmara municipal. No entanto, o trabalho desta associação e certamente de todas as outras, afigura-se uma autêntica batalha diária. São as despesas com a alimentação e desparasitação que não param de crescer, a falta de espaço, as despesas veterinárias dos animais feridos que são recolhidos, as despesas das esterilizações que são feitas, a promoção diária nas redes sociais para a adoção responsável.

 

Mas voltando à questão da aprovação da lei do fim do abate, o presidente da câmara de Aveiro, capital do meu distrito, após a aprovação da lei de que falo acima, veio mostrar a sua indignação, criticando a proibição de abate de animais. Durante vários anos, os animais recolhidos em Aveiro foram reencaminhados para o canil de Ílhavo, com quem a câmara de Aveiro tinha um acordo de cooperação. A câmara de Aveiro teve o seu canil fechado pela Direção geral de veterinária em 2012, por falta de condições básicas. Este acordo de cooperação permitiu à câmara ver-se livre do problema de forma elementar, sem se dar muito ao trabalho. Os animais eram apanhados e enviados para Ílhavo e lá, grande parte deles foram mortos. Em quatro anos, o número de animais mortos pelo canil de Ílhavo chega a 1000 animais. Num ano, e pelos vários canis municipais do nosso país, são abatidos cerca de 100.000 animais.

 

Para Ribau Esteves, a preocupação pela vida animal nunca terá sido ponto de agenda essencial no seu município. Se até agora conseguiu desviar o problema para mãos alheias, com a mudança da lei e com a revogação unilateral do acordo com o canil de Ílhavo, vê-se agora obrigado a enfrentar e solucionar o problema. Como é óbvio, a solução não é mágica como tem sido a solução provida pelo abate. Mata-se o cão, o problema desaparece, apesar de ser um problema recorrente, crónico. Na realidade, a única coisa que separava certos canis municipais de um matadouro, é que os animais ali mortos não são para consumo humano. De resto, o comportamento para com o animal é em tudo semelhante.

 

O nosso canil não vai ser elástico e a produção de cães vadios é muito alta e não se vai resolver com legislação insensata. Muda o problema e não o resolve.

Palavras de Ribau Esteves numa reunião camarária. A expressão «produção de cães vadios» é esclarecedora da forma um tanto enviesada como o autarca aborda o tema.

 

Olhando para os casos de países onde o abandono de animais é marginal e o problema está dado como erradicado, percebe-se que a solução a adotar não pode ser uma solução a curto prazo, instantânea. Tem de ser a combinação de vários fatores que a médio/longo prazo trarão a desejada erradicação do abandono e dos animais de rua.

 

É necessário promover-se a consciencialização das pessoas para o bem-estar animal e isso deveria ser feito desde a tenra idade. Mais do que a punição criminal pelo mau trato ou abandono (necessária, mas muitas vezes difícil de provar e aplicar), melhor será a promoção da mudança de mentalidades.

 

Tal como aprovado, deveria existir centros especializados para a recolha dos animais, que promovessem a total esterilização das fêmeas e identificação dos animais que seguiriam para adoção. As situações obscuras de vão de escada têm de acabar.

 

Se estes centros forem planeados convenientemente, ao prestarem serviços veterinários pagos aos animais da sua zona, venda de produtos farmacêuticos e alimentares veterinários, poderão em parte financiar o próprio centro.

 

Deveriam ser feitas campanhas de forma ativa que promovessem a adoção responsável, mesmo por parte de entidades coletivas como lares, escolas, empresas, etc.

 

Para terminar, enquanto certas pessoas, tal como o Sr. Ribau Esteves, virem os animais de companhia como chouriças que saem de uma fábrica de enchidos e não como seres sencientes, talvez seja utópico almejar uma mudança drástica na forma como a sociedade trata os seus animais. No entanto, tentemos pensar na resolução deste problema como uma corrida de fundo, um problema que começa a ser resolvido nas suas raízes para ter resultados efetivos e permanentes a longo prazo. A meu ver, a nova legislação, se conveneintemente aplicada, contribuirá para que isso aconteça.

Inovações criminais

Porque nem só de bustos pitorescos vive o homem e porque a cabecinha hoje (e nos últimos dias) não dá para mais, hoje decidi dedicar o meu post ao último grito no que diz respeito à inovação criminal.

 

Dentro do crime é possível enveredar por vários esquemas diferentes para tentar extorquir umas boas quantias aos mais incautos. O sequestro é uma das opções. Rapta-se determinada pessoa e exige-se aos seus entes queridos mais próximos um resgate astronómico para que a mesma seja libertada e possa regressar a casa (de preferência viva).

 

No entanto, um grupo criminoso da Sardenha resolveu dar um toque de inovação à opção criminosa do sequestro, porque há sempre espaço para inovar, mesmo que o negócio empreendedor em questão seja na área do crime.

 

Porquê raptar alguém vivo (que grande trabalheira, a pessoa resiste, grita, esperneia, tem de se lhe dar de comer e beber, etc.) se se pode raptar alguém morto?

 

Este inovador grupo criminoso da Sardenha pretendia raptar o corpo do falecido fundador da Ferrari, Enzo Ferrari, falecido em 1988 com 90 anos. O corpo repousa num jazigo da família num cemitério próximo das instalações da fábrica da Ferrari e a intenção do grupo era retirá-lo de lá de forma a pedir um resgate à família ou mesmo à própria empresa Ferrari. Infelizmente, os intentos criminosos do grupo saíram gorados porque a polícia de Nuoro, quando levava a cabo umas investigações relacionadas com o tráfico de armas, deparou-se com o plano inovador da quadrilha, frustrando assim os seus intentos de ganhar umas massas.

 

E digo infelizmente porque, mesmo tratando-se de um crime, é impossível não extrapolar para o filme que este crime seria se pudesse ter sido levado a cabo. Uma quadrilha a passear pela cidade com um caixão na parte de trás de uma carrinha, as movimentações para esconder o caixão, caixão escada a cima, caixão escada a baixo, o telefonema para a família:

 

«Temos o Enzo. Queremos 3 milhões para o soltar.»

e a família, perplexa, pergunta: «O Enzo, qual Enzo? Aquele que morreu há 29 anos?»

«Sim. Esse. Queremos marcar a entrega contra pagamento dos 3 milhões. Tragam 4 homens para carregar o Enzo».

«O Enzo não vale 3 milhões. Está morto há décadas. Podem ficar com ele.»

 

Em suma, a inovação e o empreendedorismo são sempre bem-vindos, seja em que ramo de atividade for, mais não seja para me fazer deambular pela casa, imaginando filmes policiais em que a vítima é um cadáver. Uma pessoa sempre tem de se entreter com alguma coisa.

 

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Enzo Ferrari. Fotografia retirada daqui.

Ficções: bons ateus ou maus católicos?

É raro perder tempo a ler textos que, pela sua origem, sei à partida que a leitura dos mesmos será uma perda de tempo. No entanto, se o fundamento do meu acordar diário é, a cima de tudo, tentar aprender alguma coisa, tem dias em que saber «onde param as modas» pode ser imperativo, mesmo que essas modas não me levem a lado nenhum de interesse.

 

Assim sendo, movida pelo título, dei por mim a ler um artigo de opinião do padre Gonçalo de Almada no jornal Observador. Como padre que é, percebi que o mote principal dos artigos do padre Gonçalo é a religião católica e romana. A religião sempre foi, para mim, motivo de grande interesse, apesar do meu ateísmo confesso. Não tenho grande interesse pelas particularidades das religiões em si, mas interessa-me a génese da crença humana pelas ficções como forma de organização e estruturação da sua vida pessoal e vida em sociedade. A crença numa qualquer ficção (que envolva divindades ou abstrações do mundo físico/material) parece algo intrínseco ao ser humano, uma quase necessidade que nos caracteriza desde dos primórdios da nossa evolução.

 

No entanto, se as religiões serviram e, de certa forma ainda servem, para unir numa crença um grande grupo de pessoas que não se conhecem, tornando possível uma base de entendimento e aproximação entre milhares e milhões de desconhecidos, o certo é que o oposto também se aplica. As mesmas religiões uniram, mas criaram também divisões irreversíveis (e de grande violência) entre grupos de diferentes crenças. Para as principais religiões atuais, não basta difundir uma crença e promovê-la, é essencial incutir aos seus seguidores que aquela crença é que é A Verdadeira Crença e todas as outras se encerram dentro da categoria das fraudes ou degenerações.

 

Voltando ao artigo e ao seu título do artigo — Bons ateus ou maus católicos? — o autor, nos parágrafos finais, tenta perceber o que é melhor: um bom ateu ou um mau católico. Depreendo que a esta quantificação de bom e mau, esta visão maniqueísta do ser humano, esteja ligada às ações efetuadas por uns e outros. Para mim, alguém que seja tolerante, solidário, empático, altruísta, será alguém que se enquadra dentro da categorização de Bom.

 

No entanto, para o padre Gonçalo, as coisas não serão tão lineares:

 

O Papa Francisco reconhece que há ateus que, por excepção, são bons, como também não ignora que há católicos que, por excepção, são maus; mas também sabe que são meras excepções. A regra é que os católicos sejam bons, não por mérito próprio, mas pela graça dessa sua condição; quem a não tem pode ter alguma bondade, mas não tanta quanto teria se a tivesse. Caso contrário, para que serviria ser cristão?!

 

De facto, os maus católicos são melhores do que os bons ateus, não porque humanamente sejam mais perfeitos, mas porque, pela sua fé, não só alcançam a graça que os perdoa e liberta dos seus pecados, como também a alegria do amor de Deus.

Bons ateus ou maus católicos?, padre Gonçalo Portocarrero de Almada, Jornal Observador (25/03/2017)

 

Estas duas frases retorcidas deixaram-me inquieta. Sei que são apenas um olhar enviesado da realidade, mas são o olhar de alguém numa posição para propagar ideias, difundir opiniões, estabelecer-se como orientador de um rebanho.

 

Na realidade, alguém que faz uma boa ação porque acha que deus assim o quer (porque será punido se for mau ou será premiado ser for bom) não será alguém com menos bondade dentro de si do que alguém que promove o bem, faz boas ações apenas comando pela sua consciência?

 

Eu acho que sim. Se dividir o mundo de forma simplória entre bons e maus, os melhores de todos serão aqueles que promovem o bem de forma altruísta, sem terem por trás de si segundas intenções de salvação divina. O que os move não é a punição ou salvação, é apenas o amor desprendido, incondicional ao próximo.

 

Estas palavras do padre Gonçalo, para além de promoverem a religião como salvo conduto para a salvação, independentemente do comportamento pessoal de cada pessoa, chocam porque nada diferem de certos radicalismos tão fortemente criticados. Elas retiram ao ser humano qualquer responsabilidade sobre as suas ações, depositando toda essa responsabilidade na crença num deus específico. Basta acreditar para se ter a certidão de boa pessoa. Todas as ações veem-se justificadas, perdoadas, se a pessoa acreditar neste deus específico.

 

E por mais boas ações que se faça, se o que o move uma pessoa for apenas o bem, isento de qualquer ficção religiosa, essas ações nunca serão boas o suficiente, mesmo que comparadas com as más ações de um crente.

 

 

The way the world goes round

Pela Europa cresce o medo fomentado por ataques terroristas dispersos. O medo procura um rosto que possa acusar, a que se posso aferroar com unhas e dentes. E facilmente o encontra. Mesmo os que se dizem vestidos pela capa da moral, da tolerância, sentem a doce tentação da generalização, da simplificação daquilo que é tremendamente complicado. Se foi engendrado por nós, humanos, tinha mesmo de o ser — complicado.

 

No entanto, temos de nos agarrar com força às evidências: a falta de empatia pelo próximo, a barbárie, a capacidade geradora de violência, não são coisas exclusivas de crentes de uma ou outra religião. O que de mais medíocre existe no ser humano, mesquinho, rude, é transversal aos crentes de todas as religiões, às pessoas de todas as raças, etnias, proveniências geográficas, género e orientação sexual. No meio de nós ou em nós, dentro de nós, existem psicopatas.

 

Após o ato tresloucado de um demente em Londres, surge a memória de outros dementes, outros seres humanos danificados. Corria o ano de 2011 quando veio a público os atos grotescos levado a cabo por soldados norte-americanos no Afeganistão. Morlock, um dos oficiais visados, resolveu «chibar-se» e denunciar os colegas envolvidos, de forma a reduzir a pena pelos atos inomináveis. E que fizeram eles, quais eram esses atos abomináveis: durante a campanha militar no Afeganistão mataram vários civis desarmados «por desporto». E estas palavras — «for sport» — foram usadas, não são minha invenção. Estes soldados escolhiam um alvo e matavam-no por desporto, usando de várias encenações e estratagemas para encobrir as motivações das mortes. Alguns chegaram a guardar partes dos corpos, incluindo um crânio, como recordação da diversão das suas práticas desportivas.

 

Diariamente, sob a cobertura da bênção de um rosto ocidental, de uma vida ocidental, de uma cultura ocidental, várias pessoas são sujeitas à tortura e morte por este mundo afora. Um psicopata não deixa de ser psicopata por ser cristão, branco e ocidental. O que urge banir não são os muçulmanos, o Islão, mas a doença que afeta alguns de nós. O que urge corrigir é a perceção errada dos atos sem consequências. Todos os atos têm consequência e os grandes atos (por grandes, falo na dimensão não na grandiosidade qualitativa) tendem a ter grandes consequências. E quando esses grandes atos são atabalhoados, desastrosos, é patético esperar deles consequências que não sejam também elas desastrosas.

 

E sem querer justificar, porque a barbárie não pode ter uma justificação, a violência elimina-se, não se justifica — o ato de um psicopata no médio-oriente, de uma coligação de psicopatas, de uma estratégia militar de psicopatas, pode ser gerador do ato de um psicopata ou grupo de psicopatas no ocidente. E se o olho por olho, dente por dente é expressão grotesca, primitiva, ela, queira-se ou não, serve como se feita à medida da ocasião.

 

E no fundo, nada disto nunca se tratou de religião, mesmo que o embrulho da prenda fosse esse. No fim, tratou-se e continuará a tratar-se, hoje e sempre, de poder e domínio que uns querem exercer sobre outros. Fora dos jogos de poder ficamos nós, tristes peões, mas nem por isso isentos de culpas.

Pais natais travestis

Como está aí a chegar a Páscoa e já começou o habitual bombardeamento achocolatado/amendoado nos supermercados, era tempo de me empenhar na aquisição dos típicos chocolates da quadra. Tinha de me antecipar antes que o meu filho se deixasse seduzir pelas carradas de ovos e coelhinhos de chocolate estrategicamente posicionadas em pirâmides atrativas logo à entrada dos supermercados.

 

Do fundo do armário ainda espreitavam três sobreviventes natalícios. Ora, como nada se perde e tudo se transforma, aqui vos apresento os meus pais natais travestis preparadinhos para a Páscoa.

 

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Tão natural como a água

O meu filho perguntou-me há uns tempos, mal entrou no carro quando o fui buscar à escola, se um homem podia casar com um homem. Alguma conversa na escola lhe tinha exacerbado a curiosidade. Respondi que sim. Um homem podia namorar e casar com um homem e uma mulher podia namorar e casar com uma mulher. A resposta não lhe causou surpresa e bastou-lhe. Não fez mais perguntas.

 

Na semana passada fomos à biblioteca buscar uns quantos livros para lermos em casa. Quando líamos à noite um desses livros que trouxéramos da biblioteca, a meio da história e levado pelos acontecimentos da narrativa, o meu filho sugere: esta princesa vai-se casar com a menina que a salvou. Eu, já com dezenas de livros infantis lidos ao longo da vida, supus que a dada altura aparecesse por ali um príncipe, um cavaleiro e acabasse a casar, como de costume, com a princesa. Disse ao meu filho: acho que não. A história ainda não acabou.

 

O certo é que as duas, princesa e menina salvadora, tal como supôs o meu filho, acabaram mesmo por se casar. O meu filho exultou de contentamento por ter acertado nas suas previsões e eu exultei, silenciosamente, por um livro infantil me ter conseguido surpreender. Embora na minha exultação houvesse uma pequena recriminação. Porque é que não considerei aquela opção, a do casamento entre as duas meninas?

 

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Titiritesa, de Xerardo Quintiá e Maurizio A.C. Quarello, OQO Editora

 

Em suma, todos os nossos constrangimentos no que diz respeito à orientação sexual dos outros seres humanos, à forma como as crianças lidam com isso, são fruto da nossa cabeça preconceituosa. Para uma criança, uma pequena explicação basta, não há dilemas dominados por dogmas religiosos, preconceitos enraizados, há apenas um campo fértil à espera de ser semeado da melhor maneira.

Para as crianças, o amor, seja ele como for, é tão natural como a água.

Realidades inverosímeis

No outro dia queixava-me que o livro do género policial que estava a ler tinha ido longe demais no que dizia respeito aos excessos de violência e provações do personagem principal. A ficção tinha de ser verosímil se a intenção era o leitor ser enlevado pela história.

 

No entanto, cada dia que passa sou confrontada com a inverosimilhança da realidade. Ora vejamos:

 

— No Brasil, um dos integrantes do MST (Movimento sem terras) foi assassinado em pleno hospital, nos cuidados intensivos, por um gangue de encapuçados que o executaram com pelo menos dez tiros. Waldomiro Costa estava no hospital a recuperar de uma tentativa de assassinato de que tinha sido vítima no dia anterior, quando tinha sido baleado na sua propriedade. De ressalvar que Waldomiro era um sobrevivente do massacre de Eldorado, em 1996, onde 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia militar.

 

— Há menos de uma semana, um helicóptero Apache (supõe-se) abriu fogo sobre uma embarcação que transportava refugiados (devidamente documentados) que estavam a fugir do Iémen para o Sudão. 42 pessoas perderam a vida, entre elas crianças, no que foi um verdadeiro banho de sangue. Ainda sem suspeitos identificados, as cabeças viram-se na direção da Arábia Saudita, envolvida na guerra civil do Iémen, sendo que esta tem e usa este tipo de helicópteros nos combates que tem levado a cabo em solo iemenita.

 

— Pelo menos 33 pessoas morreram na Síria num ataque aéreo levado a cabo pela coligação liderada pelos E.U.A. A escola atacada albergava pessoas deslocadas de uma zona controlada pelo ISIS. A notícia e número de mortos e feridos está em atualização, pois trata-se de um ataque decorrido ontem pela manhã.

 

Homens encapuçados que entram sem medo hospital adentro para «terminar o serviço» que tinha ficado incompleto, helicópteros militares que executam pessoas que fogem de uma guerra civil, ataques aéreos indiscriminados, tudo isto nos soa familiar, como fazendo parte do reino da ficção, dos filmes de ação, dos livros policiais. No entanto, a realidade é declarada vencedora no confronto direto com a ficção.

 

Jo Nesbø volta, estás perdoado.

O crânio da gruta da Aroeira — murmúrios ancestrais

Decorria o ano de 2014 quando uma equipa do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa descobriu um crânio numa gruta da Aroeira onde estavam a trabalhar. Uma ferramenta que escavava a rocha perfurou o que, surpreendentemente, se descobriria ser o mais antigo fóssil humano encontrado na Península Ibérica e um dos mais antigos encontrados no continente europeu. Fossilizado num bloco de pedra, foram precisos dois anos até ser possível completar a extração do crânio. Com a datação feita, com a análise dos vários utensílios e restos fossilizados de animais que ali se encontravam, estima-se assim que o achado tenha entre 395.000 a 430.000 anos. Esta descoberta arqueológica vem, assim, acrescentar mais uma peça ao puzzle que é a evolução humana e a evolução dos vários hominídeos ao longo da história. Mas este puzzle evolutivo, com cada nova descoberta, não ganha clareza, antes expande-se, ganha complexidade e traz novas questões.

 

A forma simplista como se classificava os achados arqueológicos, associando determinadas características morfológicas a restos humanos com determinada datação, atribuindo-lhes uma espécie, tem vindo a cair por terra a cada nova descoberta. No crânio humano da gruta da Aroeira é possível encontrar características morfológicas que estão ligadas aos neandertais arcaicos, mas também a outros achados fósseis classificados de diferente maneira e ainda características completamente novas, exclusivas deste fóssil humano.

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Crânio humano encontrado na gruta da Aroeira.

 

É de referir que esta descoberta surpreendente não foi a primeira descoberta impactante liderada pelo arqueólogo João Zilhão. Em 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, perto de Leiria, o esqueleto de uma criança com cerca de quatro anos que viveu naquele local há 25.000 anos. Também esta descoberta deixou o mundo da arqueologia em polvorosa devido às características morfológicas únicas daquele achado. Havia traços morfológicos homo sapiens, mas também traços característicos neandertais, levantando a questão de uma possível miscigenação entre as duas espécies. Esta questão, descartada até à época, é atualmente aceite e comprovável. Embora, na altura, tenha levado a acesos debates académicos e tenha feito correr muita tinta em publicações científicas. Sobre este tema, aconselho o livro «Lapedo — uma criança no vale» do falecido escritor João Aguiar. É um olhar exterior ao mundo académico da arqueologia (João Aguiar era escritor e jornalista), acessível a curiosos sem formação na área.

 

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Lapedo, uma criança no vale, de João Aguiar, Edições ASA, uma obra de bastante interesse sobre as descobertas no vale do Lapedo em 1998.

 

Para mim, uma completa leiga na matéria, mas alguém movida pela curiosidade, estes achados arqueológicos revestem-se de grande interesse. Não me interessa particularmente saber se nós, homo sapiens, temos herança genética deste ou daquele hominídeo, mas é um pouco como se procurasse no passado remoto a génese do nosso comportamento atual. O que terá feito de nós, homo sapiens modernos, a espécie triunfante sobre outras espécies humanas, quais as razões que alavancaram o nosso sucesso e o porquê do aniquilamento, em vários locais distintos do globo, das outras espécies humanas (como por exemplos os neandertais na Europa)? A resposta a todas estas questões são o início da nossa caracterização enquanto humanos, porque inevitavelmente seremos hoje um eco nítido dos nossos ancestrais, um produto da nossa evolução.

 

Em outubro deste ano teremos em exposição no Museu Nacional de Arqueologia esta descoberta da gruta da Aroeira, assim como também a criança do Lapedo. Será uma exposição a não perder. Deixo ainda aqui o link dos artigos do jornal Público e do site da Universidade de Lisboa, que fornecem mais detalhes sobre a surpreendente descoberta da gruta da Aroeira.