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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

The way the world goes round

Pela Europa cresce o medo fomentado por ataques terroristas dispersos. O medo procura um rosto que possa acusar, a que se posso aferroar com unhas e dentes. E facilmente o encontra. Mesmo os que se dizem vestidos pela capa da moral, da tolerância, sentem a doce tentação da generalização, da simplificação daquilo que é tremendamente complicado. Se foi engendrado por nós, humanos, tinha mesmo de o ser — complicado.

 

No entanto, temos de nos agarrar com força às evidências: a falta de empatia pelo próximo, a barbárie, a capacidade geradora de violência, não são coisas exclusivas de crentes de uma ou outra religião. O que de mais medíocre existe no ser humano, mesquinho, rude, é transversal aos crentes de todas as religiões, às pessoas de todas as raças, etnias, proveniências geográficas, género e orientação sexual. No meio de nós ou em nós, dentro de nós, existem psicopatas.

 

Após o ato tresloucado de um demente em Londres, surge a memória de outros dementes, outros seres humanos danificados. Corria o ano de 2011 quando veio a público os atos grotescos levado a cabo por soldados norte-americanos no Afeganistão. Morlock, um dos oficiais visados, resolveu «chibar-se» e denunciar os colegas envolvidos, de forma a reduzir a pena pelos atos inomináveis. E que fizeram eles, quais eram esses atos abomináveis: durante a campanha militar no Afeganistão mataram vários civis desarmados «por desporto». E estas palavras — «for sport» — foram usadas, não são minha invenção. Estes soldados escolhiam um alvo e matavam-no por desporto, usando de várias encenações e estratagemas para encobrir as motivações das mortes. Alguns chegaram a guardar partes dos corpos, incluindo um crânio, como recordação da diversão das suas práticas desportivas.

 

Diariamente, sob a cobertura da bênção de um rosto ocidental, de uma vida ocidental, de uma cultura ocidental, várias pessoas são sujeitas à tortura e morte por este mundo afora. Um psicopata não deixa de ser psicopata por ser cristão, branco e ocidental. O que urge banir não são os muçulmanos, o Islão, mas a doença que afeta alguns de nós. O que urge corrigir é a perceção errada dos atos sem consequências. Todos os atos têm consequência e os grandes atos (por grandes, falo na dimensão não na grandiosidade qualitativa) tendem a ter grandes consequências. E quando esses grandes atos são atabalhoados, desastrosos, é patético esperar deles consequências que não sejam também elas desastrosas.

 

E sem querer justificar, porque a barbárie não pode ter uma justificação, a violência elimina-se, não se justifica — o ato de um psicopata no médio-oriente, de uma coligação de psicopatas, de uma estratégia militar de psicopatas, pode ser gerador do ato de um psicopata ou grupo de psicopatas no ocidente. E se o olho por olho, dente por dente é expressão grotesca, primitiva, ela, queira-se ou não, serve como se feita à medida da ocasião.

 

E no fundo, nada disto nunca se tratou de religião, mesmo que o embrulho da prenda fosse esse. No fim, tratou-se e continuará a tratar-se, hoje e sempre, de poder e domínio que uns querem exercer sobre outros. Fora dos jogos de poder ficamos nós, tristes peões, mas nem por isso isentos de culpas.

Pais natais travestis

Como está aí a chegar a Páscoa e já começou o habitual bombardeamento achocolatado/amendoado nos supermercados, era tempo de me empenhar na aquisição dos típicos chocolates da quadra. Tinha de me antecipar antes que o meu filho se deixasse seduzir pelas carradas de ovos e coelhinhos de chocolate estrategicamente posicionadas em pirâmides atrativas logo à entrada dos supermercados.

 

Do fundo do armário ainda espreitavam três sobreviventes natalícios. Ora, como nada se perde e tudo se transforma, aqui vos apresento os meus pais natais travestis preparadinhos para a Páscoa.

 

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Tão natural como a água

O meu filho perguntou-me há uns tempos, mal entrou no carro quando o fui buscar à escola, se um homem podia casar com um homem. Alguma conversa na escola lhe tinha exacerbado a curiosidade. Respondi que sim. Um homem podia namorar e casar com um homem e uma mulher podia namorar e casar com uma mulher. A resposta não lhe causou surpresa e bastou-lhe. Não fez mais perguntas.

 

Na semana passada fomos à biblioteca buscar uns quantos livros para lermos em casa. Quando líamos à noite um desses livros que trouxéramos da biblioteca, a meio da história e levado pelos acontecimentos da narrativa, o meu filho sugere: esta princesa vai-se casar com a menina que a salvou. Eu, já com dezenas de livros infantis lidos ao longo da vida, supus que a dada altura aparecesse por ali um príncipe, um cavaleiro e acabasse a casar, como de costume, com a princesa. Disse ao meu filho: acho que não. A história ainda não acabou.

 

O certo é que as duas, princesa e menina salvadora, tal como supôs o meu filho, acabaram mesmo por se casar. O meu filho exultou de contentamento por ter acertado nas suas previsões e eu exultei, silenciosamente, por um livro infantil me ter conseguido surpreender. Embora na minha exultação houvesse uma pequena recriminação. Porque é que não considerei aquela opção, a do casamento entre as duas meninas?

 

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Titiritesa, de Xerardo Quintiá e Maurizio A.C. Quarello, OQO Editora

 

Em suma, todos os nossos constrangimentos no que diz respeito à orientação sexual dos outros seres humanos, à forma como as crianças lidam com isso, são fruto da nossa cabeça preconceituosa. Para uma criança, uma pequena explicação basta, não há dilemas dominados por dogmas religiosos, preconceitos enraizados, há apenas um campo fértil à espera de ser semeado da melhor maneira.

Para as crianças, o amor, seja ele como for, é tão natural como a água.

Realidades inverosímeis

No outro dia queixava-me que o livro do género policial que estava a ler tinha ido longe demais no que dizia respeito aos excessos de violência e provações do personagem principal. A ficção tinha de ser verosímil se a intenção era o leitor ser enlevado pela história.

 

No entanto, cada dia que passa sou confrontada com a inverosimilhança da realidade. Ora vejamos:

 

— No Brasil, um dos integrantes do MST (Movimento sem terras) foi assassinado em pleno hospital, nos cuidados intensivos, por um gangue de encapuçados que o executaram com pelo menos dez tiros. Waldomiro Costa estava no hospital a recuperar de uma tentativa de assassinato de que tinha sido vítima no dia anterior, quando tinha sido baleado na sua propriedade. De ressalvar que Waldomiro era um sobrevivente do massacre de Eldorado, em 1996, onde 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia militar.

 

— Há menos de uma semana, um helicóptero Apache (supõe-se) abriu fogo sobre uma embarcação que transportava refugiados (devidamente documentados) que estavam a fugir do Iémen para o Sudão. 42 pessoas perderam a vida, entre elas crianças, no que foi um verdadeiro banho de sangue. Ainda sem suspeitos identificados, as cabeças viram-se na direção da Arábia Saudita, envolvida na guerra civil do Iémen, sendo que esta tem e usa este tipo de helicópteros nos combates que tem levado a cabo em solo iemenita.

 

— Pelo menos 33 pessoas morreram na Síria num ataque aéreo levado a cabo pela coligação liderada pelos E.U.A. A escola atacada albergava pessoas deslocadas de uma zona controlada pelo ISIS. A notícia e número de mortos e feridos está em atualização, pois trata-se de um ataque decorrido ontem pela manhã.

 

Homens encapuçados que entram sem medo hospital adentro para «terminar o serviço» que tinha ficado incompleto, helicópteros militares que executam pessoas que fogem de uma guerra civil, ataques aéreos indiscriminados, tudo isto nos soa familiar, como fazendo parte do reino da ficção, dos filmes de ação, dos livros policiais. No entanto, a realidade é declarada vencedora no confronto direto com a ficção.

 

Jo Nesbø volta, estás perdoado.

O crânio da gruta da Aroeira — murmúrios ancestrais

Decorria o ano de 2014 quando uma equipa do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa descobriu um crânio numa gruta da Aroeira onde estavam a trabalhar. Uma ferramenta que escavava a rocha perfurou o que, surpreendentemente, se descobriria ser o mais antigo fóssil humano encontrado na Península Ibérica e um dos mais antigos encontrados no continente europeu. Fossilizado num bloco de pedra, foram precisos dois anos até ser possível completar a extração do crânio. Com a datação feita, com a análise dos vários utensílios e restos fossilizados de animais que ali se encontravam, estima-se assim que o achado tenha entre 395.000 a 430.000 anos. Esta descoberta arqueológica vem, assim, acrescentar mais uma peça ao puzzle que é a evolução humana e a evolução dos vários hominídeos ao longo da história. Mas este puzzle evolutivo, com cada nova descoberta, não ganha clareza, antes expande-se, ganha complexidade e traz novas questões.

 

A forma simplista como se classificava os achados arqueológicos, associando determinadas características morfológicas a restos humanos com determinada datação, atribuindo-lhes uma espécie, tem vindo a cair por terra a cada nova descoberta. No crânio humano da gruta da Aroeira é possível encontrar características morfológicas que estão ligadas aos neandertais arcaicos, mas também a outros achados fósseis classificados de diferente maneira e ainda características completamente novas, exclusivas deste fóssil humano.

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Crânio humano encontrado na gruta da Aroeira.

 

É de referir que esta descoberta surpreendente não foi a primeira descoberta impactante liderada pelo arqueólogo João Zilhão. Em 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, perto de Leiria, o esqueleto de uma criança com cerca de quatro anos que viveu naquele local há 25.000 anos. Também esta descoberta deixou o mundo da arqueologia em polvorosa devido às características morfológicas únicas daquele achado. Havia traços morfológicos homo sapiens, mas também traços característicos neandertais, levantando a questão de uma possível miscigenação entre as duas espécies. Esta questão, descartada até à época, é atualmente aceite e comprovável. Embora, na altura, tenha levado a acesos debates académicos e tenha feito correr muita tinta em publicações científicas. Sobre este tema, aconselho o livro «Lapedo — uma criança no vale» do falecido escritor João Aguiar. É um olhar exterior ao mundo académico da arqueologia (João Aguiar era escritor e jornalista), acessível a curiosos sem formação na área.

 

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Lapedo, uma criança no vale, de João Aguiar, Edições ASA, uma obra de bastante interesse sobre as descobertas no vale do Lapedo em 1998.

 

Para mim, uma completa leiga na matéria, mas alguém movida pela curiosidade, estes achados arqueológicos revestem-se de grande interesse. Não me interessa particularmente saber se nós, homo sapiens, temos herança genética deste ou daquele hominídeo, mas é um pouco como se procurasse no passado remoto a génese do nosso comportamento atual. O que terá feito de nós, homo sapiens modernos, a espécie triunfante sobre outras espécies humanas, quais as razões que alavancaram o nosso sucesso e o porquê do aniquilamento, em vários locais distintos do globo, das outras espécies humanas (como por exemplos os neandertais na Europa)? A resposta a todas estas questões são o início da nossa caracterização enquanto humanos, porque inevitavelmente seremos hoje um eco nítido dos nossos ancestrais, um produto da nossa evolução.

 

Em outubro deste ano teremos em exposição no Museu Nacional de Arqueologia esta descoberta da gruta da Aroeira, assim como também a criança do Lapedo. Será uma exposição a não perder. Deixo ainda aqui o link dos artigos do jornal Público e do site da Universidade de Lisboa, que fornecem mais detalhes sobre a surpreendente descoberta da gruta da Aroeira.

Do reflexo no espelho

No início da semana, escrevi sobre a tragédia que ocorrera numa lixeira na Etiópia: um desabamento de lixo que soterrara dezenas de pessoas, tirando a vida a cerca de cinquenta. O número de mortos foi posteriormente atualizado e chegam agora a mais de cem as pessoas que sucumbiram à avalanche de lixo. A notícia passou relativamente desapercebida e o choque ao nos apercebermos de que algo assim aconteceu é seguido de um ataque à imprensa por não informarem, não noticiarem factos de relevância, mas sempre mais do mesmo. Ora, ontem estava a ver uma página no Facebook onde me apareceu uma imagem de um desabafo do editor online do Público e que dizia respeito a essa mesma notícia que referi.

 

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Imagem retirada da página do facebook dos Truques da Imprensa Portuguesa.

 

O jornal Público noticiou, pôs a notícia em destaque e… quase ninguém a leu, comentou, partilhou. Numa era em que o jornalismo tem grande parte do seu financiamento proveniente da publicidade online que está ancorada no número de cliques/visualizações de uma notícia, é óbvio que o destaque de uma notícia sem visualizações não tem interesse e logo essa mesma notícia é jogada para segundo plano. A mais terrível das notícias cai facilmente no esquecimento devido à indiferença dos leitores.

 

No fundo, somos todos uns narcisistas patológicos. Procuramos o nosso reflexo no espelho em toda a superfície refletora. Ignoramos os reflexos que não nos favoreçam, onde não nos encontramos. Temos pavor quando o reflexo que nos chega é de uma cara desconhecida e o pavor roça o nojo quando esse outro que nos olha do outro lado vive numa realidade para nós obscura.

 

Reconhecemos numa vítima que estava num restaurante aquando de um atentado terrorista. Também vamos a restaurantes, também gostamos de nos refastelar numa esplanada. Podíamos ser nós. Reconhecemos numa vítima de um atentado num aeroporto. Também andamos de avião e adoramos viajar. Podíamos ser nós. Reconhecemo-nos numa vítima de uma avalanche nos Alpes. Também gostamos de fazer férias na neve. Podíamos ser nós.

 

Se uma avalanche de lixo tira a vida a uma centena de pessoas, não nos encontramos no reflexo desse espelho. Não andamos a vasculhar no lixo. A ideia de o podermos fazer é inconcebível, surreal. Achamos, com convicção, que aquilo só acontece aos outros, «àqueles» que vivem para aquelas bandas. Não podíamos ser nós.

 

Sem identificação, sem o nosso belo reflexo no espelho, não há interesse, não há leitura da notícia, não há vontade jornalística que nos valha.

 

E por mais que nos esforcemos, não há volta a dar. O mundo está dividido em dois tipos de pessoas: nós e os outros. E os outros… são apenas os outros.

Passeios de fim de semana: Batalha e Porto de Mós

Quando era criança e adolescente, fazendo parte de uma família católica, fazíamos visitas regulares a Fátima. Nessas viagens, para além da visita ao santuário, era habitual pararmos na Batalha para visitarmos o Mosteiro. Com o avançar dos anos e com o meu crescente afastamento da religião, chegando ao ponto de completa rutura, as viagens a Fátima deixaram de fazer parte da minha rotina de passeios. Com o fim das visitas ao santuário, também o mosteiro acabou por ficar negligenciado e já há vários anos que não o visitava, apesar de ser, pela sua imponência, um dos meus monumentos favoritos aquando era adolescente.

 

Assim, há um par de fins de semana atrás, decidimos fazer um passeio e a zona centro acabou por ser a eleita para a nossa visita. Deixo aqui um pequeno vislumbre da visita a dois dos monumentos que visitei.

 

Revisitei o Mosteiro da Batalha e, apesar do meu olhar adulto já não se deixar impressionar tão facilmente, não deixa de ser um monumento impressionante. O mais cativante não será sequer o tamanho do edifício, mas o trabalho decorativo intrincado do mesmo. O rendilhado ornamental de todo o mosteiro, característico do estilo manuelino, deixa antever as horas intensas de trabalho, a atenção aos detalhes que vão ao mais ínfimo pormenor, fazendo do edifício uma obra de arte arquitetónica, muito mais do que um templo, um lugar de culto. Para além da arquitetura intrincada, os vitrais são muito interessantes, talvez o mais atrativo quando se entra nas capelas, relegando para segundo plano os mausoléus. Não farei maior dissertação sobre as qualidades e detalhes arquitetónicos dos vários espaços que compõem o mosteiro por uma única razão: a minha completa incapacidade e falta de conhecimento na área (história, arquitetura).

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Mosteiro da Batalha - portal principal

 

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Vitrais - capela do fundador

 

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Vitrais

 

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Pormenor da abóbada da capela do fundador.

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Vista dos claustros superiores do mosteiro.

 

Mandado construir em 1386 por D. João I, como forma de agradecimento (à Virgem Maria) pela vitória na Batalha de Aljubarrota, a construção demorou dois séculos, passou pelas mãos de diversos arquitetos e atravessou o reinado de sete reis. É possível perceber as várias fases da construção, apesar da coerência arquitetónica.

 

Mesmo afastando-me de qualquer olhar religioso sobre o local, é um monumento que merece uma visita pela sua impressionante arquitetura, pelos séculos de história que ali se encerram, pela magnificência que a construção transpira em cada detalhe.

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Detalhes arquitetónicos da fachada do mosteiro.

 

 

Na vila da Batalha é ainda possível visitar a ponte da Boutaca, um viaduto do século XIX, e o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (este último não cheguei a visitar).

 

Seguindo para a vila de Porto de Mós, a visita ao castelo impôs-se. A cobertura em cerâmica de várias tonalidades de verde dos coruchéus, tornam o castelo numa obra singular com um visual único. A arquitetura do espaço sofreu várias alterações e renovações ao longo dos séculos. Quando Porto de Mós foi tomada aos mouros em 1148 por D. Afonso Henriques, já ali existia algum tipo de edificação, mas os séculos seguintes é que redefiniram o castelo como ele hoje se conhece. E as intervenções profundas que começaram em 1936 tiraram o monumento da degradação e decadência em que tinha mergulhado. Agora, ao entrar na vila á noite, é impossível não se sentir o impacto visual do castelo iluminado que parece flutuar no espaço, como se edificado em cima de uma nuvem.

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Coruchéu com revestimento cerâmico, Castelo de Porto de Mós.

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Detalhes arquitetónicos da edificação.

 

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Castelo de Porto de Mós. Todas as fotografias do post são de fonte própria, à exceção desta última, que foi retirada daqui.

 

O passeio de fim de semana deu apenas para mais umas visitas aos moinhos de vento da zona, à aldeia histórica de Pias do Urso, que tem um eco parque sensorial e ao miradouro da Fórnea. Para outra altura, ficou a visita às grutas de Mira d’Aire (o frio não convidava).

 

Foi um passeio com uma certa carga nostálgica, emoção que fornece uma forma de olhar diferente sobre os locais vistos, mesmo quando estes já foram visitados no passado.

Do lixo para a boca

Uma derrocada numa lixeira nos arredores de Adis Abeba provocou pelo menos 50 mortos. Pessoas, entre elas várias crianças, que procuravam comida e outros bens no meio dos detritos alheados de outros, foram surpreendidas pelo deslizamento de toneladas de lixo, sucumbindo. E tudo é triste nesta notícia relegada para segundo plano numa sociedade mais interessada em novelas políticas (ver e barafustar, mas nunca agir) do que na realidade além da vedação do seu quintal.

 

É triste saber da morte de pessoas que apenas pretendiam alimentar-se, subsistir a mais um dia de uma vida difícil, é triste pensar que, em pleno século XXI milhares de pessoas têm de vasculhar no lixo para sobreviver, é triste pensar que o meu desperdício, o meu lixo, é o garante de vida de outrem. Há algo de tão absurdo nesta equação que a vida perde contornos de realidade. A dada altura do nosso percurso evolutivo confundimos algo de substancial para o nosso bem-estar enquanto espécie: confundimos a importância da quantidade, da nossa multiplicação e consequente dominação do planeta, com a nossa felicidade, com a sensação de plenitude enquanto ser vivo.

 

Somos o animal mais bem-sucedido de sempre. Sete mil milhões de nós habitam este planeta. Mas o nosso sucesso nada tem a ver com a nossa felicidade. Milhares de anos de evolução, milhares de anos de revoluções disto e daquilo não nos tornaram em seres mais felizes. Crescemos em número, mas não crescemos em satisfação. Uma parte substancial de nós vive no limbo da sobrevivência, outra parte vive em permanente rotina, anestesiada pela luta que tem de ser travada para cumprir as falsas necessidades criadas e a mais pequena das partes vive acima de tudo isso, nadando na piscina da sua ganância. Mas haverá felicidade, uma sensação de plenitude existencial dentro de nós: naqueles que vivem do lixo, naqueles que vivem apenas para fazer lixo e naqueles que exploram ambos?

 

A nossa evolução, a nossa capacidade intelectual, racional exclusiva deveria ser garante suficiente para que nenhum de nós, nenhum membro da tribo humana tivesse de se alimentar de lixo, de construir habitações precárias em lixeiras, de viver no meio da podridão, da putrefação. Infelizmente, não é.

 

 

Jantaradas, unhas de gel e Laura Pergolizzi

No Dia Internacional da Mulher podia falar na descarada subversão que é feita da data pelos agentes comerciais, transformando um dia que assinala a luta pelos direitos das mulheres, num dia de florzinhas, prendinhas catitas, jantaradas animadas entre amigas, um dia de celebração do ser-se mulher, quando essa celebração deve ser diária e não coisa marcada em calendário.

 

No Dia Internacional da Mulher podia falar nos penteados, zumba, unhas de gel e massagens oferecidos pela Câmara Municipal de Coimbra como forma de celebração da data, reduzindo a mulher ao estereótipo da futilidade do costume. Não que as mulheres (algumas) não apreciem unhas de gel e zumba (not me), mas assinalar uma data que promove a luta pela igualdade, a equidade de género, apelando aos estereótipos femininos enraizados é só um bocadinho parvo.

 

No entanto, não me apetece desenvolver nada disto. Não em apetece chafurdar nas polémicas do costume. No Dia Internacional da Mulher, apetece-me falar de uma mulher.

 

Normalmente não sou grande ouvinte de música pop, mas dei de caras com esta belezura há umas semanas. Laura Pergolizzi, conhecido por LP, cantora, compositora, letrista, faz umas músicas à maneira. Depois, a parte estética acaba por completar o meu recente fascínio. Longe da imagem dos ícones pop que fazem da exposição do corpo parte do pacote musical (não há música pop sem nádegas firmes a badalar, mamocas a espreitar, roupinhas reduzidas a deixar muito pouco à imaginação), LP distancia-se desse tipo de diva pop. Lésbica assumida, o seu aspeto físico deixa a dúvida se estamos a olhar para um homem ou uma mulher. Magra, vestida até às orelhas, sobra apenas a música, a voz, as letras. A androgenia casa de forma perfeita com a voz forte, feminina e combativa. E os videoclipes, apesar de sensuais, são de uma sensualidade feminina, um olhar feminino sobre a mulher, nada foleiro, nada chunga. A mulher pode estar seminua ou mesmo nua sem que se passe a imagem de que se olha um objeto, um ser sexualizado indutor de prazer (dou por mim a pensar, depois destas palavras, que hoje estou um bocadinho lésbica).

 

No Dia Internacional da Mulher, a música de uma mulher como banda sonora para o dia que marca uma luta que ainda não acabou.

 

LP, Other people

 

LP, Tokyo Sunrise

 

LP, Lost on you

A evidência física da morte

A vida é feita de uma composição de ambições, pequenos medos, pensamentos impronunciáveis, evidências avassaladoras que nos tolhem os movimentos ou nos impelem a agir impulsivamente, paixões secretas.

 

No que aos medos dizem respeitos, tento sempre fazer uma autoanálise daquilo que me incomoda, em jeito de psicanálise caseira, enfrentar os incómodos, confrontar ao invés de recalcar. Mas os anos vão passando e certos medos, que nem são bem medos, são algo revestido de uma substância de incompreensão em fina película de pânico, continuam a incomodar-me de forma inexplicável.

 

A evidência física da morte, o corpo morto, gera em mim tal desconforto que as minhas palavras não chegam para explicar o transtorno interno em que me vejo submergida.

 

Inicialmente, o mero vislumbre ao longe de um cadáver a repousar num caixão era coisa para me deixar insone durante semanas. Num contraste absoluto, nunca tive qualquer receio em escrever sobre a morte, a perda, o efeito do vazio deixado por alguém que parte. Não só nunca me senti desconfortável por discorrer sobre o tema, como é um tópico que me atrai. Uma adolescência tormentosa, pontuada aqui e ali por pensamentos suicidas tornou a morte uma personagem principal dos meus pensamentos existencialistas e dos meus escritos dispersos.

 

A morte, na forma abstrata, no vazio, não é um incómodo, mas a evidência física da morte continua a sê-lo. Com os anos, com a morte de dois avós, mas já com mais de três décadas vividas, comecei a conseguir conviver mais pacificamente com o corpo morto. Ver alguém prostrado num caixão durante um velório já não me tira o sono, já não me persegue em forma de terror noturno. Mas o toque… mesmo que a pessoa morta seja alguém próximo, um familiar que amo, cuja perda se faz sentir de forma aguda, criando um tornado de memórias, imagens do passado, reminiscências que fazem chorar e rir, nada me impele ao toque. E este medo do toque é de um absurdo que reconheço, mas não ultrapasso. Se era capaz de acariciar alguém apenas segundos antes da morte, qual a razão desta incapacidade de levar as minhas mãos às mãos daquele que ali jaz, morto, mas familiar?

 

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Fotografia da época vitoriana, onde era comum serem fotografados os familiares com algum membro da família falecido, como último (e muitas vezes único) registo do ente querido falecido. Fotografia tirada daqui. 

 

E esta minha fuga ao confronto com a prova terrena da morte, do fim, não se limita aos seres humanos, aos cadáveres homo sapiens. Qualquer cadáver me causa desconforto semelhante, seja humano, de um gato, de um cão, de um pássaro.

Há uns verões atrás, um melro fêmea embateu violentamente contra a porta de minha casa. Morreu instantaneamente. Era uma ave tão bela, que jazia ali prostrada no tapete, como se dormisse, sem que no seu corpo restasse qualquer evidência daquela morte súbita, violenta.

 

Normalmente é o meu marido que enterra os animais que têm fins semelhantes. Numa dessas «cerimónias fúnebres» de um melro atropelado, fez mesmo uma descoberta surpreendente que relato aqui. Dessa vez, a morte transmutou-se em vida.

 

Naquele dia, ele não estava em casa e a imagem da melrinha morta impelia-me a fazer alguma coisa. Não conseguia tocar-lhe, mesmo que entre o seu corpo e os meus dedos estivessem umas luvas, um saco, qualquer coisa. E todas as minhas tentativas só acresciam mais tormento ao já meu tormentoso estado. Consegui pegar-lhe com a ajuda de uma pá e enterrá-la e, ao colocar-lhe terra por cima, chorei como se ali jazesse um ente querido. Chorei de uma forma tão ridícula, tão ruidosa, como não chorei sequer quando os meus avós faleceram.

 

Saber o quão grotesco é o meu comportamento não o faz desaparecer. Obrigar-me a tocar, confrontando o meu medo absurdo, talvez aniquilasse de uma vez este receio, mas está para além do que neste momento me sinto capaz.

 

Os meus dedos, a minha mão quente, nos dedos frios, na mão pálida e sem circulação de alguém que partiu é, neste momento, um medo inultrapassável.