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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Museu Vasa

O céu estava cinzento, carregado de pesadas nuvens escuras, e nevava. Era um dia frio de fevereiro. Apesar do cenário invernoso, a paisagem era idílica. A cidade coberta de branco e os pináculos de igrejas ou outros edifícios altos a sobressaírem como torres de palácios de um conto de fadas. Há cidades que nem o pesado inverno, as bermas das estradas enlameadas de neve derretida, o desconforto do frio e da roupa húmida, conseguem apagar a magia daquele local. Estocolmo é assim.

 

Caminhávamos e ao longe já conseguíamos vislumbrar uns gigantescos mastros a «rasgar» um edifício na pequena ilha de Djurgården. Visualmente estranho, como se um feiticeiro tivesse feito crescer um pequeno barco de brincar ao ponto deste, dentro de casa, crescer, crescer e irromper pelo teto do edifício, até ao tamanho de um navio de guerra gigantesco.

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Imagem retirada daqui.

 

Todos os museus, maiores ou mais pequenos, em grandes cidades ou perdidos numa pequena localidade, são fonte de conhecimento. O seu espólio, a arquitetura do edifício, atraem aqueles que os visitam e são, em regra, promotores da difusão histórica, artística, científica ou natural de um local.

 

Museu Vasa é isso, mas consegue transpor essa fronteira para um domínio da fantasia, das viagens no tempo, consegue transportar o visitante para uma realidade paralela distante.

 

É a arquitetura do edifício, os mastros a crescerem rumo ao céu, o espólio bem preservado, mas é também a história por trás, a história do próprio navio Vasa que nos transporta a um imaginário de outros tempos.

 

Em 1628, o navio de guerra Vasa deixava o porto de Estocolmo na sua viagem inaugural. Para assinalar a importante data sua primeira viagem, foram disparados tiros de canhão das canhoeiras laterais do navio. Infelizmente, quando se aproximavam da saída do porto, umas quantas rajadas de vento fizeram tombar a embarcação, a água entrou através das canhoeiras ainda abertas, levando o navio a afundar-se ainda no porto. Dos 150 tripulantes, estima-se que entre 30 a 50 tenham perdido a vida, submergindo juntamente com a embarcação.

 

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Vasa jazeu debaixo de água durante 333 anos. Nos anos cinquenta do século XX, Anders Franzén começou a procurar o navio, encontrando-o, mas ainda demoraram alguns anos de preparação para que o Vasa voltasse a ver a luz do dia. Em 1961 voltou à tona, onde se seguiram anos de recuperação, apesar do navio e seu recheio, devido ao tipo de águas (salobras) onde se tinha afundado estar em relativo bom estado de conservação. Agora, o Vasa é o único navio de guerra do século XVII existente no mundo. Com o Vasa, foram recuperados inúmeros objetos, magníficas estátuas decorativas do navio e artefactos vários que compõem o espólio atual do museu. Para além das peças pertencentes ao navio, o Museu Vasa tenta ainda reconstruir no seu espaço fragmentos da época histórica do Vasa, através da reconstrução física através dos restos mortais de alguns tripulantes da embarcação, das suas roupas, objetos pessoais e costumes da época.

 

O Navio Vasa, com todos os seus detalhes arquitetónicos intrincados, ergue-se à frente dos visitantes não como um achado deslocado do seu tempo, mas como uma imagem inserida na sua época. Se nos abstrairmos do burburinho dos outros visitantes, mergulhamos numa Estocolmo de 1628, sentimos-lhe o cheiro, ouvimos-lhe os sons, captamos um pouco da alma daqueles tempos. O colosso que é aquele navio quase magicamente preservado ao longo de quase quatro séculos, é de tirar o fôlego pela sua imponência.

 

Dos vários museus que visitei na Suécia, este foi, sem sombra de dúvida, o mais memorável. Não é um museu, é uma cápsula do tempo.

Mas esta pequena ilha, Djurgården, tem ainda outros dois museus de visita obrigatóri para quem visita Estocolmo: Musei Nórdico e Skansen.  

 

 

 

Trump e o humor

Quando Trump foi eleito escrevi um texto sobre o lado positivo dessa eleição, na tentativa de aplacar os meus medos — pela frente teríamos anos de pura animação, de humor desbragado e, ao fim ao cabo, havendo humor, até a caminhada para o cadafalso pode ser transformada numa barrigada de riso.

 

Se alguns espetadores destas eleições pensaram que aquela pessoa que se comportava como um doido lunático durante a campanha era apenas uma personagem, uma persona criada para cativar os descontentes, que a eleição traria aos olhos de todos um homem mais sensato, ponderado e menos histriónico, essas pessoas enganaram-se redondamente. Trump não perdeu tempo em dar material para os humoristas trabalharem. E, desde o primeiro dia após a vitória, o humor, a comédia não tem tido mãos a medir para carregar para a fornalha toda a lenha que lhe tem sido atirada.

 

Para alguns, o humor tem sido a mais importante arma de oposição às políticas de Trump, a melhor forma de expor as contradições dos seus atos e palavras. Todavia, para outros, fazer humor com algo tão sério, acarreta o risco da minimização, da normalização e, também, da saturação. É ainda uma forma de resistência passiva, sem qualquer retorno prático. A fixação na figura apalhaçada de Trump pode levar para segundo plano aquilo que será o mais importante, as suas políticas.

 

Sendo assim, será o humor a melhor forma de resistência ou será esse mesmo humor uma forma de habituação a uma realidade disruptiva e com contornos alucinados?

 

Não tenho uma resposta e talvez seja um pouco das duas coisas — resistência e assimilação.

 

Mas, fugindo a estas dúvidas incontornáveis, o certo é que o humor está a ser a arma de eleição, independentemente de ser a correta ou não. As audiências do programa Saturday Night Live dispararam no último mês, com os seus quadros humorísticos a disseminaram-se um pouco por todo o mundo. Os programas de Stephen Colbert, Trevor Noah, John Oliver expõem afincadamente as gralhas e absurdos diários de Trump e do seu staff e o segmento «a closer look» de Seth Meyers do Late Night Show tornou-se uma espécie de forma alternativa para perceber as notícias recentes sem ver um canal noticioso.

 

E no fundo, é um pouco como Trevor Noah explicou no Today Show — observar a realidade nos E.U.A. na atualidade é um pouco como estar a ver em primeira mão um asteroide em forma de pénis a aproximar-se da terra — há o pânico, o terror, mas há a inevitável galhofa causada pela forma do pedregulho que irá aniquilar toda a gente.

 

Saturday Night Live - Melissa McCarthy como Sean Spicer

 

Today Show com Trevor Noah

 

 Late Night com Seth Meyers

 

 

Praxes — o aniquilamento do espírito crítico

Esta semana saiu uma notícia sobre um vídeo polémico de praxes numa universidade portuguesa. O assunto das praxes, com vídeos ou sem vídeos controversos, é, em si mesmo, um assunto polémico. Uns defendem-nas, outros atacam-nas, uns acham-nas uma boa maneira de integração, outros vêm-nas como fonte de humilhação.

 

No que a mim diz respeito, quando ainda era adolescente, recordo passar mos centros de certas cidades e assistir a rituais de praxe (alunos com caras pintadas, com penicos na cabeça, cobertos de farinha, com cartazes ofensivos ao peito, sem alguma peça de roupa, a cantar melodias com letras parvas), que mesmo sob o meu olhar jovem eu considerava aparvalhados e humilhantes. Anos antes de ingressar no ensino superior, já tinha a convicção de que jamais me submeteria a algo assim, mesmo que aquilo fosse a chave para a integração (também nunca senti grande vontade de me integrar ou de pertencer a um grupo só porque sim, sem que algo de substancial me unisse a essas pessoas).

 

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Foto Paulete Matos, retirada daqui.

 

Desde sempre senti uma aversão à submissão e à obediência e, para mim, as praxes tratam disso — de uma integração que é feita através da submissão, subserviência e obediência cega. Embora possamos olhar para todo o ritual como uma brincadeira que pretende integrar aqueles que chegam, a verdade é que a união que se cria entre os novos alunos tem como base a humilhação. Estão todos juntos na humilhação e aquilo que os une não são traços de carácter ou interesses comuns, mas serem todos vítimas de uma circunstância, de um ritual.

 

Quando finalmente entrei para o ensino superior, felizmente ingressei numa escola com alergia crónica a todos esses aspetos carnavalescos da vida académica. Não houve praxes, não houve trajes, não houve semana académica, fitinhas coloridas e sei lá mais o quê. Entrei naquele estabelecimento sendo eu, a Sónia, e não como membro de um rebanho de vítimas.

 

Olhando para a praxe como um fenómeno já enraizado na vida académica do nosso país, sinto uma espécie de revolta: a chegada à idade adulta, que pode culminar com a ida para a universidade, o afastamento de casa e das figuras paternais, a chegada de uma liberdade nova, deveria ter o seu início marcado, deveria ter o seu ritual de iniciação assinalado pela subversão, pela exploração daquele mundo novo. No entanto, num paradoxo, fica marcado exatamente pelo inverso: pela submissão, subserviência e obediência.

 

Se pensar em qual será a verdadeira essência da experiência académica, esta deveria estar fundeada no questionamento. Toda a aprendizagem deveria ter como alicerce o questionamento, o espírito crítico. No entanto, aquilo que marca o início de uma nova etapa de aprendizagem renega por completo o questionamento e sanciona quem ouse questionar.

 

Aquele que não quiser ou questionar um ritual de praxe é ameaçado com a exclusão da vida académica, a proibição do uso do traje ou a não participação em atividades ou festas que lhe estejam associadas.

 

Se esta ameaça para mim seria digna de causar riso (é que nem obrigada me enfiavam uma capinha de Batman), para muitos jovens e até as suas famílias, o uso do traje, a participação no desfile, a ida a festas, são marcos importantes para a caracterização do seu percurso académico. E é o conhecimento deste facto que está na base da chantagem. O querer pertencer, o querer fazer parte, o estar incluído no que se assemelha a uma etapa normal da vida académica leva muitos alunos a submeterem-se a coisas que, em muitos casos, vão contra as suas convicções. E em muitos outros casos, talvez nem existam convicções próprias sobre o assunto, mas também não há questionamento — se é suposto fazer, eu faço, se é assim que funciona, eu alinho.

 

Pensando ainda na praxe como um fenómeno e tentando perceber o seu impacto, o uso que é feito do poder e a sequente submissão a esse poder é, de uma forma interessante, passível de se verificar na engrenagem social do nosso país. Quem tem poder, usa-o muitas vezes de forma abusiva e com total impunidade e aqueles que se submetem, fazem-no acreditando que também um dia poderão usar de poder semelhante, submetendo outros à fúria desse poder. A hierarquia funciona não através do mérito, mas do uso de um poder que não pode ser questionado e que, não raras vezes, está alicerçado na corrupção.

 

Não poderei culpar as praxes pela nossa imensa tolerância à corrupção e até o desejo secreto de poder de alguma forma beneficiar dela. Talvez a praxe seja um efeito e não a causa. No entanto, através dela, de uma drástica mudança daquilo que a praxe é atualmente, poder-se-ia recuperar aquilo que deveria ser a semente do conhecimento, a chave para uma engrenagem social de sucesso — o espírito crítico.

 

Assim, urge um movimento paralelo universitário. É urgente que aqueles que não se identificam com estes rituais de «inclusão», se unam e criem um movimento de boas vindas e integração com uma diferente índole, cuja base seja a exploração daquele mundo novo e a não a humilhação como traço de união.

A paixão consome

Ontem, quando fui buscar o meu filho à escola, ele tinha uma grande novidade para me contar. Tinha uma namorada. Uma colega de escola arrebatara-lhe o coração.

 

 — Mãe, eu «amo-la» tanto.

 

O erro gramatical só me fez achar ainda mais graça à situação. Estamos a falar de uma criança de 6 anos e da sua perceção do amor e aquela frase roubada dos adultos tornou a conversa muito caricata. E que conversa. Já metia lutas ao barulho, pois outro colega demonstrava semelhante interesse pela mesma menina e pairava o perigo do tal lhe «roubar» a namorada.

 

Depois da escola, fomos ao supermercado e, não fosse ontem o dia dos namorados, a evidência consumista da data estava em todo lado. Eram chocolates, flores, perfumes, peluches.

 

O meu querido filho, como principiante nestas viagens da paixão, deixou-se levar pelo ímpeto consumista/amoroso. O amor teria de ser demonstrado por uma oferta especial.

 

— Tenho de lhe oferecer uma prenda dos namorados, mãe. Pode ser?

 

O arrebate era tanto que o magano queria comprar chocolates, livros, peluches e brinquedos para oferecer à namorada nova. Tive de refrear aquele consumismo «valentínico» desenfreado, mas não pude negar um pequeno presente. Uma caixa de bombocas de chocolate.

 

Hoje, lá foi ele para a escola com o presente embrulhado e um desenho feito com muita dedicação (cheio de corações vermelhos) para ofertar à sua colega namorada.

 

Em suma, apesar do altruismo da compra, a paixão é consumista, a paixão consome.

Jo Nesbø — a arte dos excessos

Spoiler alert

 

Quanto pode aguentar um homem, um personagem, para que as ocorrências da sua vida possam ser consideradas excessivas, inverosímeis?

 

Enquanto leitores, nomeadamente de livros policiais, somos, página após página, manipulados a ultrapassar a barreira da verosimilhança através da mestria do escritor que elaborou aquela trama.

 

Não me causa transtorno ler um policial de Yrsa Sigurdardóttir e Arnaldur Indridason, ambos escritores islandeses, apesar de conhecer a estatística de assassinatos na Islândia e perceber que qualquer história sobre um atarefado detetive de homicídios em Reykjavík será pura fantasia (0 a 2 homicídios no país por ano não será motivo para tanta canseira). Não custa engolir que um pacato país como a Noruega tenha o azar de levar com dois ou três assassinos em série num curto período de tempo. A forma como a mentira se torna verosímil é, em si, prova da capacidade do autor que me guia pelas páginas daquele policial.

 

Mas será que haverá um ponto de rutura, um momento em que o excesso, as provações de um personagem alcançam o ponto da inverosimilhança?

 

Acabei de ler o livro Polícia, de Jo Nesbø, o último livro traduzido em Portugal da saga do detetive Harry Hole, que já conta com 10 livros. Confesso que ansiava com alguma expetativa esta leitura. O último livro deixara a forte impressão, se não mesmo evidência, que o casmurro Hole tinha morrido às mãos do seu enteado, sendo aquelas as últimas páginas do personagem.

 

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Polícia, de Jo Nesbø, Editora D. Quixote

 

Ao décimo primeiro livro de Nesbø já não me posso escudar em desculpas do não conhecimento sobre a quase obscena manipulação que o escritor faz dos leitores. Eu sei como ele funciona e, embora mergulhada numa certa vergonha, eu gosto. Todo o livro é montado como um gigantesco puzzle onde cada peça tem de encaixar na perfeição, mas onde certas peças foram desenhadas para iludir, criar falsas impressões, causar suspeições infundadas. Com isto, o leitor passa a quase totalidade do livro «com o coração nas mãos», num estado de pura exaltação, emoções que ajudam a esconder os detalhes importantes por trás da pirotecnia da manipulação e, mais fundamental ainda, prendem o leitor ao livro, tornando-se impossível deixar aquele calhamaço abandonado a meio. A leitura já não é propriamente prazerosa, é quase doentia, compulsiva, mas talvez estes atributos sejam, de alguma forma, intrínsecos à leitura de romances policiais.

 

No entanto, quando ontem acabei o livro, depois de uma semana de leitura frenética e depois de uma década de leitura de Nesbø e dos livros de Harry Hole, fiquei mergulhada numa espécie de irritação. Como se falasse com Nesbø, murmurava-lhe: «raios, permito-te a manipulação, permito-te que me enganes consecutivamente, mas não achas que enough is enough

 

Harry Hole, ao longo da dezena de livros, já foi diversas vezes baleado, esfaqueado, sovado, sobreviveu a uma bomba, a uma dilaceração gravíssima do rosto e no meio de tanta catástrofe física, Harry continua vivo, embora bastante escaqueirado. Além das provações físicas, vários colegas próximos de Harry foram assassinados, personagens que, na altura, julgávamos impossível o autor ter coragem de «matar», dado a proximidade ao personagem principal. Também a sua família mais próxima (namorada e enteado) já sofreram às mãos de assassinos, ficando a um piscar de olhos de uma morte horrível.

 

E se durante a leitura, devido ao ritmo narrativo acelerado e à habilidade do autor, todos estes terrores excessivos passam no crivo da verosimilhança, ontem, quando acabei a leitura, senti que Nesbø tinha ultrapassado a linha do excesso. Suporto que, naquelas páginas, alguém cometa os mais atrozes crimes, mas já me custa a engolir que um detetive esteja à beira da morte certa de cem em cem páginas, que aquela vida esteja tão cheia de provações, algumas delas aparentemente impossíveis de ultrapassar, mas que, ainda assim, aquele personagem sobreviva (apesar de baleado, esfaqueado, sovado, explodido) e, mesmo que bêbedo ou drogado, prossiga com a sua vida.

 

E, embrulhada num sentimento algo ambíguo, desejei que Hole tivesse morrido, que Nesbø tivesse tido a coragem de o matar. Mas Hole sobreviveu a mais um livro e apanhou os maus da fita.

 

Já eu, leitora, não tenho bem a certeza se desta vez sobrevivi a Nesbø.

A ponte do passado

Quando se faz parte de um sítio, a paisagem envolvente torna-se ar que se respira. Não deslumbra, não espanta, está lá, é familiar, intrínseca ao espaço e aos seus habitantes.

Sentia isso com a minha terra, mas com o passar dos anos, o que era familiar passou a deslumbrar, o que era tido como adquirido, passou a causar espanto. Quanto mais conhecia do mundo, mais os pequenos detalhes do meu recanto ganhavam importância.

Vivo numa pequena localidade, Sever do Vouga, numa pequena freguesia, Pessegueiro do Vouga, que têm como cartão de visita principal uma ponte ferroviária. A minha terra não será a minha terra sem aquela ponte. É o que a caracteriza, a imagem simbólica deste local. Construída em 1913 (início da construção), por lá passaram comboios a vapor, depois automotoras, até à extinção completa da linha em 1990. Da minha infância, recordo uma única viagem que fiz na automotora. Fui com a minha tia a uma cidade próxima. De toda a viagem, da totalidade do percurso, na minha mente permaneceu apenas a passagem da composição em cima da ponte de pedra. O meu fascínio revestido de medo, a vista do rio ao fundo sob o meu olhar de 6 ou 7 anos.

 

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Primeira imagem é do arquivo de João Pereira, segunda imagem retirada de https://www.flickr.com/photos/ccdrc/5869628278/in/photostream/.

 

Na década seguinte, o troço ferroviário mergulhou na decadência. A estação, o percurso da linha e a fábrica que ficava em frente à estação, uma das maiores unidades fabris da zona há 50 anos (uma fábrica de massas alimentares que chegou a ter centenas de funcionários) e que posteriormente entrou em declínio, faliu, tornaram-se em espaços decadentes, um esgar retorcido do que tinham sido no passado. De entre os escombros da passagem do tempo, apenas a ponte brilhava entre as margens do rio Vouga, ainda bela e imponente.

Mais recentemente, a forma como a gestão destes espaços decadentes era feita mudou radicalmente. A linha do comboio foi transformada numa ecopista para caminhadas e percursos de bicicleta. Primeiro, da estação de Paradela até ao fim do concelho, na zona da Foz e, posteriormente, no sentido inverso, de Paradela até ao apeadeiro seguinte, na freguesia de Cedrim. Depois, a estação de Paradela foi recuperada das ruinas e transformada no que é hoje o Paradela Eco café, um espaço com valência de cafetaria, aluguer de bicicletas, uma pequena biblioteca e zonas para exposições e workshops.

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Primeira imagem retirada de http://os-caminhos-de-ferro.blogspot.pt/2012/03/linha-do-vouga-ramal-de-viseu-um-pouco.html, segunda imagem, fonte própria.  

 

Também a antiga fábrica, cujo o edifício acabou por ser comprado pela autarquia, foi recuperado e transformado num grande edifício com várias valências: escola profissional (com cerca de 500 alunos), incubadora de empresas (com mais de uma dezena de empresas lá sediadas) e uma clínica médica.

Todo um espaço, que décadas atrás era uma zona movimentada, de grande frenesim, renasceu dos escombros e trouxe um sopro de vida a uma localidade entristecida pela decadência que a rodeava.

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Imagens prórpias.

 

Agora, quando caminho pelo percurso onde antes passava o comboio, quando passo pelos tuneis enegrecidos pelo carvão das composições a vapor, vejo o passado a espreitar de cara lavada por entre a paisagem verdejante envolvente e quando me sento na esplanada do café da estação, consigo sentir a animação das vozes do passado transfiguradas nas conversas púberes dos estudantes da escola.

No fundo, quero apenas acreditar que Lavoisier tinha razão: nada se perde, tudo se transforma. E que essa transformação não seja feita de esquecimento, mas de renascimento e renovação.

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Imagens invernosas da ecopista. Imagens próprias.

 

 

A ruga

 

 

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Entre as sobrancelhas, acima da cana do nariz, um vinco na pele em forma de Y invertido — a lembrança dos milhares de vezes em que franzi o sobrolho (de assombro, de raiva, de medo, de surpresa, num gesto reflexo de proteção dos olhos contra os raios solares). A repetição dos dias, a repetição da rotina gravada num vinco geométrico na pele.

 

Agora, quando me vejo ao espelho, parece que nada mais resta no meu rosto que não seja aquilo, aquela evidência da passagem do tempo. E não são as questões cosméticas que me afetam, me desmoralizam. O envelhecimento é algo intrínseco à vivência humana. Por mais que se estique aqui, se encha acolá, a passagem do tempo está gravada no corpo, mais não seja através desses processos que a tentam reverter, transformando corpos velhos em quimeras.

 

Mas a minha ruga não é um sinal de envelhecimento. A minha ruga é uma ampulheta, um cronómetro que me escancara na cara o esgotamento do meu tempo. A minha ruga é um riso de escárnio pelo meu descaramento juvenil, pelos projetos, os sonhos que arquitetei na minha cabeça, numa altura em que a vida parecia uma longa autoestrada, interminável, à minha frente. A minha ruga é o sinal do meu fracasso e da minha impotência. A minha ruga é o percurso de costas que faço contra a parede, encurralada pelo tempo.

 

Tic-tac, tic-tac, o tempo esvai-se.

Leis gerais do entalanço cósmico

— Se saíres de casa com os minutos contados, acreditando que o tempo médio que normalmente levas a fazer o percurso entre sítio A e sítio B se aplicará naquele dia:

  • será a concentração nacional de papa-reformas e a tua rua será o ponto de partida,  
  • camiões de pedra afluirão à estrada para uma qualquer obra desconhecida, fazendo o percurso à tua frente nuns lentos 20 kms/h e em todas as retas, onde a ultrapassagem seria possível, virão carros de frente;
  • nos cruzamentos com ruas que julgavas serem sem saída ou que davam diretamente para um descampado (pois nunca antes de lá viste vir nenhuma viatura), virão dezenas de carros, como se de uma comitiva de um casamento se tratasse;
  • o teu vizinho de 93 anos, que milagrosamente conseguiu a renovação da carta de condução, sairá à rua no seu velho carro cheio de peluches e almofadas na chapeleira, conduzindo à tua frente nuns alucinados 15 kms/h, com travagens repentinas e mudanças de direção sem direito a sinalização luminosa, obrigando-te a manter uma distância de segurança e uma velocidade média reduzida/quase parada;
  • chegarás 25 minutos atrasado a teu destino.

 

— Se tiveres uma entrevista de emprego e não quiseres chegar atrasado, para não causar má impressão, sairás de casa acrescentando 10 minutos ao tempo que normalmente levas a fazer o percurso, mas nesse dia:

  • parecerá que todos os habitantes da terra foram abduzidos por extraterrestres (à exceção de ti), pois não encontrarás ninguém na estrada nem nos cruzamentos;
  • todos os semáforos estarão milagrosamente verdes, mesmo aquele que só está verde durante 10 segundos e que, nunca, mas nunca, na tua existência, conseguiste passar sem antes parar 1 minuto no vermelho;
  • encontrarás um lugar de estacionamento mesmo à porta do edifício onde vais à entrevista, como se ele lá estivesse reservado para ti;
  • chegarás 30 minutos antes da hora marcada e ficarás na sala de espera aguardando com ar de parvo (ainda estão dois candidatos à tua frente que tinham entrevista marcada para um horário antes do teu), e todo aquele desconforto acrescentará uma grande dose de nervos que se refletirão no teu desempenho na entrevista.

 

— Se mudares de fila de supermercado, porque a fila do lado parece estar a andar mais rápido do que a tua, quando estiveres com as compras já pousadas na passadeira:

  • será a hora da mudança da funcionária da caixa. Ela contará todo o dinheiro, fará contas e mais contas, enfiará notas em sacos e só depois virá a outra funcionária;
  • um dos clientes trará algum produto sem etiqueta e terá de se deslocar ao supermercado para procurar um produto semelhante, mas com código de barras,
  • um dos clientes, ao tentar fazer o pagamento, tentará usar uma dezena de cartões, mas nenhum deles funcionará;
  • a funcionária da caixa enganar-se-á passar um produto e terá de chamar a gerente de loja para corrigir o erro, mas a gerente estava na casa de banho e demora uns cinco minutos a aparecer;
  • o rolo de papel da máquina acabará, a funcionária não encontra nenhum novo na gaveta, terá de pedir ajuda a alguém para poder mudar o rolo;
  • ficarás a olhar para a fila que tinhas abandonado e que agora flui com rapidez. Todas as pessoas que antes estavam atrás de ti foram atendidas e tu juras para ti mesmo que nunca mais trocarás de fila de caixa.

 

— Se estiveres muito aflito para ir à casa de banho, todas as casas de banho do edifício (referentes ao teu género) estarão em manutenção. Acabas por decidir usar a casa de banho destinada a deficientes, pois acreditas que esta raramente é usada:

  •  serás surpreendido à saída por uma pessoa em cadeira de rodas esperando pacientemente. Essa pessoa lançar-te-á um forte olhar de repreensão por usares uma casa de banho que não te é destinada.

 

— Se a aflição for de origem intestinal, conseguirás encontrar uma casa de banho, terá a sanita entupida, mas a aflição é tanta que te sujeitarás a usá-la, deixando-a num estado ainda mais lastimável do que a tinhas encontrado,

  • mas não haverá papel higiênico e terás de usar (com grande contenção e habilidade) todos os lenços meio ranhosos que tinhas nos bolsos das calças.
  • e quando saíres, aliviado, serás confrontado por uma fila de pessoas que estarão à espera e que serão testemunhas da desgraça que lá deixaste. Ficarás extremamente embasbacado.

 

— Se estiveres a ler um livro que é um autêntico calhamaço, impresso com letra pequena, quase sem parágrafos e nem capítulos, deixarás cair o marcador e demorarás meia hora a encontrar a página onde estavas. Quando finalmente a encontras, o livro é tão pesado que te escapa da mão, sem que chegasses a ter tempo a enfiar lá dentro o marcador.

 

Nota: lista de leis cósmicas ainda em aberto.

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Vou para não ficar (excerto IX)

Movia-se como se temesse que a floresta estivesse minada e cada passo pudesse ser o último. Encostei-me a uma árvore, senti o arranhar do tronco irregular no meu braço esquerdo e fitei-o, monitorizando cada movimento, o seu toque inconsciente com a mão direita, de dez em dez segundos, no corpo da metralhadora pendurada no ombro direito, o olhar circundante que tudo queria abarcar, que pousava dois ou três segundos em cada recanto. A uns cinquenta metros, esse mesmo olhar perscrutador deu comigo e fê-lo deter-se, agarrar na arma com rapidez e apontar-ma por entre árvores. Não me mexi. Ele não começou de imediato a caminhar. Ficou parado, de arma em riste, a espreitar-me por entre a vegetação, recomeçando a andar lentamente depois de constatar a minha inação. Quando estava a meia dúzia de metros de mim, parou e ali ficou, a apontar-me a metralhadora sem nada dizer. Não são precisas palavras na violência. Bastam as ações.

Lembrar-se-ia de mim? Sei que mudei, que sou um pálido, distorcido reflexo do que era há uns meses. Mas talvez algo de mim tenha permanecido na sua memória.

Embora o tenha reconhecido ao longe, a imagem grotesca que guardava dele era um contraste absurdo com a realidade. Ele era apenas um miúdo. Por entre a sujidade daquele rosto de feições retesadas pela adrenalina, vislumbravam-se as borbulhas típicas de um rosto ainda púbere. Mais novo, mais baixo, menos entroncado do que me lembrava. Também ele era um pálido, distorcido reflexo da imagem guardada na minha cabeça. Mas embora o aspeto fosse distante da recordação, a expressão era a mesma. A personalidade projetava-se em cada detalhe da fisionomia do rosto. A testa franzida, os maxilares tencionados, o queixo levantado num desafio, traduziam a clara necessidade de se sentir valorizado, um ego ferido, uma gritante necessidade de amor. Senti mesmo, por breves instantes, vontade de o abraçar.

[...]

Quando as suas conexões cerebrais estabeleceram uma ligação entre aquela pessoa que estava à sua frente e um rosto do passado, proferiu: «Puta que pariu. Não acredito no que estou a ver.» Desatou a rir, fazendo a metralhadora movimentar-se ao sabor do estremecimento físico causado pelo riso. Para ele, eu era como um palhaço mal ataviado numa festa infantil. Ria-se da minha presença inusitada, a quilómetros de casa, da minha barriga, fruto do brilhante desempenho do seu coleguinha, do meu semblante cansado, envelhecido e ria-se das memórias aparentemente agradáveis do nosso primeiro encontro.

Fechei os olhos. O riso, o timbre da sua voz… 

Apenas ansiava por um pouco de música e esse anseio, naquele momento, quase ao nível desesperado do querer comida quando se está esfaimado, querer roupa quando se está dominado pelo frio, despertou em mim um rol de emoções tencionadas em sons e imagens.

A primeira vez que ouvi uma música que me levou às lágrimas, o cantor que adorava em criança e que agora considero oficialmente piroso, mas que secretamente ouço de vez em quando, o primeiro concerto da minha banda preferida, o burburinho na sala de espetáculos e os primeiros sons que instantaneamente calaram a plateia, a música a entrar-me ouvidos adentro pelos auriculares enquanto, no meu quarto, olho para o exterior, para o sol forte do meio do verão, que me faz fechar os olhos e lacrimejar, a tua música a dominar a casa nos dias de férias, fazendo os vidros vibrarem, as paredes estremecerem, a minha dança com Ângelo ao som da música que saía daquele rádio velho, os versos em rima na voz enternecedora de Mozart.

Abri os meus olhos.

O cantar dos pássaros, o som da água a correr riachos abaixo, o vento a redemoinhar nas chapas torcidas das casas destruídas, o chocalhar dos guizos do gado, não chegavam. Aquele riso de escárnio, o bater acelerado do meu coração cansado, não bastavam.

Pensava nisso, nessa minha quase vampírica ânsia musical — uma ânsia pela única experiência verdadeiramente transcendente e divina que conhecia — quando lhe parti a maioria dos ossos do rosto. A minha metamorfose, sempre tão rápida e inesperada, apanha todas as minhas vítimas desprevenidas. Este meu agigantamento, um David decidido a confrontar o seu Golias, faz-me agir em segundos, num impulso sem qualquer ensaio ou pensamento prévio. Deixei cair por terra o que trazia nas mãos, peguei num pedregulho que repousava no chão, junto ao tronco da árvore à qual me encostava e saltei para cima dele. Ele caiu para trás. Montada sobre o seu tronco, agredi-o consecutivamente.

Já não estava ali. A minha mente estava noutro sítio qualquer. Flutuava junto à aldeia histórica, voava por cima do rebanho de ovelhas, sentia o peso do calor nas pálpebras quando observava o horizonte desprovido da evidência de qualquer presença humana. O som trouxe-me de volta. Ouvi aquele estalar inconfundível, o partir de uma massa dura mas porosa e também aquele som não tinha nada de musical e odiei-o ainda mais por me dar aquilo e não música. A minha tão ansiada música. Ele não gritou, não berrou e ocorreu‑me que talvez me estivesse a compreender.